{"id":36532,"date":"2026-07-07T17:01:54","date_gmt":"2026-07-07T20:01:54","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36532"},"modified":"2026-07-07T17:01:55","modified_gmt":"2026-07-07T20:01:55","slug":"lanterninha-japonesa-capixaba-ameacada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/lanterninha-japonesa-capixaba-ameacada\/","title":{"rendered":"Descoberta h\u00e1 dois anos, essa planta capixaba j\u00e1 corre risco de sumir antes de ser conhecida"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem plantas que levam d\u00e9cadas circulando em cole\u00e7\u00f5es de jardim antes de receberem um nome cient\u00edfico. A Callianthe capixabae n\u00e3o teve esse privil\u00e9gio. Descrita em dezembro de 2022 no peri\u00f3dico <em>Phytotaxa<\/em>, ela j\u00e1 nasceu no radar de risco de extin\u00e7\u00e3o, um destino raro para uma esp\u00e9cie que a ci\u00eancia acabou de conhecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O nome t\u00e9cnico \u00e9 pouco conhecido fora dos c\u00edrculos da bot\u00e2nica, mas o grupo ao qual ela pertence \u00e9 bastante familiar: o das lanterninhas japonesas, tamb\u00e9m chamadas de bal\u00e3ozinho japon\u00eas, plantas ornamentais cultivadas h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es em jardins pelo formato caracter\u00edstico das flores, que lembram pequenas lanternas penduradas. A diferen\u00e7a \u00e9 que essa esp\u00e9cie espec\u00edfica n\u00e3o \u00e9 cultivada. Ela cresce apenas em dois pontos da Mata Atl\u00e2ntica capixaba, e em nenhum outro lugar do mundo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma descoberta que j\u00e1 nasce sob risco<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho de descri\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie reuniu pesquisadores de institui\u00e7\u00f5es de refer\u00eancia em bot\u00e2nica no pa\u00eds. Maria Tereza R. Costa e Massimo Bovini, do Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro, e Jo\u00e3o Paulo F. Zorzanelli, do Instituto Nacional da Mata Atl\u00e2ntica, coletaram amostras em campo e analisaram material depositado em herb\u00e1rios da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo, do pr\u00f3prio INMA e do Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro antes de confirmar que se tratava de uma esp\u00e9cie nova para a ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A nova esp\u00e9cie ocorre em sub-bosques florestais do interior do Esp\u00edrito Santo, em altitudes de 1.100 a 1.300 metros&#8221;<\/em>, explica Jo\u00e3o Paulo Zorzanelli, pesquisador do INMA. A flora\u00e7\u00e3o foi registrada entre abril e agosto, com frutos aparecendo em julho, um ciclo relativamente estreito que j\u00e1 indica a sensibilidade da esp\u00e9cie a varia\u00e7\u00f5es no ambiente onde cresce.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O processo de identifica\u00e7\u00e3o exigiu compara\u00e7\u00e3o detalhada com duas esp\u00e9cies pr\u00f3ximas, a Callianthe glaziovii e a Callianthe schenckii. As diferen\u00e7as apareceram nos pelos e escamas que cobrem a planta, no tipo de infloresc\u00eancia, nas nervuras do c\u00e1lice, na cor das p\u00e9talas e no comprimento do fruto. Segundo Zorzanelli, mesmo em rela\u00e7\u00e3o aos bal\u00f5ezinhos japoneses amplamente cultivados em jardins, a Callianthe capixabae se distingue pelas folhas, que t\u00eam a parte de baixo com colora\u00e7\u00e3o acinzentada, caracter\u00edstica que os bot\u00e2nicos chamam tecnicamente de folhas discolores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Duas popula\u00e7\u00f5es, dois destinos diferentes<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A distribui\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie \u00e9 o que mais chama aten\u00e7\u00e3o neste caso. Ela foi encontrada em apenas duas localidades: o Parque Estadual Forno Grande, no munic\u00edpio de Castelo, e a Serra do Valentim, entre os munic\u00edpios de I\u00fana e Muniz Freire. Essa restri\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica extrema costuma ser um dos principais crit\u00e9rios usados para classificar uma esp\u00e9cie como amea\u00e7ada, j\u00e1 que qualquer evento pontual, como um inc\u00eandio ou uma obra, pode comprometer boa parte da popula\u00e7\u00e3o conhecida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A situa\u00e7\u00e3o das duas popula\u00e7\u00f5es, no entanto, n\u00e3o \u00e9 id\u00eantica. A que est\u00e1 dentro do Parque Estadual Forno Grande conta com o status de unidade de conserva\u00e7\u00e3o, o que oferece uma camada de prote\u00e7\u00e3o legal. Ainda assim, os esp\u00e9cimes est\u00e3o localizados nas margens da \u00fanica pista usada para ecoturismo na regi\u00e3o, o que os deixa expostos a depreda\u00e7\u00e3o por visitantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o da Serra do Valentim enfrenta um cen\u00e1rio mais delicado. A \u00e1rea n\u00e3o integra nenhuma unidade de conserva\u00e7\u00e3o e fica \u00e0s margens de uma estrada que d\u00e1 acesso a torres de comunica\u00e7\u00e3o. Isso significa exposi\u00e7\u00e3o direta a inc\u00eandios florestais e a cortes de vegeta\u00e7\u00e3o realizados periodicamente para manuten\u00e7\u00e3o da via, duas amea\u00e7as que j\u00e1 atingem a esp\u00e9cie mesmo antes de qualquer estrat\u00e9gia de conserva\u00e7\u00e3o ter sido estruturada para ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Uma dessas popula\u00e7\u00f5es est\u00e1 localizada na delimita\u00e7\u00e3o do Parque Estadual do Forno Grande, que \u00e9 protegido como unidade de conserva\u00e7\u00e3o. No entanto, os esp\u00e9cimes est\u00e3o localizados nas margens da pista \u00fanica para ecoturismo, podendo sofrer depreda\u00e7\u00e3o. A outra popula\u00e7\u00e3o foi identificada em uma mata \u00e0 beira da estrada que d\u00e1 acesso a torres de comunica\u00e7\u00e3o na Serra do Valentim, local que n\u00e3o faz parte de unidade de conserva\u00e7\u00e3o, estando j\u00e1 sujeita a amea\u00e7as como inc\u00eandios florestais e cortes para manuten\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica das estradas&#8221;<\/em>, descreve Maria Tereza Costa, pesquisadora do Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O entorno que isola a esp\u00e9cie<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um fator que agrava a vulnerabilidade da Callianthe capixabae \u00e9 o tipo de paisagem que envolve as duas localidades onde ela ocorre. O entorno \u00e9 composto majoritariamente por propriedades rurais de cultivo e pecu\u00e1ria de caf\u00e9 e eucalipto, com fragmentos remanescentes de Mata Atl\u00e2ntica dispersos entre essas \u00e1reas produtivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse cen\u00e1rio cria um efeito de isolamento que vai al\u00e9m da simples escassez de indiv\u00edduos. Segundo Maria Tereza Costa, essa configura\u00e7\u00e3o de fragmentos separados por \u00e1reas de uso agr\u00edcola dificulta mecanismos essenciais para a sobreviv\u00eancia de longo prazo da esp\u00e9cie, como a dispers\u00e3o de sementes e o fluxo g\u00eanico entre as poucas popula\u00e7\u00f5es existentes. Na pr\u00e1tica, plantas que crescem em fragmentos isolados t\u00eam menos trocas gen\u00e9ticas entre si, o que reduz a diversidade gen\u00e9tica da esp\u00e9cie como um todo e a deixa mais vulner\u00e1vel a doen\u00e7as, pragas e mudan\u00e7as ambientais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Esp\u00edrito Santo como epicentro de descobertas e de riscos<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso da Callianthe capixabae n\u00e3o \u00e9 isolado. O Esp\u00edrito Santo \u00e9 reconhecido como o estado brasileiro que mais descobre novas esp\u00e9cies de flora por hectare, com uma m\u00e9dia de 9,7 esp\u00e9cies novas por mil quil\u00f4metros quadrados, \u00e0 frente do Rio de Janeiro, segundo estudo, que aparece em segundo lugar com 5,1 esp\u00e9cies por mil quil\u00f4metros quadrados. Essa combina\u00e7\u00e3o entre alta biodiversidade e territ\u00f3rio reduzido cria um padr\u00e3o preocupante: o estado revela novas esp\u00e9cies num ritmo acelerado, mas boa parte delas j\u00e1 nasce em situa\u00e7\u00e3o de risco, porque a press\u00e3o sobre os remanescentes de Mata Atl\u00e2ntica avan\u00e7a na mesma velocidade das descobertas cient\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levantamentos do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos H\u00eddricos do Esp\u00edrito Santo (IEMA) mostram a dimens\u00e3o desse fen\u00f4meno em n\u00fameros. Entre 2005 e a atualiza\u00e7\u00e3o de 2019, o total de esp\u00e9cies amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o no estado cresceu 197%, passando de 950 para 1.874 esp\u00e9cies. O \u00f3rg\u00e3o destaca que esse salto n\u00e3o reflete necessariamente uma piora ambiental repentina, mas principalmente o avan\u00e7o do conhecimento cient\u00edfico sobre a biodiversidade capixaba, que revela esp\u00e9cies raras e restritas antes mesmo de existir tempo h\u00e1bil para proteg\u00ea-las.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, o Esp\u00edrito Santo reconhece oficialmente 753 esp\u00e9cies de plantas amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. Entre elas, as orqu\u00eddeas concentram o maior n\u00famero de esp\u00e9cies em risco, um padr\u00e3o associado \u00e0 coleta ilegal para fins ornamentais, pr\u00e1tica que tamb\u00e9m atinge outros grupos de plantas com apelo est\u00e9tico elevado, como brom\u00e9lias e helic\u00f4nias.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que a ci\u00eancia ainda n\u00e3o sabe sobre essa esp\u00e9cie<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por ser uma descoberta recente, a Callianthe capixabae carrega uma lacuna de conhecimento que dificulta a\u00e7\u00f5es imediatas de conserva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existem, at\u00e9 o momento, dados populacionais precisos sobre quantos indiv\u00edduos comp\u00f5em cada uma das duas popula\u00e7\u00f5es conhecidas, nem estudos sobre os polinizadores respons\u00e1veis por sua reprodu\u00e7\u00e3o na natureza. Essa aus\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 comum em esp\u00e9cies rec\u00e9m-descritas e representa um desafio adicional para qualquer estrat\u00e9gia de prote\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 dif\u00edcil elaborar um plano de manejo eficaz sem entender completamente a biologia reprodutiva e os limites de toler\u00e2ncia ambiental da planta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse tipo de lacuna refor\u00e7a a import\u00e2ncia de mapeamentos cont\u00ednuos como o conduzido pelo IEMA em parceria com o INMA, que desde 2019 adotou uma metodologia mais precisa para avaliar o risco de extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies capixabas. Sem atualiza\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas dessa natureza, esp\u00e9cies como a lanterninha japonesa correm o risco de desaparecer antes que a ci\u00eancia consiga sequer compreender plenamente seu papel no ecossistema onde vivem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem plantas que levam d\u00e9cadas circulando em cole\u00e7\u00f5es de jardim antes de receberem um nome cient\u00edfico. A Callianthe capixabae n\u00e3o teve esse privil\u00e9gio. Descrita em dezembro de 2022 no peri\u00f3dico Phytotaxa, ela j\u00e1 nasceu no radar de risco de extin\u00e7\u00e3o, um destino raro para uma esp\u00e9cie que a ci\u00eancia acabou de conhecer. 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Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36532","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36532"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36532\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36534,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36532\/revisions\/36534"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36533"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36532"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36532"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36532"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36532"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}