{"id":36516,"date":"2026-07-06T16:25:33","date_gmt":"2026-07-06T19:25:33","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36516"},"modified":"2026-07-06T16:25:34","modified_gmt":"2026-07-06T19:25:34","slug":"borboleta-annulata-kaminskii-formigas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/borboleta-annulata-kaminskii-formigas\/","title":{"rendered":"Duas esp\u00e9cies de formigas, uma agressiva e uma pac\u00edfica, dividem a guarda da mesma lagarta na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No norte do Mato Grosso, a 790 quil\u00f4metros de Cuiab\u00e1, existe uma reserva que j\u00e1 revelou mais de mil esp\u00e9cies de borboletas aos cientistas, um n\u00famero que supera o dobro de tudo o que se conhece na Europa inteira. Foi nesse territ\u00f3rio, a Reserva Particular do Patrim\u00f4nio Natural do Cristalino, que pesquisadoras encontraram uma esp\u00e9cie cujo modo de vida reescreve o que se sabia sobre a rela\u00e7\u00e3o entre lagartas e formigas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Annulata kaminskii, descrita oficialmente em 2025 e publicada na revista cient\u00edfica <em>Neotropical Entomology<\/em>, n\u00e3o se alimenta de folhas como a esmagadora maioria das borboletas. Suas larvas vivem uma vida l\u00edquida, dependente de n\u00e9ctar e cera produzidos por cochonilhas que habitam bosques de bambu, e retribuem esse alimento com uma secre\u00e7\u00e3o a\u00e7ucarada que sustenta duas esp\u00e9cies distintas de formigas ao mesmo tempo. O resultado \u00e9 o primeiro sistema com quatro n\u00edveis tr\u00f3ficos j\u00e1 documentado envolvendo borboletas em qualquer lugar do mundo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma economia de trocas dentro do bambuzal<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cadeia come\u00e7a no pr\u00f3prio bambu, que hospeda cochonilhas, pequenos insetos sugadores de seiva que produzem n\u00e9ctar e cera como subproduto de sua alimenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 esse material que sustenta as larvas da Annulata kaminskii durante toda a fase larval, uma escolha alimentar extremamente rara para o grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A maioria das lagartas se alimenta de folhas. Essa, no entanto, depende exclusivamente do n\u00e9ctar e da cera produzidos pelas cochonilhas, o que torna seu modo de vida extremamente especializado&#8221;<\/em>, explica Lu\u00edsa Mota, doutoranda da Unicamp e primeira autora do estudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para conseguir esse alimento, as lagartas desenvolveram um comportamento in\u00e9dito: usam movimentos da cabe\u00e7a para solicitar n\u00e9ctar \u00e0s cochonilhas, um gesto de comunica\u00e7\u00e3o nunca antes registrado nesse contexto. Em paralelo, elas produzem dois tipos de secre\u00e7\u00f5es que funcionam como pagamento \u00e0s formigas que as protegem. A primeira vem de estruturas chamadas \u00f3rg\u00e3os nect\u00e1rios tentaculares, localizadas na parte traseira do corpo, que liberam got\u00edculas doces quando estimuladas pela presen\u00e7a das formigas. A segunda \u00e9 um exsudato anal, um fluido a\u00e7ucarado de gotas maiores, cujo registro em larvas de borboletas mirmec\u00f3filas tamb\u00e9m \u00e9 in\u00e9dito na literatura cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Duas formigas, uma tr\u00e9gua incomum<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O aspecto mais surpreendente da descoberta talvez seja o comportamento das pr\u00f3prias formigas envolvidas. Duas esp\u00e9cies distintas, Camponotus femoratus e Crematogaster levior, dividem a tarefa de proteger a mesma lagarta, e uma delas \u00e9 conhecida justamente pela agressividade extrema em outros contextos. Ainda assim, ao redor da Annulata kaminskii, as duas convivem em coopera\u00e7\u00e3o, funcionando como um sistema de guarda compartilhada contra predadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Essa \u00e9 a primeira vez que observamos um sistema com quatro n\u00edveis tr\u00f3ficos envolvendo borboletas, formigas, escamas de bambu e cochonilhas. Encontramos as larvas interagindo de forma muito especial, algo nunca documentado antes&#8221;<\/em>, afirma Noemy Seraphim, pesquisadora do Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Paulo e especialista em borboletas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A troca funciona como um contrato biol\u00f3gico invis\u00edvel: enquanto a lagarta fornece alimento a\u00e7ucarado e energ\u00e9tico, as formigas garantem territ\u00f3rio seguro contra ataques externos, permitindo que ela complete seu desenvolvimento em um ambiente hostil como o solo da floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O nome, a origem e o que ainda intriga os cientistas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esp\u00e9cie recebeu o nome kaminskii em homenagem ao pesquisador Lucas Kaminski, da Universidade Federal de Alagoas, especialista reconhecido em intera\u00e7\u00f5es entre formigas e borboletas. \u00c9 a segunda esp\u00e9cie nova descrita por Lu\u00edsa Mota na regi\u00e3o do Cristalino, depois da Cristalinaia vitoria, publicada em 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um detalhe refor\u00e7a o quanto essa esp\u00e9cie ainda guarda mist\u00e9rios: tentativas de criar as lagartas em cativeiro fracassaram completamente, o que significa que absolutamente tudo o que se sabe sobre seu comportamento vem exclusivamente de observa\u00e7\u00e3o em campo. Isso torna a reserva do Cristalino um laborat\u00f3rio vivo insubstitu\u00edvel para esse tipo de pesquisa, e ajuda a explicar por que descobertas como essa continuam surgindo d\u00e9cadas depois do in\u00edcio das expedi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que esse tipo de rela\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o raro na natureza<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sistemas com m\u00faltiplos n\u00edveis tr\u00f3ficos interdependentes exigem estabilidade ambiental de longo prazo para se formar e se manter. Cada esp\u00e9cie da cadeia, o bambu, a cochonilha, a lagarta e as duas formigas, depende do equil\u00edbrio das outras quatro para sobreviver, o que torna esse tipo de arranjo extremamente vulner\u00e1vel a qualquer perturba\u00e7\u00e3o no habitat.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00d3rg\u00e3os de pesquisa em ecologia tropical apontam que intera\u00e7\u00f5es multiesp\u00e9cie desse tipo funcionam como indicadores sens\u00edveis da sa\u00fade de um ecossistema: quando florestas s\u00e3o fragmentadas ou degradadas, cadeias como essa costumam ser as primeiras a desaparecer, muitas vezes antes mesmo de serem catalogadas pela ci\u00eancia. Isso refor\u00e7a o papel da RPPN Cristalino, mantida h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas pela Funda\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica Cristalino, como um dos poucos territ\u00f3rios brasileiros onde esse tipo de descoberta ainda \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Amaz\u00f4nia meridional, regi\u00e3o onde a nova esp\u00e9cie foi confirmada, permanece como uma das \u00e1reas menos estudadas do bioma em termos de entomologia, o que sugere que sistemas ecol\u00f3gicos igualmente complexos e ainda desconhecidos podem estar distribu\u00eddos por bambuzais semelhantes em outras partes da floresta, \u00e0 espera de serem catalogados antes que o avan\u00e7o do desmatamento os elimine sem registro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No norte do Mato Grosso, a 790 quil\u00f4metros de Cuiab\u00e1, existe uma reserva que j\u00e1 revelou mais de mil esp\u00e9cies de borboletas aos cientistas, um n\u00famero que supera o dobro de tudo o que se conhece na Europa inteira. 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Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36516","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36516"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36516\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36518,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36516\/revisions\/36518"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36517"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36516"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36516"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36516"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36516"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}