{"id":36566,"date":"2026-07-09T10:07:29","date_gmt":"2026-07-09T13:07:29","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36566"},"modified":"2026-07-09T10:07:30","modified_gmt":"2026-07-09T13:07:30","slug":"pantanal-perda-agua-superficial-estudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/pantanal-perda-agua-superficial-estudo\/","title":{"rendered":"&#8220;Se continuarmos nesse ritmo, n\u00e3o teremos mais o Pantanal em 40 anos&#8221;, diz pesquisador que mapeou o colapso h\u00eddrico do bioma"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1985, o Pantanal brasileiro tinha quase 20 mil km\u00b2 cobertos por \u00e1gua vis\u00edvel por sat\u00e9lite, uma \u00e1rea maior do que estados inteiros como Sergipe. Em 2023, essa mancha azul havia encolhido para 3.817 km\u00b2, uma perda que passa dos 80% conforme o m\u00e9todo de an\u00e1lise aplicado. O dado \u00e9 resultado de um dos levantamentos mais completos j\u00e1 feitos sobre o bioma, conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e publicado na revista cient\u00edfica Advances in Space Research.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que o estudo revela vai al\u00e9m de um n\u00famero alarmante. Ele documenta, com precis\u00e3o temporal e espacial, o momento exato em que o maior sistema de \u00e1reas \u00famidas do planeta come\u00e7ou a perder sua capacidade de reter \u00e1gua, e aponta com clareza os fatores humanos e clim\u00e1ticos que est\u00e3o por tr\u00e1s desse processo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quase quatro d\u00e9cadas de imagens para entender uma trag\u00e9dia silenciosa<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A equipe de pesquisa combinou dados do MapBiomas com quatro \u00edndices espectrais diferentes, capazes de identificar a presen\u00e7a de \u00e1gua na superf\u00edcie terrestre a partir de imagens de sat\u00e9lite. Foram analisados nove recortes temporais entre 1985 e 2023, a cada cinco anos, totalizando 36 mapas que revelam a varia\u00e7\u00e3o espa\u00e7o-temporal dos corpos d&#8217;\u00e1gua na por\u00e7\u00e3o brasileira do Pantanal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa metodologia permitiu aos cientistas identificar n\u00e3o apenas quanto o bioma perdeu, mas tamb\u00e9m quando essa perda se intensificou. Os dados mostram que a partir dos anos 2000 a redu\u00e7\u00e3o da \u00e1gua superficial ganhou velocidade, com as \u00e1reas alagadas remanescentes em 2023 concentradas principalmente nos leitos dos rios e na regi\u00e3o central da plan\u00edcie pantaneira, longe da distribui\u00e7\u00e3o ampla e sazonal que caracterizava o bioma d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Nosso diferencial foi o tamanho da \u00e1rea em que trabalhamos, o per\u00edodo abrangido, de 1985 a 2023, e tamb\u00e9m os quatro \u00edndices espectrais utilizados para chegar aos resultados&#8221;<\/em>, explica S\u00e9rvio T\u00falio Pereira Justino, engenheiro florestal e doutor pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia Florestal da Faculdade de Ci\u00eancias Agr\u00e1rias (FCA) da Unesp, em Botucatu, um dos autores principais do estudo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Da v\u00e1rzea \u00e0 pastagem: o que aconteceu com a \u00e1gua que sumiu<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mecanismo por tr\u00e1s da perda h\u00eddrica combina dois fatores que se retroalimentam. Do lado clim\u00e1tico, o regime de chuvas na regi\u00e3o mudou de padr\u00e3o. Em vez de precipita\u00e7\u00f5es distribu\u00eddas ao longo de semanas, o Pantanal passa a receber volumes concentrados em poucos dias, seguidos de longos per\u00edodos de estiagem, o que reduz a capacidade do solo e dos rios de reter \u00e1gua de forma constante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do lado humano, a transforma\u00e7\u00e3o do uso da terra acelerou o problema. A expans\u00e3o da pecu\u00e1ria e da agricultura sobre \u00e1reas historicamente alag\u00e1veis, a constru\u00e7\u00e3o de canais artificiais que alteram o curso natural dos rios e a prolifera\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9tricas nos afluentes que alimentam a plan\u00edcie funcionam como barreiras f\u00edsicas que desregulam os ciclos naturais de cheia e seca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Uma \u00e1rea que antes seria alag\u00e1vel hoje \u00e9 uma \u00e1rea de pastagem&#8221;<\/em>, relata Justino. Segundo ele, o desmatamento na Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m tem papel relevante nesse processo, j\u00e1 que a floresta funciona como um corredor de umidade que abastece o clima do Pantanal. Com menos vapor d&#8217;\u00e1gua sendo transportado da bacia amaz\u00f4nica para o centro do continente, as chuvas na regi\u00e3o pantaneira se tornam ainda mais escassas e irregulares.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O efeito cascata sobre a vida selvagem<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Pantanal abriga cerca de 650 esp\u00e9cies de aves, 150 de mam\u00edferos, 325 de peixes e mais de 2.200 esp\u00e9cies de plantas, um patrim\u00f4nio de biodiversidade que depende diretamente do pulso de inunda\u00e7\u00e3o sazonal do bioma. A perda de \u00e1gua superficial rompe essa engrenagem em cadeia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A queda no volume de \u00e1gua afeta primeiro a reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes, que dependem das \u00e1reas alagadas para desova e alimenta\u00e7\u00e3o. Esse impacto se propaga para os predadores que dependem desses peixes como fonte de alimento, incluindo a on\u00e7a-pintada, s\u00edmbolo do bioma e esp\u00e9cie que utiliza os corpos d&#8217;\u00e1gua tanto para ca\u00e7ar quanto para se deslocar entre territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ira\u00ea Amaral Guerrini, professor do Departamento de Solos e Recursos Ambientais da Unesp e coautor de estudos anteriores sobre degrada\u00e7\u00e3o ambiental no Pantanal, refor\u00e7a que a combina\u00e7\u00e3o entre perda de vegeta\u00e7\u00e3o nativa e redu\u00e7\u00e3o dos corpos d&#8217;\u00e1gua cria um cen\u00e1rio de degrada\u00e7\u00e3o que se retroalimenta: menos \u00e1gua significa menos umidade retida no solo, o que por sua vez reduz ainda mais a cobertura vegetal nativa e amplia a vulnerabilidade do bioma a inc\u00eandios florestais, fen\u00f4meno que j\u00e1 atingiu mais de 15% da \u00e1rea total do Pantanal em 2024.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Comunidades que dependem da \u00e1gua que est\u00e1 sumindo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os impactos do colapso h\u00eddrico n\u00e3o se limitam \u00e0 fauna e \u00e0 flora. Popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas e comunidades tradicionais que vivem da pesca artesanal e do turismo ecol\u00f3gico enfrentam a escassez direta do recurso que sustenta seu modo de vida. A navegabilidade dos rios diminui, a pesca se torna mais dif\u00edcil em trechos que antes eram profundos o suficiente para embarca\u00e7\u00f5es de pequeno porte, e o turismo, uma das principais fontes de renda da regi\u00e3o, perde atratividade conforme as paisagens alagadas d\u00e3o lugar a \u00e1reas secas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Pantanal presta ainda servi\u00e7os ecossist\u00eamicos que ultrapassam os limites do bioma, como o armazenamento de carbono, a purifica\u00e7\u00e3o natural da \u00e1gua e a regula\u00e7\u00e3o do clima regional. A degrada\u00e7\u00e3o desses servi\u00e7os tem efeito que se estende muito al\u00e9m do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, os estados brasileiros onde o bioma est\u00e1 localizado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um alerta que exige resposta em escala de d\u00e9cada<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pesquisadores s\u00e3o categ\u00f3ricos ao afirmar que a janela para reverter o quadro est\u00e1 se fechando. <em>&#8220;O Pantanal est\u00e1 num ponto em que ele precisa urgentemente de ajuda. Se continuarmos nesse mesmo ritmo, infelizmente n\u00e3o teremos mais o bioma daqui 40 ou 50 anos&#8221;<\/em>, afirma Justino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A recomenda\u00e7\u00e3o da equipe \u00e9 clara: o monitoramento cont\u00ednuo por sat\u00e9lite, combinado com indicadores clim\u00e1ticos, deve se tornar ferramenta permanente de gest\u00e3o p\u00fablica, permitindo identificar com anteced\u00eancia regi\u00f5es em risco cr\u00edtico e orientar pol\u00edticas de conserva\u00e7\u00e3o h\u00eddrica antes que a degrada\u00e7\u00e3o se torne irrevers\u00edvel. A pesquisa refor\u00e7a que a preserva\u00e7\u00e3o do Pantanal depende de decis\u00f5es que conciliem manejo sustent\u00e1vel do solo e da \u00e1gua com a conten\u00e7\u00e3o do avan\u00e7o de infraestrutura sobre \u00e1reas alag\u00e1veis, medidas que, segundo os autores, precisam ser implementadas em escala de d\u00e9cada, e n\u00e3o de d\u00e9cadas de espera.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1985, o Pantanal brasileiro tinha quase 20 mil km\u00b2 cobertos por \u00e1gua vis\u00edvel por sat\u00e9lite, uma \u00e1rea maior do que estados inteiros como Sergipe. Em 2023, essa mancha azul havia encolhido para 3.817 km\u00b2, uma perda que passa dos 80% conforme o m\u00e9todo de an\u00e1lise aplicado. 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Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36566","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36566"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36566\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36567,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36566\/revisions\/36567"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35203"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36566"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36566"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}