{"id":36599,"date":"2026-07-11T10:00:23","date_gmt":"2026-07-11T13:00:23","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36599"},"modified":"2026-07-11T10:00:24","modified_gmt":"2026-07-11T13:00:24","slug":"bisnagueira-arvore-toxica-abelhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/bisnagueira-arvore-toxica-abelhas\/","title":{"rendered":"Pomerode declara guerra a uma \u00e1rvore que mata abelhas silenciosamente h\u00e1 d\u00e9cadas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma \u00e1rvore que enfeitou pra\u00e7as e avenidas de dezenas de cidades brasileiras por sua flora\u00e7\u00e3o vermelha exuberante est\u00e1 no centro de uma opera\u00e7\u00e3o de retirada em Pomerode, em Santa Catarina. A Prefeitura iniciou o processo de remo\u00e7\u00e3o de exemplares de Spathodea campanulata, popularmente conhecida como bisnagueira, chama da floresta ou tulipeira do Gab\u00e3o, instalados em espa\u00e7os p\u00fablicos do munic\u00edpio. O motivo n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com est\u00e9tica ou manejo urbano convencional: a esp\u00e9cie carrega em suas flores subst\u00e2ncias capazes de matar abelhas em contato direto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A decis\u00e3o de Pomerode n\u00e3o \u00e9 isolada. Ela integra um movimento mais amplo de conscientiza\u00e7\u00e3o que ganhou for\u00e7a em Santa Catarina nos \u00faltimos anos, \u00e0 medida que estudos cient\u00edficos foram confirmando o que apicultores da regi\u00e3o j\u00e1 observavam empiricamente h\u00e1 tempos: col\u00f4nias inteiras enfraquecidas ou dizimadas logo ap\u00f3s per\u00edodos de flora\u00e7\u00e3o intensa da bisnagueira nas proximidades.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O mecanismo por tr\u00e1s da toxicidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Spathodea campanulata \u00e9 origin\u00e1ria da \u00c1frica Ocidental e chegou ao Brasil como planta ornamental, valorizada pelo crescimento r\u00e1pido e pelas flores vistosas em tom alaranjado. O problema est\u00e1 justamente na estrutura floral que a torna t\u00e3o atraente aos olhos humanos. Pesquisas conduzidas por institui\u00e7\u00f5es como a Universidade Federal da Bahia identificaram que o n\u00e9ctar, o p\u00f3len e a mucilagem presentes nas flores cont\u00eam compostos com propriedades inseticidas, capazes de causar mortalidade significativa entre diferentes esp\u00e9cies de abelhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um levantamento realizado no campus de Ondina da UFBA analisou 86 flores coletadas ao longo de um per\u00edodo de flora\u00e7\u00e3o de 15 dias e constatou algo revelador: praticamente todos os insetos encontrados mortos dentro das flores pertenciam \u00e0 ordem Hymenoptera, sendo a quase totalidade deles abelhas. O estudo refor\u00e7ou que esp\u00e9cies de Melipona, g\u00eanero de abelhas sem ferr\u00e3o nativas do Brasil, est\u00e3o entre as mais vulner\u00e1veis \u00e0 subst\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mecanismo de contamina\u00e7\u00e3o funciona de forma direta e tamb\u00e9m indireta. Ao pousar na flor em busca de n\u00e9ctar, a abelha entra em contato com as toxinas e pode morrer no pr\u00f3prio local, presa dentro da estrutura floral. Em outros casos, o inseto sobrevive ao contato inicial, mas carrega res\u00edduos da subst\u00e2ncia de volta \u00e0 colmeia, o que espalha o efeito t\u00f3xico para outras abelhas e compromete a col\u00f4nia inteira ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um problema que se agrava na entressafra<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dado que amplia a gravidade da situa\u00e7\u00e3o diz respeito \u00e0 sazonalidade. Levantamentos t\u00e9cnicos indicam que o risco da bisnagueira para as abelhas se intensifica justamente em per\u00edodos de escassez de outras fontes de flora\u00e7\u00e3o, como o final do outono e o in\u00edcio do inverno no sul do pa\u00eds. Nesses momentos, com menos op\u00e7\u00f5es de alimento dispon\u00edveis, as abelhas acabam recorrendo \u00e0s flores da esp\u00e9cie t\u00f3xica com maior frequ\u00eancia, o que eleva a taxa de mortalidade registrada nas col\u00f4nias pr\u00f3ximas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse padr\u00e3o ajuda a explicar por que muitos apicultores catarinenses relatam perdas expressivas de colmeias justamente nos meses mais frios, per\u00edodo que coincide com o pico de flora\u00e7\u00e3o da \u00e1rvore em diversas regi\u00f5es do estado. Um estudo conduzido no munic\u00edpio de Santa Rosa do Sul, tamb\u00e9m em Santa Catarina, documentou a presen\u00e7a de milhares de col\u00f4nias de Apis mellifera na regi\u00e3o e apontou a bisnagueira como um dos principais fatores de risco identificados durante o mapeamento local da esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A base legal que sustenta a remo\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A a\u00e7\u00e3o em Pomerode n\u00e3o \u00e9 uma iniciativa isolada de gest\u00e3o paisag\u00edstica. Ela responde a um arcabou\u00e7o legal constru\u00eddo em diferentes esferas de governo ao longo da \u00faltima d\u00e9cada. No \u00e2mbito municipal, a Lei n\u00ba 3.095\/2020 pro\u00edbe expressamente a produ\u00e7\u00e3o de mudas e o cultivo da bisnagueira dentro do territ\u00f3rio do munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em escala estadual, a Lei n\u00ba 17.694\/2019 vai al\u00e9m e veda o plantio e a reprodu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie em todo o territ\u00f3rio catarinense, determinando ainda que os exemplares existentes em \u00e1reas p\u00fablicas devem ser gradualmente substitu\u00eddos. A norma tamb\u00e9m prev\u00ea a aplica\u00e7\u00e3o de multas para quem produzir ou manter mudas da \u00e1rvore, com valores que podem chegar a R$ 1 mil por planta irregular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m existe uma camada federal no debate. O Conselho Nacional do Meio Ambiente, por meio da Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 496\/2020, reconheceu formalmente o problema ao proibir a produ\u00e7\u00e3o de mudas e o plantio da esp\u00e9cie, ao mesmo tempo em que incentivou a substitui\u00e7\u00e3o dos exemplares j\u00e1 existentes por \u00e1rvores nativas em todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que a substitui\u00e7\u00e3o por esp\u00e9cies nativas importa<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A remo\u00e7\u00e3o de cada \u00e1rvore em Pomerode \u00e9 acompanhada do plantio de uma esp\u00e9cie nativa da flora brasileira no mesmo local, o que garante a manuten\u00e7\u00e3o da cobertura vegetal e do paisagismo urbano sem repetir o risco ambiental. Essa escolha tem um efeito que vai al\u00e9m da est\u00e9tica: \u00e1rvores nativas tendem a estabelecer rela\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas mais equilibradas com a fauna polinizadora local, oferecendo n\u00e9ctar e p\u00f3len que n\u00e3o representam amea\u00e7a \u00e0s abelhas, aos beija-flores e a outros pequenos animais que dependem dessas flores para se alimentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O impacto da perda de polinizadores ultrapassa a sa\u00fade das colmeias. Abelhas nativas sem ferr\u00e3o, especialmente as do g\u00eanero Melipona, desempenham papel fundamental na reprodu\u00e7\u00e3o de diversas esp\u00e9cies vegetais brasileiras, incluindo plantas frut\u00edferas de relev\u00e2ncia econ\u00f4mica e ecol\u00f3gica. Quando uma fonte t\u00f3xica como a bisnagueira se espalha por um territ\u00f3rio, o efeito em cadeia pode alcan\u00e7ar toda a cadeia de poliniza\u00e7\u00e3o de uma regi\u00e3o, com consequ\u00eancias que se estendem por anos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um alerta que ultrapassa os limites de Santa Catarina<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora as leis espec\u00edficas contra o cultivo da bisnagueira estejam concentradas em Santa Catarina, a esp\u00e9cie foi amplamente disseminada na arboriza\u00e7\u00e3o urbana de cidades em praticamente todas as regi\u00f5es do Brasil ao longo do s\u00e9culo passado, o que significa que o problema identificado em Pomerode tem potencial de repeti\u00e7\u00e3o em muitos outros munic\u00edpios que ainda n\u00e3o adotaram medidas equivalentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A experi\u00eancia catarinense, sustentada por pesquisa cient\u00edfica consistente e por uma legisla\u00e7\u00e3o que j\u00e1 amadureceu ao longo de mais de cinco anos, oferece um modelo replic\u00e1vel: identifica\u00e7\u00e3o dos exemplares em \u00e1reas p\u00fablicas, remo\u00e7\u00e3o planejada, substitui\u00e7\u00e3o por esp\u00e9cies nativas e campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o para evitar que novas mudas sejam plantadas em terrenos particulares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma \u00e1rvore que enfeitou pra\u00e7as e avenidas de dezenas de cidades brasileiras por sua flora\u00e7\u00e3o vermelha exuberante est\u00e1 no centro de uma opera\u00e7\u00e3o de retirada em Pomerode, em Santa Catarina. 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Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36599"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36599\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36601,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36599\/revisions\/36601"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36599"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}