{"id":36521,"date":"2026-07-07T09:13:29","date_gmt":"2026-07-07T12:13:29","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36521"},"modified":"2026-07-07T09:13:30","modified_gmt":"2026-07-07T12:13:30","slug":"amazonia-fronteira-agricola-carbono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/amazonia-fronteira-agricola-carbono\/","title":{"rendered":"Reservat\u00f3rio ou fonte? A pergunta que uma d\u00e9cada de ci\u00eancia na Amaz\u00f4nia come\u00e7ou a responder"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por d\u00e9cadas, a Amaz\u00f4nia foi tratada pela ci\u00eancia como um dado praticamente fixo: um imenso reservat\u00f3rio de carbono, capaz de absorver mais g\u00e1s carb\u00f4nico do que libera, funcionando como um dos principais reguladores do clima global. Uma s\u00edntese de mais de dez anos de observa\u00e7\u00f5es, publicada na revista <em>Nature<\/em>, colocou essa certeza em xeque. Os dados mostram sinais concretos de transi\u00e7\u00e3o, em que partes da floresta amaz\u00f4nica come\u00e7am a se comportar n\u00e3o mais como reservat\u00f3rio, mas como fonte emissora de carbono.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho \u00e9 resultado do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amaz\u00f4nia (LBA), uma das maiores iniciativas cient\u00edficas ambientais j\u00e1 realizadas no mundo, reunindo mais de 200 institui\u00e7\u00f5es brasileiras e internacionais. Ao longo de mais de uma d\u00e9cada, pesquisadores monitoraram torres de medi\u00e7\u00e3o espalhadas pela bacia amaz\u00f4nica, coletando dados de fluxos de \u00e1gua, energia e carbono entre a floresta e a atmosfera.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que muda quando a floresta vira fonte<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a entre reservat\u00f3rio e fonte de carbono parece t\u00e9cnica, mas tem consequ\u00eancias diretas sobre o equil\u00edbrio clim\u00e1tico do planeta. Como reservat\u00f3rio, a floresta amaz\u00f4nica absorve parte do excesso de CO2 lan\u00e7ado na atmosfera por atividades humanas em todo o mundo, funcionando como um amortecedor natural do aquecimento global. Como fonte, ela passa a devolver carbono \u00e0 atmosfera, tanto pelo desmatamento direto quanto pela decomposi\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria org\u00e2nica e pela redu\u00e7\u00e3o da capacidade fotossint\u00e9tica das \u00e1reas degradadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Embora o balan\u00e7o de carbono da bacia ainda seja incerto, o desflorestamento mudou o balan\u00e7o de um poss\u00edvel sumidouro na parte final do s\u00e9culo 20 para uma fonte emissora de g\u00e1s carb\u00f4nico para a atmosfera&#8221;<\/em>, explica Alessandro Carioca de Ara\u00fajo, pesquisador da Embrapa Amaz\u00f4nia Oriental e um dos autores do estudo publicado na Nature.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo o levantamento, essa transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno isolado nem pontual. Ela decorre da intera\u00e7\u00e3o entre m\u00faltiplos fatores que passaram a atuar simultaneamente sobre o bioma: a variabilidade clim\u00e1tica global, o avan\u00e7o do desmatamento, o uso do fogo para abertura de \u00e1reas, mudan\u00e7as na hidrologia dos rios e a press\u00e3o humana crescente sobre o territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A fronteira agr\u00edcola como agente de perturba\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo identifica a expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola como um dos principais vetores dessa transforma\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que a agricultura avan\u00e7a sobre \u00e1reas antes cobertas por floresta prim\u00e1ria, os ciclos naturais de \u00e1gua e energia da regi\u00e3o s\u00e3o alterados de forma mensur\u00e1vel. A vegeta\u00e7\u00e3o nativa regula a evapotranspira\u00e7\u00e3o, processo pelo qual a floresta libera vapor d&#8217;\u00e1gua na atmosfera e contribui para a forma\u00e7\u00e3o de chuvas na pr\u00f3pria bacia amaz\u00f4nica e em regi\u00f5es distantes, incluindo o Centro-Sul do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando essa cobertura vegetal \u00e9 substitu\u00edda por pastagens ou lavouras, o padr\u00e3o de evapotranspira\u00e7\u00e3o muda significativamente, reduzindo a capacidade da regi\u00e3o de reciclar umidade e alimentar o pr\u00f3prio regime de chuvas. Ara\u00fajo detalha que essa mudan\u00e7a faz parte de uma transi\u00e7\u00e3o mais ampla no funcionamento biof\u00edsico do sistema amaz\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Trata-se de uma transi\u00e7\u00e3o do sistema biof\u00edsico amaz\u00f4nico decorrente das intera\u00e7\u00f5es entre o clima global, uso da terra, fogo, hidrologia, ecologia e dimens\u00f5es humanas&#8221;<\/em>, afirma o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as consequ\u00eancias j\u00e1 observadas pelo estudo est\u00e3o o aumento da dura\u00e7\u00e3o da esta\u00e7\u00e3o seca em partes da Amaz\u00f4nia e a maior probabilidade de inunda\u00e7\u00f5es associadas ao aumento da descarga dos rios durante o per\u00edodo chuvoso. Esse padr\u00e3o de extremos mais intensos, secas mais longas de um lado e cheias mais volumosas de outro, \u00e9 um dos sinais mais consistentes de que o sistema clim\u00e1tico regional est\u00e1 perdendo estabilidade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que estudos mais recentes acrescentam a essa hist\u00f3ria<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Passada mais de uma d\u00e9cada desde a publica\u00e7\u00e3o original na Nature, novas pesquisas conduzidas pela mesma rede de monitoramento do LBA aprofundaram a compreens\u00e3o sobre como e quando esses limites s\u00e3o ultrapassados. Um estudo publicado em 2023, que analisou mais de doze anos de dados coletados na Floresta Nacional do Tapaj\u00f3s, identificou algo particularmente revelador: durante o forte epis\u00f3dio de El Ni\u00f1o de 2015 e 2016, a floresta apresentou uma quebra no padr\u00e3o de resposta que vinha sendo observado havia anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 ent\u00e3o, os fluxos de transpira\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores respondiam de forma previs\u00edvel \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, controlados principalmente pela disponibilidade de energia solar e pela demanda atmosf\u00e9rica por vapor d&#8217;\u00e1gua. Durante aquele epis\u00f3dio espec\u00edfico de seca extrema, essa rela\u00e7\u00e3o se rompeu. As \u00e1rvores reduziram drasticamente a abertura dos est\u00f4matos, estruturas respons\u00e1veis pelas trocas gasosas nas folhas, e apresentaram perda acentuada de folhagem, um mecanismo de defesa contra a escassez h\u00eddrica severa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse comportamento indicou aos pesquisadores que a floresta havia cruzado um limiar funcional, um ponto de inflex\u00e3o local a partir do qual a recupera\u00e7\u00e3o passou a ser lenta e incompleta mesmo depois do fim da seca. A identifica\u00e7\u00e3o desse tipo de limiar em escala local \u00e9 considerada essencial para prever, em escala de toda a bacia amaz\u00f4nica, mudan\u00e7as mais amplas nos ciclos de \u00e1gua e energia que podem empurrar partes da floresta para estados alternativos e degradados, com menor capacidade de regula\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma d\u00e9cada de ci\u00eancia que redefine o que se sabe sobre a Amaz\u00f4nia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conjunto dessas descobertas reposiciona a forma como cientistas, formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas e sociedade em geral devem enxergar a floresta amaz\u00f4nica. Ela deixou de ser tratada como um sistema est\u00e1vel e homog\u00eaneo, garantido por sua pr\u00f3pria escala, e passou a ser compreendida como um mosaico de regi\u00f5es em diferentes est\u00e1gios de resili\u00eancia, algumas ainda funcionando como reservat\u00f3rios eficientes de carbono, outras j\u00e1 mostrando sinais de exaust\u00e3o funcional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A converg\u00eancia entre os dados publicados na Nature em 2012 e os resultados mais recentes de 2023 refor\u00e7a uma mesma conclus\u00e3o sob \u00e2ngulos diferentes: a Amaz\u00f4nia est\u00e1 reagindo de forma mensur\u00e1vel e crescente \u00e0s press\u00f5es combinadas do desmatamento, da fronteira agr\u00edcola em expans\u00e3o e da intensifica\u00e7\u00e3o de eventos clim\u00e1ticos extremos. Compreender exatamente onde e quando esses limiares s\u00e3o cruzados passou a ser uma das fronteiras mais importantes da ci\u00eancia clim\u00e1tica brasileira, com implica\u00e7\u00f5es que ultrapassam em muito os limites geogr\u00e1ficos da pr\u00f3pria floresta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por d\u00e9cadas, a Amaz\u00f4nia foi tratada pela ci\u00eancia como um dado praticamente fixo: um imenso reservat\u00f3rio de carbono, capaz de absorver mais g\u00e1s carb\u00f4nico do que libera, funcionando como um dos principais reguladores do clima global. Uma s\u00edntese de mais de dez anos de observa\u00e7\u00f5es, publicada na revista Nature, colocou essa certeza em xeque. 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