{"id":36474,"date":"2026-07-03T23:05:26","date_gmt":"2026-07-04T02:05:26","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36474"},"modified":"2026-07-03T23:05:26","modified_gmt":"2026-07-04T02:05:26","slug":"myrcia-tenondeporan-nova-especie-sp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/myrcia-tenondeporan-nova-especie-sp\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Paulo tem uma \u00e1rvore que a ci\u00eancia s\u00f3 conheceu agora, e ela j\u00e1 nasce em risco"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe uma \u00e1rvore em S\u00e3o Paulo que carrega um nome cient\u00edfico h\u00e1 pouco mais de dois anos, mas que provavelmente cresce na cidade h\u00e1 muito mais tempo do que isso. A Myrcia tenondeporan foi descrita formalmente em 2023 em um artigo publicado na revista Phytotaxa, refer\u00eancia mundial em taxonomia bot\u00e2nica, e representa um daqueles casos raros em que a ci\u00eancia confirma que ainda existe muito por descobrir mesmo dentro dos limites de uma metr\u00f3pole com mais de 12 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A descoberta \u00e9 fruto de um trabalho conjunto entre o pesquisador Matheus Fortes Santos, da Universidade Federal do ABC, e o bi\u00f3logo Eduardo Hortal Pereira Barretto, coordenador do Herb\u00e1rio Municipal de S\u00e3o Paulo. O processo envolveu expedi\u00e7\u00f5es de campo, an\u00e1lise comparativa de esp\u00e9cimes em herb\u00e1rio e revis\u00e3o extensa da literatura cient\u00edfica sobre o g\u00eanero Myrcia, que re\u00fane cerca de 400 esp\u00e9cies s\u00f3 no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma \u00e1rvore pequena com um nome de peso simb\u00f3lico<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Myrcia tenondeporan pertence \u00e0 fam\u00edlia Myrtaceae, o mesmo grupo bot\u00e2nico que re\u00fane esp\u00e9cies economicamente importantes como a goiabeira e a pitangueira, al\u00e9m de plantas ornamentais amplamente cultivadas em jardins urbanos. No continente americano, essa fam\u00edlia re\u00fane 37 g\u00eaneros e mais de 2.050 esp\u00e9cies catalogadas, o que d\u00e1 a dimens\u00e3o da diversidade que ainda est\u00e1 sendo mapeada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esp\u00e9cie \u00e9 uma \u00e1rvore de pequeno a m\u00e9dio porte, relativamente comum nas florestas remanescentes da zona sul do munic\u00edpio, e foi encontrada em \u00e1reas pr\u00f3ximas ao territ\u00f3rio ind\u00edgena Tenond\u00e9 Por\u00e3, regi\u00e3o que abriga cerca de 1.500 ind\u00edgenas guarani e que combina forte urbaniza\u00e7\u00e3o com trechos significativos de vegeta\u00e7\u00e3o nativa preservada. O nome cient\u00edfico da \u00e1rvore \u00e9 uma homenagem direta a esse territ\u00f3rio, reconhecendo tanto o local da coleta quanto a rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica entre o povo guarani e a floresta que ainda resiste na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista morfol\u00f3gico, o que diferencia a Myrcia tenondeporan de esp\u00e9cies pr\u00f3ximas, como a Myrcia vellozoi e a Myrcia multipunctata, est\u00e1 em detalhes que exigem olhar treinado: o formato e o tamanho das folhas, a estrutura das infloresc\u00eancias e as dimens\u00f5es dos bot\u00f5es florais. S\u00e3o varia\u00e7\u00f5es sutis que s\u00f3 se tornam evidentes depois de compara\u00e7\u00e3o cuidadosa entre exemplares coletados em campo e material depositado em herb\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A import\u00e2ncia da lista vai al\u00e9m do registro e orienta tamb\u00e9m o plantio correto no munic\u00edpio&#8221;<\/em>, explica Luara Granato, engenheira florestal do Herb\u00e1rio Municipal de S\u00e3o Paulo, ao comentar o papel do levantamento de esp\u00e9cies nativas na orienta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de arboriza\u00e7\u00e3o urbana.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O paradoxo de nascer rara<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00e1rvore floresce principalmente entre novembro e dezembro, no fim da primavera e in\u00edcio do ver\u00e3o, e produz frutos durante praticamente todo o ano, com matura\u00e7\u00e3o concentrada entre agosto e dezembro. Esse padr\u00e3o reprodutivo, somado \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica restrita, j\u00e1 \u00e9 suficiente para que os pr\u00f3prios autores do estudo classifiquem a esp\u00e9cie como vulner\u00e1vel, mesmo sem dados suficientes para estimar com precis\u00e3o o tamanho total da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A explica\u00e7\u00e3o para essa classifica\u00e7\u00e3o est\u00e1 diretamente ligada ao estado da Mata Atl\u00e2ntica no Brasil. O bioma, que originalmente cobria uma faixa extensa do litoral brasileiro, hoje conserva apenas 24% de sua extens\u00e3o original, segundo dados do Atlas dos Remanescentes Florestais produzido pela Funda\u00e7\u00e3o SOS Mata Atl\u00e2ntica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Boa parte do que resta est\u00e1 fragmentado em manchas pequenas e isoladas, exatamente o cen\u00e1rio que caracteriza a zona sul de S\u00e3o Paulo, onde a Myrcia tenondeporan foi encontrada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A descoberta de novas esp\u00e9cies na regi\u00e3o metropolitana \u00e9 um indicador de que ainda temos muito a conhecer sobre nossa flora e da necessidade do fortalecimento de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para o conhecimento cient\u00edfico e para conserva\u00e7\u00e3o ambiental&#8221;<\/em>, afirma Eduardo Hortal Pereira Barretto, coordenador do Herb\u00e1rio Municipal de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que essa descoberta revela sobre a cidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A zona sul de S\u00e3o Paulo concentra alguns dos \u00faltimos fragmentos significativos de Mata Atl\u00e2ntica dentro dos limites municipais, \u00e1rea que inclui trechos de prote\u00e7\u00e3o ambiental e remanescentes de floresta que resistiram ao avan\u00e7o da mancha urbana. \u00c9 justamente essa combina\u00e7\u00e3o de urbaniza\u00e7\u00e3o intensa e persist\u00eancia de vegeta\u00e7\u00e3o nativa que torna a regi\u00e3o um alvo relevante para expedi\u00e7\u00f5es bot\u00e2nicas, ainda que a maior parte das pessoas que vivem na cidade nunca tenha ouvido falar da exist\u00eancia dessas \u00e1reas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho de identifica\u00e7\u00e3o da Myrcia tenondeporan n\u00e3o termina com a publica\u00e7\u00e3o do artigo cient\u00edfico. Segundo Matheus Fortes Santos, os pr\u00f3ximos passos da pesquisa envolvem uma revis\u00e3o taxon\u00f4mica completa do subgrupo de Myrcia ao qual a nova esp\u00e9cie pertence, incluindo a caracteriza\u00e7\u00e3o de todas as esp\u00e9cies relacionadas, seus ambientes de ocorr\u00eancia e outros dados b\u00e1sicos sobre a biodiversidade do grupo. Esse levantamento deve funcionar como refer\u00eancia para futuras pesquisas envolvendo o g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esp\u00e9cie j\u00e1 foi inclu\u00edda na lista oficial de \u00e1rvores nativas do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, atualizada recentemente pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, que passou a reunir 673 esp\u00e9cies nativas catalogadas dentro dos limites da cidade. Esse tipo de levantamento tem fun\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica direta: orientar o plantio correto em programas de arboriza\u00e7\u00e3o urbana e evitar o uso indiscriminado de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas, que podem competir com a flora nativa e reduzir a diversidade dos ecossistemas remanescentes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma descoberta que tamb\u00e9m \u00e9 um alerta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso da Myrcia tenondeporan ilustra um fen\u00f4meno que a ci\u00eancia bot\u00e2nica brasileira vem documentando com frequ\u00eancia crescente: esp\u00e9cies inteiras podem estar restritas a fragmentos florestais t\u00e3o pequenos e isolados que correm risco de desaparecer antes mesmo de serem formalmente descritas. Cada nova esp\u00e9cie encontrada em meio \u00e0 malha urbana de uma cidade do tamanho de S\u00e3o Paulo refor\u00e7a a urg\u00eancia de proteger os poucos remanescentes de vegeta\u00e7\u00e3o nativa que ainda existem entre bairros, avenidas e \u00e1reas constru\u00eddas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista cient\u00edfico, a descoberta tamb\u00e9m confirma algo relevante sobre o pr\u00f3prio processo de conhecimento da biodiversidade brasileira. A Mata Atl\u00e2ntica, apesar de ser um dos biomas mais estudados e mais destru\u00eddos do pa\u00eds, ainda guarda esp\u00e9cies que nenhum pesquisador havia catalogado formalmente. Isso significa que o trabalho de invent\u00e1rio flor\u00edstico, muitas vezes visto como tarefa de bastidores da ci\u00eancia, continua sendo essencial para que se saiba exatamente o que existe antes que deixe de existir.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h3>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Santos, M.F. &amp; Barretto, E.H.P. (2023).<\/strong> Myrcia tenondeporan, a new species of Myrtaceae from the Atlantic Forest in the Serra do Mar Mountains, Brazil. Phytotaxa, 632(1), 69-77. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.11646\/phytotaxa.632.1.6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/doi.org\/10.11646\/phytotaxa.632.1.6<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Prefeitura de S\u00e3o Paulo \u2014 Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente:<\/strong> Nova esp\u00e9cie de \u00e1rvore \u00e9 descoberta no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. <a href=\"https:\/\/prefeitura.sp.gov.br\/web\/meio_ambiente\/w\/noticias\/360494\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/prefeitura.sp.gov.br\/web\/meio_ambiente\/w\/noticias\/360494<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Universidade Federal do ABC (UFABC) \u2014 Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica:<\/strong> Pesquisa da UFABC, em parceria com a Prefeitura de S\u00e3o Paulo, encontra nova esp\u00e9cie de \u00e1rvore. <a href=\"https:\/\/www.ufabc.edu.br\/divulgacao-cientifica\/destaques\/pesquisa-da-ufabc-em-parceria-com-a-prefeitura-de-sao-paulo-encontra-nova-especie-de-arvore\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.ufabc.edu.br\/divulgacao-cientifica\/destaques\/pesquisa-da-ufabc-em-parceria-com-a-prefeitura-de-sao-paulo-encontra-nova-especie-de-arvore<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Prefeitura de S\u00e3o Paulo \u2014 Lista de esp\u00e9cies arb\u00f3reas nativas do munic\u00edpio atualizada:<\/strong> <a href=\"https:\/\/prefeitura.sp.gov.br\/web\/meio_ambiente\/w\/noticias\/366670\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/prefeitura.sp.gov.br\/web\/meio_ambiente\/w\/noticias\/366670<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Funda\u00e7\u00e3o SOS Mata Atl\u00e2ntica &amp; INPE (2022).<\/strong> Atlas dos remanescentes florestais da Mata Atl\u00e2ntica, per\u00edodo 2021\/2022. Relat\u00f3rio t\u00e9cnico.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe uma \u00e1rvore em S\u00e3o Paulo que carrega um nome cient\u00edfico h\u00e1 pouco mais de dois anos, mas que provavelmente cresce na cidade h\u00e1 muito mais tempo do que isso. 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Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36474"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36476,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36474\/revisions\/36476"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36475"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36474"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}