{"id":36544,"date":"2026-07-08T10:47:27","date_gmt":"2026-07-08T13:47:27","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36544"},"modified":"2026-07-08T10:47:27","modified_gmt":"2026-07-08T13:47:27","slug":"joao-baitello-especies-canela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/joao-baitello-especies-canela\/","title":{"rendered":"11 esp\u00e9cies, 55 mil exsicatas e quase meio s\u00e9culo de trabalho: a hist\u00f3ria por tr\u00e1s do maior especialista brasileiro em canelas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem fam\u00edlias de plantas que resistem \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o mesmo depois de s\u00e9culos de estudo bot\u00e2nico. A Lauraceae, grupo que re\u00fane a canela, o abacateiro e a imbuia, \u00e9 uma delas. As folhas se parecem entre si, as flores s\u00e3o min\u00fasculas e os caracteres que distinguem uma esp\u00e9cie da outra muitas vezes exigem an\u00e1lise microsc\u00f3pica de estruturas como os espor\u00e2ngios das anteras. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que essa fam\u00edlia \u00e9 considerada um dos grupos mais desafiadores da flora brasileira para taxonomistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi justamente nesse terreno complexo que Jo\u00e3o Batista Baitello construiu uma carreira de quase 50 anos. Ingressou no ent\u00e3o Instituto Florestal de S\u00e3o Paulo em 1976 e assumiu a curadoria do Herb\u00e1rio Dom Bento Jos\u00e9 Pickel, acervo que hoje ultrapassa 55 mil exsicatas e ocupa posi\u00e7\u00e3o entre os mais importantes do estado. Ao longo desse per\u00edodo, identificou e descreveu 11 novas esp\u00e9cies para a ci\u00eancia, todas pertencentes \u00e0 fam\u00edlia Lauraceae.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um acervo que atravessou quase um s\u00e9culo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Herb\u00e1rio Dom Bento Jos\u00e9 Pickel n\u00e3o nasceu com Baitello, mas foi sob sua curadoria que atingiu a maturidade cient\u00edfica que tem hoje. A cole\u00e7\u00e3o remonta a 1927, quando os engenheiros silvicultores Oct\u00e1vio Vecchi e Mansueto Koscinski iniciaram os primeiros registros junto ao ent\u00e3o Museu Florestal do Servi\u00e7o Florestal do Estado de S\u00e3o Paulo. Depois da morte de Koscinski, em 1951, o monge beneditino Dom Bento Jos\u00e9 Pickel assumiu a cole\u00e7\u00e3o e a expandiu at\u00e9 deixar, em sua aposentadoria em 1960, um acervo de 5.515 exsicatas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que poucos sabem \u00e9 que, entre 1960 e 1976, o herb\u00e1rio ficou praticamente inativo por 16 anos. Foi Baitello quem o reativou ao assumir a curadoria, e sob sua gest\u00e3o a cole\u00e7\u00e3o cresceu de forma constante at\u00e9 ultrapassar as 55 mil exsicatas registradas atualmente, tornando-se o sexto maior herb\u00e1rio do estado de S\u00e3o Paulo e uma refer\u00eancia nacional para o estudo de esp\u00e9cies coletadas em unidades de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O trabalho de decifrar um grupo bot\u00e2nico dif\u00edcil<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Identificar uma nova esp\u00e9cie dentro da fam\u00edlia Lauraceae n\u00e3o \u00e9 tarefa trivial. Em uma entrevista concedida ao Instituto de Pesquisas Ambientais, o pr\u00f3prio Baitello descreveu a raridade da especializa\u00e7\u00e3o que desenvolveu ao longo da carreira: <em>&#8220;somos menos de dez&#8221;<\/em> pesquisadores no pa\u00eds com dom\u00ednio completo da taxonomia desse grupo bot\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos casos mais emblem\u00e1ticos dessa dificuldade foi a descri\u00e7\u00e3o da <em>Ocotea bilocellata<\/em>, publicada em 2023. At\u00e9 aquele momento, nenhuma esp\u00e9cie do g\u00eanero Ocotea havia sido documentada com dois espor\u00e2ngios nas anteras, caracter\u00edstica que normalmente aparece em quatro unidades nesse grupo. A descoberta exigiu n\u00e3o apenas observa\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica detalhada de flores, folhas e frutos, mas tamb\u00e9m sequenciamento gen\u00e9tico para confirmar que se tratava de fato de uma esp\u00e9cie distinta e n\u00e3o de uma varia\u00e7\u00e3o dentro de outra j\u00e1 catalogada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Baitello explicou a l\u00f3gica por tr\u00e1s dessas classifica\u00e7\u00f5es destacando que os g\u00eaneros da fam\u00edlia n\u00e3o se definem apenas por um \u00fanico caractere isolado, mas <em>pela soma de um conjunto de caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas de toda a planta<\/em>. Esse princ\u00edpio metodol\u00f3gico \u00e9 o que permitiu distinguir a nova esp\u00e9cie de sua parente mais pr\u00f3xima, a Ocotea daphnifolia, que apresenta estrutura floral diferente apesar da semelhan\u00e7a visual entre as duas \u00e1rvores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Descobertas que carregam nomes e hist\u00f3rias<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada esp\u00e9cie descrita por Baitello carrega, al\u00e9m do valor cient\u00edfico, um peda\u00e7o da hist\u00f3ria da bot\u00e2nica paulista. Em 2017, ao lado do pesquisador Marcelo Leandro Brotto, do Museu Bot\u00e2nico Municipal de Curitiba, Baitello descreveu a Ocotea koscinskii, batizada em homenagem a Mansueto Koscinski, um dos fundadores da cole\u00e7\u00e3o que hoje \u00e9 o herb\u00e1rio SPSF. A \u00e1rvore, encontrada durante uma an\u00e1lise mais detalhada de exemplares coletados no Parque Estadual da Cantareira, pode atingir at\u00e9 40 metros de altura em ambientes preservados, o que torna surpreendente o fato de ter passado despercebida por tanto tempo entre coletas j\u00e1 catalogadas como uma esp\u00e9cie diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse tipo de descoberta refor\u00e7a um dado pouco divulgado sobre a biodiversidade brasileira: mesmo depois de d\u00e9cadas de expedi\u00e7\u00f5es e coletas, uma parcela significativa da flora nacional ainda aguarda identifica\u00e7\u00e3o formal. Levantamentos ligados ao projeto Flora Fanerog\u00e2mica do Estado de S\u00e3o Paulo j\u00e1 resultaram na publica\u00e7\u00e3o de tratamentos monogr\u00e1ficos para 152 fam\u00edlias de angiospermas, totalizando 3.759 esp\u00e9cies catalogadas em oito volumes, e mesmo assim os pesquisadores da \u00e1rea reconhecem que o conhecimento sobre a biodiversidade paulista est\u00e1 longe de ser considerado completo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Da taxonomia \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho de identifica\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica de Baitello tamb\u00e9m teve desdobramentos que v\u00e3o al\u00e9m da ci\u00eancia pura. Um exemplo not\u00e1vel envolveu a canela-amarela (Nectandra barbellata), esp\u00e9cie nativa da Mata Atl\u00e2ntica de S\u00e3o Paulo e do Esp\u00edrito Santo e classificada como vulner\u00e1vel pela Lista Vermelha do Centro Nacional de Conserva\u00e7\u00e3o da Flora. Baitello participou da coleta e identifica\u00e7\u00e3o do material vegetal usado em uma pesquisa publicada na revista cient\u00edfica Bioorganic Chemistry, que identificou no galho dessa \u00e1rvore o \u00e1cido c\u00f3stico, subst\u00e2ncia capaz de alterar o metabolismo do parasita Trypanosoma cruzi, causador da doen\u00e7a de Chagas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O achado ilustra um ponto que frequentemente escapa ao debate p\u00fablico sobre conserva\u00e7\u00e3o: a preserva\u00e7\u00e3o de unidades de conserva\u00e7\u00e3o como o Parque Estadual Alberto L\u00f6fgren, onde a canela-amarela foi coletada, n\u00e3o \u00e9 relevante apenas para a manuten\u00e7\u00e3o de ecossistemas, mas tamb\u00e9m representa reserva estrat\u00e9gica para pesquisa m\u00e9dica e farmacol\u00f3gica. Esp\u00e9cies vegetais ainda n\u00e3o estudadas quimicamente podem esconder compostos com aplica\u00e7\u00e3o terap\u00eautica que s\u00f3 s\u00e3o descobertos d\u00e9cadas depois de a planta ter sido catalogada.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um legado que orienta quem vem depois<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo de quase 50 anos de dedica\u00e7\u00e3o ao Instituto Florestal e, posteriormente, ao Instituto de Pesquisas Ambientais, Baitello tamb\u00e9m formou uma gera\u00e7\u00e3o de pesquisadores. Participou de 15 bancas de mestrado e 6 de doutorado, al\u00e9m de identificar materiais de Lauraceae enviados por pesquisadores de todo o pa\u00eds, contribuindo indiretamente para in\u00fameros trabalhos cient\u00edficos que n\u00e3o levam seu nome, mas dependeram de sua expertise para avan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2017, o trabalho foi reconhecido com a medalha Alba Lavras, concedida pela Associa\u00e7\u00e3o de Pesquisadores Cient\u00edficos do Estado de S\u00e3o Paulo. Em 2020, publicou um livro reunindo ilustra\u00e7\u00f5es bot\u00e2nicas e fotografias hist\u00f3ricas do antigo Servi\u00e7o Florestal, resgatando um per\u00edodo de quase duas d\u00e9cadas de produ\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-cient\u00edfica da institui\u00e7\u00e3o que passaria despercebido sem esse trabalho de curadoria hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria de Baitello resume algo maior sobre a ci\u00eancia brasileira: descobertas de esp\u00e9cies raramente acontecem em um \u00fanico momento de euforia. Elas s\u00e3o o resultado de d\u00e9cadas de observa\u00e7\u00e3o paciente, compara\u00e7\u00e3o de exsicatas antigas e disposi\u00e7\u00e3o para questionar classifica\u00e7\u00f5es j\u00e1 estabelecidas. Enquanto o Brasil segue destacando-se pela riqueza de sua flora, s\u00e3o pesquisadores como Baitello, em sil\u00eancio, dentro de herb\u00e1rios hist\u00f3ricos, que garantem que essa riqueza seja de fato conhecida, nomeada e preservada.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem fam\u00edlias de plantas que resistem \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o mesmo depois de s\u00e9culos de estudo bot\u00e2nico. A Lauraceae, grupo que re\u00fane a canela, o abacateiro e a imbuia, \u00e9 uma delas. 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Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36544","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36544"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36544\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36546,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36544\/revisions\/36546"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36544"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36544"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36544"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36544"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}