{"id":36640,"date":"2026-07-14T17:43:53","date_gmt":"2026-07-14T20:43:53","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36640"},"modified":"2026-07-14T17:43:53","modified_gmt":"2026-07-14T20:43:53","slug":"mangueira-abelha-especies-invasoras-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/mangueira-abelha-especies-invasoras-brasil\/","title":{"rendered":"O ranking que ningu\u00e9m esperava: mangueira e abelha-europeia lideram a lista das esp\u00e9cies que mais invadiram o Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucas coisas parecem t\u00e3o brasileiras quanto uma manga colhida no quintal ou o zumbido de uma abelha sobrevoando o jardim. Nenhuma das duas, por\u00e9m, nasceu aqui. A mangueira (Mangifera indica) veio da \u00c1sia. A abelha-europeia (Apis mellifera) tem origem no continente que d\u00e1 nome \u00e0 esp\u00e9cie. E \u00e9 justamente essa dupla, t\u00e3o incorporada ao cotidiano do pa\u00eds que parece nativa, que lidera o ranking das esp\u00e9cies ex\u00f3ticas mais disseminadas dentro das unidades de conserva\u00e7\u00e3o federais do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dado vem de um levantamento in\u00e9dito do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), divulgado neste ano e destacado pela ((o))eco, principal portal de jornalismo ambiental do pa\u00eds. O estudo mapeou a presen\u00e7a de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas invasoras em 561 unidades de conserva\u00e7\u00e3o administradas pelo governo federal e chegou a um n\u00famero que impressiona: mais de 5.600 registros de invas\u00e3o biol\u00f3gica, envolvendo 290 esp\u00e9cies diferentes entre fauna e flora.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como a mangueira conquistou as \u00e1reas protegidas do Brasil<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as 162 esp\u00e9cies vegetais ex\u00f3ticas invasoras identificadas, a mangueira aparece \u00e0 frente de todas, com registros em pelo menos 53 unidades de conserva\u00e7\u00e3o federais segundo o levantamento mais recente do ICMBio. A \u00e1rvore foi trazida ao Brasil ainda no per\u00edodo colonial e se adaptou t\u00e3o bem ao clima tropical que hoje faz parte da paisagem urbana e rural de praticamente todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa adapta\u00e7\u00e3o, que para a popula\u00e7\u00e3o em geral representa sombra, fruta e mem\u00f3ria afetiva, \u00e9 exatamente o que preocupa os cientistas respons\u00e1veis pelo monitoramento das unidades de conserva\u00e7\u00e3o. A mangueira compete por espa\u00e7o, luz e nutrientes com esp\u00e9cies nativas, alterando a din\u00e2mica de regenera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o original. Em unidades de conserva\u00e7\u00e3o onde a proposta \u00e9 preservar o ecossistema tal como ele evoluiu ao longo de milhares de anos, a presen\u00e7a maci\u00e7a de uma \u00e1rvore ex\u00f3tica interfere diretamente nesse equil\u00edbrio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo atr\u00e1s da mangueira no ranking da flora invasora aparecem duas gram\u00edneas de origem africana, o capim-gordura (Melinis minutiflora) e o capim-coloni\u00e3o (Megathyrsus maximus). Ambas t\u00eam um agravante que vai al\u00e9m da competi\u00e7\u00e3o por espa\u00e7o: s\u00e3o esp\u00e9cies com alta inflamabilidade, o que aumenta significativamente o risco de inc\u00eandios florestais em \u00e1reas onde se estabelecem. A combina\u00e7\u00e3o entre gram\u00edneas ex\u00f3ticas e clima seco j\u00e1 \u00e9 apontada por pesquisadores como um dos fatores que intensificam queimadas em unidades de conserva\u00e7\u00e3o do Cerrado e da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A abelha que amea\u00e7a as abelhas nativas do Brasil<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No grupo da fauna, a abelha-europeia lidera com folga, aparecendo em pelo menos 108 unidades de conserva\u00e7\u00e3o federais entre as 128 esp\u00e9cies animais ex\u00f3ticas catalogadas pelo levantamento. A esp\u00e9cie chegou ao Brasil em 1839, trazida de Portugal para dar in\u00edcio \u00e0 atividade ap\u00edcola no pa\u00eds, e se espalhou de forma t\u00e3o consistente que hoje \u00e9 dificilmente distingu\u00edvel, aos olhos de quem n\u00e3o \u00e9 especialista, das mais de 300 esp\u00e9cies de abelhas nativas sem ferr\u00e3o que o Brasil abriga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema n\u00e3o est\u00e1 na produ\u00e7\u00e3o de mel, atividade econ\u00f4mica relevante e consolidada no pa\u00eds. Est\u00e1 na competi\u00e7\u00e3o direta que a abelha-europeia trava com as abelhas nativas por recursos florais, o que reduz a disponibilidade de p\u00f3len e n\u00e9ctar para esp\u00e9cies que, muitas vezes, t\u00eam papel insubstitu\u00edvel na poliniza\u00e7\u00e3o de plantas nativas espec\u00edficas. Diversas esp\u00e9cies vegetais do Brasil evolu\u00edram em conjunto com polinizadores nativos ao longo de milh\u00f5es de anos, e a substitui\u00e7\u00e3o gradual desses polinizadores por uma esp\u00e9cie ex\u00f3tica generalista pode comprometer ciclos reprodutivos inteiros de plantas que dependem dessa rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sequ\u00eancia do ranking da fauna invasora aparece o pardal (Passer domesticus), ave de origem no Oriente M\u00e9dio hoje presente em pelo menos 85 unidades de conserva\u00e7\u00e3o, e o camundongo (Mus musculus), que acompanha a ocupa\u00e7\u00e3o humana e se estabelece com facilidade em \u00e1reas antropizadas dentro e no entorno de parques e reservas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O tamanho real do problema nas unidades de conserva\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O levantamento do ICMBio revela que 72,3% das unidades de conserva\u00e7\u00e3o federais analisadas j\u00e1 abrigam ao menos uma esp\u00e9cie ex\u00f3tica invasora. \u00c9 um n\u00famero que reposiciona a discuss\u00e3o sobre prote\u00e7\u00e3o ambiental no Brasil: mais da metade das \u00e1reas criadas especificamente para preservar ecossistemas originais j\u00e1 convive, de alguma forma, com a presen\u00e7a de esp\u00e9cies que n\u00e3o pertencem \u00e0quele ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o. A Mata Atl\u00e2ntica desponta como o bioma mais afetado por invas\u00f5es biol\u00f3gicas, resultado direto de sua longa hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o humana, fragmenta\u00e7\u00e3o florestal e proximidade com centros urbanos densamente povoados. J\u00e1 a Amaz\u00f4nia, apesar de sua extens\u00e3o territorial, apresenta um n\u00famero proporcionalmente menor de registros, com apenas 13 esp\u00e9cies ex\u00f3ticas de plantas catalogadas para o bioma segundo estudos anteriores ao levantamento mais recente. Os pesquisadores s\u00e3o cautelosos ao interpretar esse dado: a menor incid\u00eancia pode refletir tanto uma real menor press\u00e3o de invas\u00e3o quanto uma lacuna de monitoramento em \u00e1reas remotas e de dif\u00edcil acesso, onde o esfor\u00e7o de pesquisa em campo ainda \u00e9 limitado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as unidades de conserva\u00e7\u00e3o com maior concentra\u00e7\u00e3o de registros, a APA Ilhas e V\u00e1rzeas do Rio Paran\u00e1 lidera em ocorr\u00eancias de fauna ex\u00f3tica, enquanto o Parque Nacional de Bras\u00edlia concentra o maior n\u00famero de registros de flora invasora entre as \u00e1reas monitoradas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um custo que vai muito al\u00e9m da biodiversidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dado adicional, levantado em relat\u00f3rios recentes sobre o impacto econ\u00f4mico das invas\u00f5es biol\u00f3gicas, ajuda a dimensionar a gravidade do problema para al\u00e9m do debate estritamente ambiental. Estima-se que esp\u00e9cies ex\u00f3ticas invasoras j\u00e1 causem preju\u00edzos anuais de at\u00e9 R$ 15 bilh\u00f5es ao Brasil, somando custos de controle, perdas produtivas e danos a ecossistemas que prestam servi\u00e7os ambientais essenciais, como purifica\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e regula\u00e7\u00e3o do clima local. Esse valor quadruplicou desde a d\u00e9cada de 1970, um reflexo direto da intensifica\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio internacional, do turismo e do transporte de cargas, vetores que facilitam a movimenta\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies para al\u00e9m de suas barreiras geogr\u00e1ficas naturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em escala global, invas\u00f5es biol\u00f3gicas j\u00e1 s\u00e3o apontadas como fator determinante em at\u00e9 60% das extin\u00e7\u00f5es de plantas e animais registradas nos \u00faltimos s\u00e9culos, o que coloca o tema no mesmo patamar de urg\u00eancia de outras grandes amea\u00e7as ambientais, como o desmatamento e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O paradoxo das esp\u00e9cies que viraram parte da paisagem<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso da mangueira e da abelha-europeia exp\u00f5e um paradoxo pouco discutido fora dos c\u00edrculos cient\u00edficos. Ambas as esp\u00e9cies est\u00e3o t\u00e3o profundamente incorporadas \u00e0 cultura, \u00e0 economia e \u00e0 paisagem brasileira que sua condi\u00e7\u00e3o de ex\u00f3ticas invasoras passa despercebida pela maioria da popula\u00e7\u00e3o. Isso dificulta o desenho de pol\u00edticas p\u00fablicas de manejo, j\u00e1 que qualquer a\u00e7\u00e3o de controle esbarra na percep\u00e7\u00e3o social de que se trata de elementos naturais do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o ICMBio e para os pesquisadores que assinam o levantamento, o primeiro passo \u00e9 justamente esse: tornar vis\u00edvel o que a naturaliza\u00e7\u00e3o cultural escondeu. Reconhecer que esp\u00e9cies queridas e economicamente relevantes tamb\u00e9m podem representar risco \u00e0 biodiversidade nativa \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que o manejo dessas invas\u00f5es avance de forma tecnicamente embasada, sem negar a import\u00e2ncia econ\u00f4mica e cultural que mangueiras e abelhas conquistaram ao longo de quase dois s\u00e9culos de presen\u00e7a no territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Levantamento do ICMBio em unidades de conserva\u00e7\u00e3o federais aponta as duas esp\u00e9cies como as mais disseminadas entre 290 ex\u00f3ticas j\u00e1 identificadas, com impacto direto sobre a fauna e a flora nativas<\/p>\n","protected":false},"author":990012,"featured_media":31320,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[706],"tags":[],"ppma_author":[395],"class_list":["post-36640","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fauna-vida-silvestre","author-mel-maria"],"authors":[{"term_id":395,"user_id":990012,"is_guest":0,"slug":"mel-maria","display_name":"Mel Maria","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/50961e0508195fe342670c9ee218e6ab1b2463b7a360c03c14a381ba6a4ca049?s=96&d=mm&r=g","author_category":"2","first_name":"","last_name":"","user_url":"","job_title":"","description":"<b>Mel Maria<\/b> \u00e9 uma <b>jardineira e empreendedora<\/b> com mais de <b>10 anos de experi\u00eancia<\/b> no cultivo e com\u00e9rcio de plantas em <b>Curitiba<\/b>. 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