{"id":36470,"date":"2026-07-03T13:33:22","date_gmt":"2026-07-03T16:33:22","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36470"},"modified":"2026-07-03T13:33:23","modified_gmt":"2026-07-03T16:33:23","slug":"se-a-natureza-ao-redor-de-uma-cidade-esta-doente-a-populacao-tambem-esta-dentro-do-laboratorio-que-prova-essa-conexao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/se-a-natureza-ao-redor-de-uma-cidade-esta-doente-a-populacao-tambem-esta-dentro-do-laboratorio-que-prova-essa-conexao\/","title":{"rendered":"Se a natureza ao redor de uma cidade est\u00e1 doente, a popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1: dentro do laborat\u00f3rio que prova essa conex\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma planta n\u00e3o fala, mas reage. Muda a cor das folhas, altera seu metabolismo, modifica a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica de seus tecidos quando entra em contato com uma subst\u00e2ncia que n\u00e3o deveria estar ali. \u00c9 exatamente essa capacidade de resposta que pesquisadores do Laborat\u00f3rio de Fisiologia de Plantas sob Estresse (Lafipe), da Universidade Federal do Paran\u00e1, transformaram em ferramenta cient\u00edfica desde 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O laborat\u00f3rio nasceu de uma pergunta que parece simples, mas exige anos de pesquisa para ser respondida com profundidade: como as plantas reagem \u00e0s press\u00f5es que as atividades humanas imp\u00f5em ao ambiente? A partir dela, a equipe passou a investigar como esp\u00e9cies vegetais, algas e outros organismos fotossintetizantes respondem ao contato com antibi\u00f3ticos, herbicidas, res\u00edduos industriais e at\u00e9 compostos derivados de pneus, um tipo de contaminante que s\u00f3 recentemente ganhou aten\u00e7\u00e3o da comunidade cient\u00edfica internacional.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quando a planta vira sensor biol\u00f3gico<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O princ\u00edpio por tr\u00e1s da pesquisa do Lafipe \u00e9 o que a ci\u00eancia chama de biomonitoramento. Organismos vegetais e algas funcionam como sensores vivos, capazes de indicar a presen\u00e7a de contaminantes muito antes que m\u00e9todos convencionais de an\u00e1lise qu\u00edmica identifiquem o problema em escala ambiental. Uma alga que reduz sua taxa fotossint\u00e9tica, uma macr\u00f3fita que altera a colora\u00e7\u00e3o de suas folhas ou uma planta que acumula determinado composto em seus tecidos est\u00e1, na pr\u00e1tica, sinalizando um desequil\u00edbrio que pode n\u00e3o estar vis\u00edvel a olho nu na \u00e1gua ou no solo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa capacidade de resposta \u00e9 o que torna o trabalho do laborat\u00f3rio estrat\u00e9gico n\u00e3o apenas para a ci\u00eancia b\u00e1sica, mas para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de saneamento e controle ambiental. Ao entender exatamente como cada organismo reage a cada tipo de contaminante, \u00e9 poss\u00edvel antecipar riscos antes que eles se transformem em crises de sa\u00fade p\u00fablica, seja pela contamina\u00e7\u00e3o de mananciais, seja pela dissemina\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia bacteriana no ambiente.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Em outras palavras, tentamos responder uma pergunta maior: como usar o conhecimento ecol\u00f3gico e fisiol\u00f3gico das plantas para prevenir problemas ambientais antes que eles se transformem em problemas de sa\u00fade p\u00fablica&#8221;<\/em>, explica o professor Marcelo Pedrosa Gomes, coordenador do Lafipe.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O conceito que une todas as pesquisas do laborat\u00f3rio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por tr\u00e1s de cada projeto desenvolvido no Lafipe est\u00e1 o conceito de Sa\u00fade \u00danica, ou One Health, uma abordagem que ganhou for\u00e7a global ap\u00f3s a pandemia de covid-19 e que parte de uma premissa direta: sa\u00fade humana, sa\u00fade animal e sa\u00fade ambiental s\u00e3o dimens\u00f5es interligadas, n\u00e3o compartimentos isolados. Um ecossistema contaminado n\u00e3o afeta apenas plantas e animais silvestres. Ele compromete, de forma indireta mas mensur\u00e1vel, a qualidade de vida das pessoas que dependem daquele territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa l\u00f3gica orienta as tr\u00eas frentes de atua\u00e7\u00e3o do laborat\u00f3rio: pesquisa cient\u00edfica, extens\u00e3o universit\u00e1ria e inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Na pr\u00e1tica, isso significa que descobertas feitas em bancada n\u00e3o ficam restritas a artigos acad\u00eamicos. Elas se transformam em tecnologias aplic\u00e1veis, em suporte t\u00e9cnico a \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e em educa\u00e7\u00e3o ambiental voltada a escolas e comunidades.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma tecnologia que j\u00e1 sai do papel<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as solu\u00e7\u00f5es desenvolvidas pelo laborat\u00f3rio est\u00e1 o Mara, sigla para Macr\u00f3fitas Aqu\u00e1ticas para Remo\u00e7\u00e3o de Antimicrobianos. O sistema utiliza plantas aqu\u00e1ticas como filtro biol\u00f3gico para remover res\u00edduos de antibi\u00f3ticos presentes na \u00e1gua, um problema crescente em regi\u00f5es com forte press\u00e3o de esgoto dom\u00e9stico e efluentes hospitalares. A tecnologia j\u00e1 passou por testes em parceria com a Sanepar, companhia de saneamento do Paran\u00e1, o que indica um caminho real de aplica\u00e7\u00e3o em escala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O interesse por esse tipo de solu\u00e7\u00e3o cresce \u00e0 medida que a comunidade cient\u00edfica internacional reconhece a resist\u00eancia antimicrobiana como uma das maiores amea\u00e7as \u00e0 sa\u00fade global das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Sistemas como o Mara representam uma alternativa de baixo custo e impacto ambiental reduzido frente a tecnologias convencionais de tratamento, que costumam depender de processos qu\u00edmicos mais agressivos e onerosos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quando o glifosato se conecta \u00e0 resist\u00eancia bacteriana<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos estudos mais reveladores conduzidos no Lafipe investiga uma conex\u00e3o que poucas pessoas associariam \u00e0 primeira vista. Sob orienta\u00e7\u00e3o do doutorado em Ecologia e Conserva\u00e7\u00e3o, a pesquisadora Let\u00edcia Malinoski investiga como herbicidas amplamente utilizados na agricultura, como o glifosato, podem contribuir para o surgimento de bact\u00e9rias resistentes a antibi\u00f3ticos no ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mecanismo por tr\u00e1s dessa rela\u00e7\u00e3o envolve press\u00e3o seletiva: ao alterar o equil\u00edbrio microbiano do solo e da \u00e1gua, o herbicida pode favorecer a sobreviv\u00eancia e prolifera\u00e7\u00e3o de linhagens bacterianas mais resistentes, que posteriormente entram em contato com popula\u00e7\u00f5es humanas por meio da \u00e1gua, do solo ou da cadeia alimentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Se a natureza ao redor de uma popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 doente, \u00e9 muito prov\u00e1vel que aquela popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m esteja&#8221;<\/em>, alerta a pesquisadora, resumindo em uma frase o n\u00facleo do conceito de Sa\u00fade \u00danica que orienta todo o laborat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra pesquisa em andamento, conduzida pela doutoranda em Bot\u00e2nica Let\u00edcia Esp\u00edndola, combina fungos e plantas em um sistema conjunto para o tratamento de \u00e1guas residu\u00e1rias. O projeto une pesquisa de bancada e extens\u00e3o universit\u00e1ria por meio de a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o ambiental voltadas \u00e0s comunidades atendidas. <em>&#8220;O desejo \u00e9 unir ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o para transformar a realidade&#8221;<\/em>, resume a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ci\u00eancia que sai da universidade e chega \u00e0 comunidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que distingue o Lafipe de muitos laborat\u00f3rios de pesquisa \u00e9 a intensidade das a\u00e7\u00f5es de extens\u00e3o. O espa\u00e7o recebe estudantes da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para viv\u00eancias cient\u00edficas e est\u00e1gios de curta dura\u00e7\u00e3o, uma estrat\u00e9gia que aproxima jovens da universidade p\u00fablica em um momento decisivo de forma\u00e7\u00e3o de interesse pela ci\u00eancia. Al\u00e9m disso, o laborat\u00f3rio presta suporte t\u00e9cnico direto a empresas, escolas e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, oferecendo an\u00e1lises e avalia\u00e7\u00f5es que normalmente exigiriam contrata\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os privados especializados.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Entendemos que ci\u00eancia s\u00f3 faz sentido quando ela ultrapassa os muros da universidade e retorna para a sociedade em forma de solu\u00e7\u00f5es, forma\u00e7\u00e3o de pessoas e melhoria da qualidade de vida&#8221;<\/em>, ressalta o professor Marcelo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O contexto que torna essa pesquisa ainda mais urgente<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho do Lafipe ganha relev\u00e2ncia adicional diante de um dado que vem preocupando cientistas ambientais em todo o mundo: os chamados poluentes emergentes, categoria que inclui f\u00e1rmacos, produtos de higiene pessoal, micropl\u00e1sticos e compostos derivados de pneus, s\u00e3o hoje detectados em praticamente todos os corpos d&#8217;\u00e1gua estudados globalmente, mesmo em regi\u00f5es distantes de grandes centros urbanos. Diferente de poluentes tradicionais, muitos desses compostos n\u00e3o possuem legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de controle no Brasil, o que torna pesquisas como as do Lafipe fundamentais para orientar futuras normativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O composto 6PPD-quinona, derivado da degrada\u00e7\u00e3o de pneus em contato com o oz\u00f4nio atmosf\u00e9rico, \u00e9 um exemplo emblem\u00e1tico dessa nova fronteira de pesquisa. Identificado inicialmente por cientistas americanos como respons\u00e1vel pela morte em massa de salm\u00f5es em rios urbanos, o composto j\u00e1 foi detectado em cursos d&#8217;\u00e1gua ao redor do mundo e representa exatamente o tipo de contaminante que o Lafipe investiga em suas linhas de pesquisa sobre organismos fotossintetizantes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Formar cientistas para lidar com problemas que ainda n\u00e3o t\u00eam nome<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os estudantes que passam pelo Lafipe, a experi\u00eancia vai al\u00e9m do treinamento t\u00e9cnico em equipamentos e an\u00e1lises de dados. O laborat\u00f3rio funciona como um espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o humana, no qual pesquisadores em in\u00edcio de carreira aprendem a traduzir ci\u00eancia complexa em linguagem acess\u00edvel, uma habilidade cada vez mais valorizada num cen\u00e1rio de desinforma\u00e7\u00e3o ambiental crescente.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;O laborat\u00f3rio busca gerar solu\u00e7\u00f5es aplic\u00e1veis para problemas ambientais concretos, contribuir para pol\u00edticas p\u00fablicas e fortalecer a educa\u00e7\u00e3o ambiental. Tamb\u00e9m h\u00e1 um papel importante de despertar voca\u00e7\u00f5es cient\u00edficas em jovens, mostrando que a universidade p\u00fablica \u00e9 um espa\u00e7o acess\u00edvel, de transforma\u00e7\u00e3o social e constru\u00e7\u00e3o coletiva do conhecimento&#8221;<\/em>, conclui o professor Marcelo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa desenvolvida no Lafipe caminha na dire\u00e7\u00e3o de um problema que vai se impor com mais for\u00e7a nos pr\u00f3ximos anos: entender como o ambiente reage \u00e0 press\u00e3o humana antes que essa rea\u00e7\u00e3o se converta em crise sanit\u00e1ria. Plantas e algas, nesse cen\u00e1rio, deixam de ser apenas parte da paisagem e passam a ocupar o papel de sentinelas silenciosas de um desequil\u00edbrio que, mais cedo ou mais tarde, chega at\u00e9 as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma planta n\u00e3o fala, mas reage. 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