{"id":36655,"date":"2026-07-15T11:08:50","date_gmt":"2026-07-15T14:08:50","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36655"},"modified":"2026-07-15T11:08:50","modified_gmt":"2026-07-15T14:08:50","slug":"plantas-ornamentais-invasoras-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/plantas-ornamentais-invasoras-brasil\/","title":{"rendered":"O jardim bonito pode estar destruindo a mata ao lado, e a ci\u00eancia j\u00e1 provou isso"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Passeie por qualquer parque urbano brasileiro e \u00e9 prov\u00e1vel que boa parte do verde que voc\u00ea v\u00ea ali n\u00e3o seja nativo. Palmeiras esguias, arbustos floridos, gram\u00edneas ornamentais: muitas dessas plantas foram escolhidas ao longo de d\u00e9cadas por um \u00fanico crit\u00e9rio, a beleza est\u00e9tica. O problema \u00e9 que uma parcela significativa delas n\u00e3o ficou nos limites do jardim. Escapou, se instalou em \u00e1reas naturais pr\u00f3ximas e hoje figura entre as esp\u00e9cies invasoras mais preocupantes do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Relat\u00f3rio Tem\u00e1tico sobre Esp\u00e9cies Ex\u00f3ticas Invasoras, Biodiversidade e Servi\u00e7os Ecossist\u00eamicos, produzido pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Servi\u00e7os Ecossist\u00eamicos (BPBES) e amplamente divulgado pelo Jornal da USP, trouxe um dado que reposiciona completamente o debate sobre paisagismo no Brasil. Segundo a Base de Dados Nacional de Esp\u00e9cies Ex\u00f3ticas Invasoras, mantida pelo Instituto H\u00f3rus de Desenvolvimento e Conserva\u00e7\u00e3o Ambiental, as plantas ornamentais representam cerca de 70% de todas as esp\u00e9cies ex\u00f3ticas invasoras registradas no territ\u00f3rio nacional. N\u00e3o se trata de uma minoria de casos isolados. \u00c9 a principal porta de entrada de invas\u00f5es biol\u00f3gicas vegetais no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O caso que virou s\u00edmbolo em S\u00e3o Paulo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos exemplos mais emblem\u00e1ticos dessa din\u00e2mica acontece bem no centro de S\u00e3o Paulo. A palmeira-australiana (Archontophoenix cunninghamiana), esp\u00e9cie ornamental introduzida por sua eleg\u00e2ncia e crescimento r\u00e1pido, se instalou no Parque Trianon, na Avenida Paulista, e tamb\u00e9m na reserva de Mata Atl\u00e2ntica da Cidade Universit\u00e1ria da USP, conhecida como a matinha. A planta se espalhou de forma t\u00e3o intensa que passou a competir diretamente com esp\u00e9cies nativas, ocupando o espa\u00e7o que antes pertencia \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o original do bioma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A professora V\u00e2nia Regina Pivello, do Instituto de Bioci\u00eancias da USP e pesquisadora do Laborat\u00f3rio de Ecologia da Paisagem e Conserva\u00e7\u00e3o, coordenou um dos primeiros testes de controle dessa palmeira justamente na matinha da universidade, antes de o problema ser enfrentado no Trianon. O epis\u00f3dio revelou uma camada adicional do desafio: quando as palmeiras foram cortadas para conter o avan\u00e7o, parte da popula\u00e7\u00e3o reagiu contra a a\u00e7\u00e3o, por acreditar que a interven\u00e7\u00e3o estava destruindo a flora local, quando na verdade retirava uma esp\u00e9cie ex\u00f3tica que amea\u00e7ava justamente a vegeta\u00e7\u00e3o nativa. Foi necess\u00e1rio um trabalho extenso de educa\u00e7\u00e3o ambiental para reverter essa percep\u00e7\u00e3o equivocada.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que plantas ornamentais se tornam t\u00e3o perigosas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A explica\u00e7\u00e3o para essa vulnerabilidade est\u00e1 nas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas que tornam uma planta atraente para o paisagismo. Esp\u00e9cies escolhidas para jardins costumam ter crescimento r\u00e1pido, alta capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o, resist\u00eancia a diferentes condi\u00e7\u00f5es de solo e clima, e flores ou folhagens vistosas que facilitam sua dissemina\u00e7\u00e3o por p\u00e1ssaros e outros animais. S\u00e3o exatamente essas qualidades, valorizadas na hora do plantio, que permitem que a esp\u00e9cie se estabele\u00e7a com facilidade fora dos limites do jardim quando suas sementes ou mudas alcan\u00e7am \u00e1reas naturais pr\u00f3ximas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O l\u00edrio-do-brejo (Hedychium coronarium) ilustra bem esse mecanismo. Nativo da \u00c1sia, foi introduzido no Brasil como planta ornamental e se espalhou rapidamente pelas regi\u00f5es Sul e Sudeste, adaptando-se com facilidade \u00e0s margens de lagos e cursos d&#8217;\u00e1gua. Hoje a esp\u00e9cie invade canais e riachos, al\u00e9m de causar entupimentos em tubula\u00e7\u00f5es de hidrel\u00e9tricas, segundo dados do Instituto H\u00f3rus. Por n\u00e3o conviver bem com outras esp\u00e9cies, o l\u00edrio-do-brejo acaba expulsando plantas nativas de seu habitat original, um problema particularmente grave em \u00e1reas remanescentes de Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro caso relevante \u00e9 o do ip\u00ea-de-jardim (Tecoma stans), planta trazida da Am\u00e9rica Central para uso ornamental no estado de S\u00e3o Paulo na d\u00e9cada de 1970. A esp\u00e9cie se espalhou de forma t\u00e3o agressiva que hoje j\u00e1 invade mais de 50 mil hectares de pastagem na regi\u00e3o de Londrina e Assa\u00ed, no Paran\u00e1, mostrando que o problema criado em ambiente urbano frequentemente extrapola os limites da cidade e alcan\u00e7a \u00e1reas rurais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O impacto que vai al\u00e9m da est\u00e9tica<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os n\u00fameros do relat\u00f3rio da BPBES dimensionam a gravidade do problema em escala nacional. O documento identifica entre 476 e mais de 500 esp\u00e9cies ex\u00f3ticas invasoras no Brasil, dependendo do levantamento consultado, sendo que as plantas respondem por cerca de 200 desses registros. O preju\u00edzo econ\u00f4mico anual causado por todas as esp\u00e9cies invasoras no pa\u00eds, entre plantas e animais, \u00e9 estimado entre 2 e 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, considerando impactos sobre agricultura, infraestrutura, sa\u00fade p\u00fablica e servi\u00e7os ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c1reas urbanas concentram parte expressiva dessas invas\u00f5es justamente por reunirem alta circula\u00e7\u00e3o de pessoas, mercadorias e viveiros de plantas comerciais. O relat\u00f3rio aponta que ambientes degradados ou de intenso uso humano s\u00e3o especialmente vulner\u00e1veis \u00e0 instala\u00e7\u00e3o dessas esp\u00e9cies, criando um ciclo em que jardins, pra\u00e7as e \u00e1reas verdes urbanas funcionam como ponto de partida para a coloniza\u00e7\u00e3o de fragmentos florestais pr\u00f3ximos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um levantamento conduzido na \u00e1rea urbana de Curitiba, publicado pela Revista Floresta da UFPR, encontrou que 58% das esp\u00e9cies vegetais registradas na cidade eram ex\u00f3ticas, com destaque para plantas amplamente usadas em paisagismo, como a espada-de-s\u00e3o-jorge, o agapanto e a trapoeraba. Esse tipo de mapeamento mostra que a presen\u00e7a dessas esp\u00e9cies n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno isolado de uma cidade ou regi\u00e3o espec\u00edfica, mas um padr\u00e3o que se repete em centros urbanos por todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O mercado que resiste \u00e0 mudan\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos pontos mais delicados levantados pelos pesquisadores da BPBES \u00e9 a resist\u00eancia que vem do pr\u00f3prio setor econ\u00f4mico ligado \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o dessas esp\u00e9cies. Produtores e viveiristas frequentemente pressionam contra a rotula\u00e7\u00e3o oficial de determinadas plantas como invasoras, temendo perda de valor comercial ou dificuldades em processos de certifica\u00e7\u00e3o. Essa tens\u00e3o explica, em parte, por que o Brasil ainda n\u00e3o tem uma lista oficial nacional de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas invasoras, dependendo de bases de dados mantidas por organiza\u00e7\u00f5es como o Instituto H\u00f3rus e de listas estaduais adotadas por unidades da federa\u00e7\u00e3o como Paran\u00e1, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, S\u00e3o Paulo, Distrito Federal e Bahia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa lacuna tem consequ\u00eancia direta na pr\u00e1tica do paisagismo. Sem uma refer\u00eancia nacional unificada e amplamente divulgada, arquitetos paisagistas, viveiros e at\u00e9 \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos municipais continuam especificando e comercializando esp\u00e9cies com hist\u00f3rico comprovado de invas\u00e3o, muitas vezes por desconhecimento e n\u00e3o por m\u00e1-f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Alternativas j\u00e1 existem, e s\u00e3o conhecidas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O contraponto ao problema j\u00e1 est\u00e1 documentado. Iniciativas como o Guia sobre Plantas Nativas Ornamentais de Restinga, elaborado por pesquisadores da UFSC em parceria com o Instituto H\u00f3rus, e o livreto Ex\u00f3ticos Invasores, produzido pela FATMA, re\u00fanem alternativas nativas com apelo est\u00e9tico equivalente ao das esp\u00e9cies ex\u00f3ticas mais usadas hoje. A plataforma Arquiflora tamb\u00e9m disponibiliza consultas por regi\u00e3o, permitindo que profissionais de paisagismo substituam esp\u00e9cies de risco por op\u00e7\u00f5es nativas adequadas ao clima e ao solo de cada localidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caminho, segundo os pr\u00f3prios pesquisadores envolvidos no relat\u00f3rio da BPBES, n\u00e3o passa pela proibi\u00e7\u00e3o indiscriminada de plantas ornamentais, mas pela avalia\u00e7\u00e3o de risco de invas\u00e3o antes da ado\u00e7\u00e3o em larga escala, aliada \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o do uso de esp\u00e9cies nativas em projetos paisag\u00edsticos p\u00fablicos e privados. Cidades que adotam esse crit\u00e9rio na escolha de mudas para arboriza\u00e7\u00e3o e jardinagem reduzem significativamente a press\u00e3o sobre os fragmentos de vegeta\u00e7\u00e3o nativa que ainda resistem dentro do tecido urbano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O verde que embeleza uma pra\u00e7a pode, sem que ningu\u00e9m perceba, estar corroendo o verde que sustenta um ecossistema inteiro logo ali ao lado. Entender essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 o primeiro passo para que o paisagismo brasileiro pare de ser, sem querer, um dos maiores vetores de perda de biodiversidade do pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa da BPBES, divulgada pelo Jornal da USP, identifica dezenas de esp\u00e9cies ornamentais que escaparam do paisagismo urbano e hoje dominam remanescentes de vegeta\u00e7\u00e3o nativa no Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":990012,"featured_media":25827,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[708],"tags":[],"ppma_author":[395],"class_list":["post-36655","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-eco-clima-sustentabilidade","author-mel-maria"],"authors":[{"term_id":395,"user_id":990012,"is_guest":0,"slug":"mel-maria","display_name":"Mel Maria","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/50961e0508195fe342670c9ee218e6ab1b2463b7a360c03c14a381ba6a4ca049?s=96&d=mm&r=g","author_category":"2","first_name":"","last_name":"","user_url":"","job_title":"","description":"<b>Mel Maria<\/b> \u00e9 uma <b>jardineira e empreendedora<\/b> com mais de <b>10 anos de experi\u00eancia<\/b> no cultivo e com\u00e9rcio de plantas em <b>Curitiba<\/b>. Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36655","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36655"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36655\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36656,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36655\/revisions\/36656"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25827"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36655"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36655"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36655"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36655"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}