{"id":36568,"date":"2026-07-09T10:14:11","date_gmt":"2026-07-09T13:14:11","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36568"},"modified":"2026-07-09T10:14:12","modified_gmt":"2026-07-09T13:14:12","slug":"fungos-cerrado-enzimas-industriais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/fungos-cerrado-enzimas-industriais\/","title":{"rendered":"Por que mais de 40% das enzimas industriais do planeta v\u00eam de um organismo que cabe em uma placa de Petri"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe um dado que costuma surpreender quem nunca parou para pensar na origem dos processos industriais mais comuns do planeta: mais de 40% das enzimas usadas pela ind\u00fastria mundial v\u00eam de fungos. Papel e celulose, biocombust\u00edveis, produ\u00e7\u00e3o de alimentos e uma fatia relevante da agricultura moderna dependem, em algum ponto da cadeia, de organismos microsc\u00f3picos que a maioria das pessoas associa apenas a mofo e cogumelo. Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) acaba de refor\u00e7ar essa conex\u00e3o de um jeito muito concreto: encontrando, no solo do Cerrado mineiro, doze esp\u00e9cies de fungos que a ci\u00eancia nunca tinha catalogado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo, publicado na revista cient\u00edfica <em>Applied Microbiology and Biotechnology<\/em>, nasceu de um projeto de bioprospec\u00e7\u00e3o que vasculhou amostras de solo em duas regi\u00f5es de Minas Gerais com perfis ecol\u00f3gicos bem distintos. A descoberta n\u00e3o \u00e9 apenas uma curiosidade taxon\u00f4mica. Ela chega em um momento em que o mundo discute, cada vez com mais urg\u00eancia, como substituir processos qu\u00edmicos poluentes por solu\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas \u2014 e o Brasil, com sua biodiversidade, est\u00e1 sentado sobre uma das maiores reservas de mat\u00e9ria-prima para essa transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Onde a ci\u00eancia foi procurar o que ainda n\u00e3o existia no mapa<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A equipe, coordenada pelos professores Lu\u00eds Roberto Batista, do Departamento de Ci\u00eancia dos Alimentos, e Victor Satler Pylro, do Departamento de Biologia, ambos da UFLA, coletou amostras de solo em dois pontos estrat\u00e9gicos de Minas Gerais. A primeira regi\u00e3o \u00e9 Patroc\u00ednio, no Alto Parana\u00edba, coberta pela vegeta\u00e7\u00e3o t\u00edpica do Cerrado. A segunda \u00e9 Ja\u00edba, no norte do estado, uma \u00e1rea de transi\u00e7\u00e3o em que o Cerrado come\u00e7a a ceder espa\u00e7o para a Caatinga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha dessas duas regi\u00f5es n\u00e3o foi aleat\u00f3ria. Cerrado e Caatinga juntos cobrem cerca de 35% do territ\u00f3rio brasileiro e concentram uma biodiversidade que a ci\u00eancia ainda est\u00e1 longe de mapear por completo. O Cerrado, em particular, \u00e9 reconhecido internacionalmente pela Conservation International como um dos hotspots mundiais de biodiversidade, um territ\u00f3rio onde a riqueza de esp\u00e9cies \u00e9 excepcional e, ao mesmo tempo, extremamente amea\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de coletadas, as amostras passaram por um processo minucioso de isolamento, cultivo em laborat\u00f3rio, caracteriza\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica e an\u00e1lise molecular. A etapa final envolveu uma parceria internacional com o Westerdijk Fungal Biodiversity Institute, na Holanda, uma das principais refer\u00eancias mundiais em taxonomia de fungos. Usando t\u00e9cnicas de sequenciamento de nova gera\u00e7\u00e3o, a colabora\u00e7\u00e3o permitiu identificar 1.481 fungos distintos presentes nas amostras de solo coletadas nos tr\u00eas ambientes estudados. Entre eles, doze se revelaram esp\u00e9cies completamente novas para a ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os nomes que carregam a hist\u00f3ria do territ\u00f3rio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As novas esp\u00e9cies pertencem a tr\u00eas g\u00eaneros com forte tradi\u00e7\u00e3o biotecnol\u00f3gica: <em>Penicillium<\/em>, <em>Talaromyces<\/em> e <em>Aspergillus<\/em>. A maior parte das descobertas est\u00e1 concentrada no g\u00eanero <em>Penicillium<\/em>, com esp\u00e9cies batizadas de forma a preservar a mem\u00f3ria do territ\u00f3rio e da ci\u00eancia brasileira. Entre os nomes est\u00e3o <em>Penicillium patrocinensis<\/em>, em refer\u00eancia direta \u00e0 cidade onde foi coletada, <em>Penicillium guarae<\/em> e <em>Penicillium pequii<\/em>, inspiradas na flora t\u00edpica do Cerrado, e <em>Penicillium moreirae<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das esp\u00e9cies, <em>Penicillium beraoi<\/em>, carrega uma homenagem especial: o nome presta tributo ao professor Paulo S\u00e9rgio Lacerda Beir\u00e3o, ex-presidente da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), reconhecendo sua contribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ao financiamento da ci\u00eancia mineira. \u00c9 um detalhe que humaniza a descoberta e conecta o avan\u00e7o cient\u00edfico a d\u00e9cadas de investimento p\u00fablico em pesquisa no estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todas as doze esp\u00e9cies est\u00e3o agora preservadas em um freezer a 80 graus negativos na Unidade de Recursos Microbiol\u00f3gicos da UFLA, a URMICRO. O espa\u00e7o funciona como um verdadeiro banco gen\u00e9tico, garantindo que esse material biol\u00f3gico fique dispon\u00edvel para pesquisas futuras, mesmo que os ambientes de origem sejam degradados.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que esses fungos podem fazer pela ind\u00fastria e pela agricultura<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O potencial biotecnol\u00f3gico desses microrganismos vai muito al\u00e9m da curiosidade cient\u00edfica. Fungos dos g\u00eaneros identificados na pesquisa s\u00e3o conhecidos por produzirem enzimas com aplica\u00e7\u00e3o direta em setores como alimenta\u00e7\u00e3o, medicina e biotecnologia industrial. O <em>Penicillium<\/em>, por exemplo, \u00e9 a base hist\u00f3rica da produ\u00e7\u00e3o da penicilina, o antibi\u00f3tico que revolucionou o tratamento de infec\u00e7\u00f5es bacterianas no s\u00e9culo passado, mas seu uso vai al\u00e9m da medicina: a matura\u00e7\u00e3o de queijos como gorgonzola e camembert tamb\u00e9m depende da a\u00e7\u00e3o desses fungos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista ecol\u00f3gico, esses organismos desempenham um papel essencial na decomposi\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria org\u00e2nica, contribuindo diretamente para a fertilidade do solo. Na aplica\u00e7\u00e3o industrial, o potencial se estende \u00e0 biorremedia\u00e7\u00e3o, um processo que usa organismos vivos para neutralizar contaminantes ambientais, e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de enzimas que substituem etapas qu\u00edmicas poluentes em diferentes cadeias produtivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos achados mais interessantes do estudo, complementar \u00e0 descoberta das novas esp\u00e9cies, foi a identifica\u00e7\u00e3o de fungos isolados de solos de cultivo de caf\u00e9 convencional com alta produ\u00e7\u00e3o de quitinase. Essa enzima \u00e9 capaz de degradar quitina, o material que forma o exoesqueleto de insetos e crust\u00e1ceos, e tem aplica\u00e7\u00e3o crescente na agricultura e na biotecnologia como alternativa ao controle qu\u00edmico de pragas. Na pr\u00e1tica, isso significa que fungos como esses podem substituir agrot\u00f3xicos em processos de biocontrole, reduzindo o impacto ambiental da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola sem comprometer sua efici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A corrida silenciosa da bioeconomia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mercado global de bioinsumos, categoria que re\u00fane produtos biol\u00f3gicos usados na agricultura para substituir insumos qu\u00edmicos, cresce a taxas superiores a 15% ao ano, segundo dados da Embrapa. Esse crescimento \u00e9 impulsionado pela press\u00e3o crescente por sistemas de produ\u00e7\u00e3o mais sustent\u00e1veis, tanto por exig\u00eancia regulat\u00f3ria quanto por demanda de mercados internacionais cada vez mais atentos \u00e0 pegada ambiental dos produtos que compram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse cen\u00e1rio, pa\u00edses com alta biodiversidade carregam uma vantagem estrutural dif\u00edcil de replicar. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel criar em laborat\u00f3rio a diversidade gen\u00e9tica que a natureza constr\u00f3i ao longo de milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o em um bioma como o Cerrado. Essa vantagem, por\u00e9m, tem prazo de validade. O mesmo Cerrado que abriga essas descobertas j\u00e1 perdeu cerca de 48% de sua vegeta\u00e7\u00e3o nativa, de acordo com dados do MapBiomas. A Caatinga, \u00fanico bioma exclusivamente brasileiro, enfrenta processo semelhante: mais de 60% de seu territ\u00f3rio j\u00e1 apresenta algum grau de desertifica\u00e7\u00e3o, segundo o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O avan\u00e7o das queimadas \u00e9 apontado pelos pr\u00f3prios pesquisadores como um dos principais fatores de perda de diversidade microbiol\u00f3gica nesses biomas. O fogo frequentemente ultrapassa a temperatura que esses fungos conseguem tolerar, eliminando popula\u00e7\u00f5es inteiras antes mesmo de serem identificadas pela ci\u00eancia. Isso transforma cada descoberta como essa em uma corrida contra o tempo: quanto mais r\u00e1pido o avan\u00e7o da degrada\u00e7\u00e3o ambiental, maior a chance de o Brasil perder, silenciosamente, organismos com potencial biotecnol\u00f3gico que sequer chegaram a ser catalogados.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um banco gen\u00e9tico como seguro para o futuro<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A exist\u00eancia de estruturas como a URMICRO ganha, nesse contexto, um significado que vai al\u00e9m da rotina acad\u00eamica. Preservar essas esp\u00e9cies em bancos gen\u00e9ticos funciona como uma esp\u00e9cie de seguro biol\u00f3gico: mesmo que o ambiente de origem seja destru\u00eddo, o material gen\u00e9tico permanece dispon\u00edvel para pesquisa e aplica\u00e7\u00e3o futura. \u00c9 uma l\u00f3gica semelhante \u00e0 dos bancos de sementes, mas aplicada ao mundo invis\u00edvel dos microrganismos, que raramente recebe a mesma aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica que animais e plantas de grande porte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A descoberta feita em Patroc\u00ednio e Ja\u00edba \u00e9, na pr\u00e1tica, uma amostra pequena de um universo que a ci\u00eancia apenas come\u00e7ou a explorar. Se doze esp\u00e9cies novas surgiram a partir de amostras coletadas em apenas dois pontos de Minas Gerais, a extens\u00e3o do que ainda pode existir, sem nome e sem descri\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, no restante do Cerrado e da Caatinga \u00e9 dif\u00edcil at\u00e9 de estimar. Cada hectare preservado desses biomas carrega, potencialmente, solu\u00e7\u00f5es biotecnol\u00f3gicas que a ind\u00fastria global s\u00f3 vai conhecer se a floresta e o solo que os abrigam continuarem de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um dado que costuma surpreender quem nunca parou para pensar na origem dos processos industriais mais comuns do planeta: mais de 40% das enzimas usadas pela ind\u00fastria mundial v\u00eam de fungos. 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