{"id":54163,"date":"2026-08-12T15:55:15","date_gmt":"2026-08-12T18:55:15","guid":{"rendered":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/?p=54163"},"modified":"2026-08-12T15:55:16","modified_gmt":"2026-08-12T18:55:16","slug":"araponga-ave-mais-barulhenta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/araponga-ave-mais-barulhenta\/","title":{"rendered":"Araponga produz um dos sons mais altos j\u00e1 registrados entre aves, ouvido a mais de um quil\u00f4metro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No topo das montanhas da Amaz\u00f4nia setentrional, um p\u00e1ssaro branco do tamanho de uma pomba solta um grito que rivaliza com o som de uma britadeira. A araponga-da-amaz\u00f4nia, cujo nome cient\u00edfico \u00e9 <em>Procnias albus<\/em>, foi confirmada por cientistas como a ave mais barulhenta j\u00e1 registrada no planeta, com vocaliza\u00e7\u00f5es que chegam a 125,4 decib\u00e9is. Para efeito de compara\u00e7\u00e3o, esse volume \u00e9 pr\u00f3ximo ao de estar ao lado da caixa de som de um show de rock e supera com folga o ru\u00eddo de uma motosserra em funcionamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fen\u00f4meno intriga ornit\u00f3logos h\u00e1 anos, n\u00e3o apenas pela intensidade do som, mas pelo contexto em que ele acontece. O canto mais alto da araponga n\u00e3o \u00e9 usado para se comunicar \u00e0 dist\u00e2ncia, como seria esperado biologicamente. Ele \u00e9 reservado justamente para o momento em que um macho est\u00e1 a cent\u00edmetros de uma f\u00eamea, num comportamento que os pr\u00f3prios pesquisadores descrevem como contraintuitivo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um recorde medido com rigor cient\u00edfico<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A descoberta que consolidou a araponga como campe\u00e3 mundial de volume veio de uma pesquisa conduzida por Jeffrey Podos, bi\u00f3logo da Universidade de Massachusetts Amherst, em parceria com Mario Cohn-Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa). O estudo, publicado na revista cient\u00edfica <em>Current Biology<\/em> em outubro de 2019, usou equipamentos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o para medir a press\u00e3o sonora dos cantos em campo, algo tecnicamente dif\u00edcil de fazer com precis\u00e3o em ambiente selvagem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"O canto da Araponga\" width=\"740\" height=\"416\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qO3lxNW2OmQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes da araponga, o t\u00edtulo de ave mais barulhenta pertencia \u00e0 uirapuru-de-chor\u00e3o, tamb\u00e9m conhecida internacionalmente como screaming piha, outra esp\u00e9cie amaz\u00f4nica capaz de atingir cerca de 116 decib\u00e9is. A diferen\u00e7a entre as duas pode parecer pequena em n\u00fameros absolutos, mas a escala de decib\u00e9is \u00e9 logar\u00edtmica. Isso significa que os 125,4 decib\u00e9is da araponga representam uma press\u00e3o sonora cerca de tr\u00eas vezes maior do que a registrada na piha, tornando a dist\u00e2ncia real entre as duas esp\u00e9cies muito mais significativa do que os n\u00fameros sugerem \u00e0 primeira vista.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O segredo est\u00e1 na anatomia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que intrigou os pesquisadores desde o in\u00edcio foi entender como um p\u00e1ssaro relativamente pequeno, com pouco mais de 28 cent\u00edmetros de comprimento e cerca de 250 gramas, consegue produzir um som dessa magnitude. A resposta apareceu durante a disseca\u00e7\u00e3o de um esp\u00e9cime, quando Cohn-Haft notou uma musculatura abdominal extremamente desenvolvida, muito mais robusta do que a de outras aves de tamanho semelhante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa musculatura funciona como um verdadeiro motor de compress\u00e3o de ar. Assim como um cantor l\u00edrico treinado usa o diafragma para sustentar notas potentes, a araponga conta com tecidos abdominais at\u00e9 cinco vezes mais espessos que os de aves compar\u00e1veis, permitindo controlar com precis\u00e3o o fluxo de ar que passa pela siringe, o \u00f3rg\u00e3o vocal das aves. Essa estrutura funciona como um fole refor\u00e7ado, capaz de sustentar picos de press\u00e3o sonora muito acima do que o corpo de um p\u00e1ssaro comum suportaria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda um detalhe curioso descoberto pelos cientistas: quanto mais alto o grito, mais curta \u00e9 sua dura\u00e7\u00e3o. Esse padr\u00e3o sugere que existe um limite fisiol\u00f3gico real para a araponga, um ponto em que o sistema respirat\u00f3rio simplesmente n\u00e3o consegue sustentar tamanha press\u00e3o sonora por mais tempo. O canto mais estridente da esp\u00e9cie funciona, portanto, como uma explos\u00e3o vocal breve e calculada, e n\u00e3o como um grito cont\u00ednuo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O paradoxo do acasalamento<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O comportamento observado durante o per\u00edodo reprodutivo \u00e9 o que mais desafia a l\u00f3gica esperada na natureza. Normalmente, sons de alta intensidade evoluem para comunica\u00e7\u00e3o \u00e0 longa dist\u00e2ncia, permitindo que um animal seja ouvido mesmo em ambientes com muita vegeta\u00e7\u00e3o ou ru\u00eddo de fundo. A araponga inverte essa regra por completo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante as expedi\u00e7\u00f5es de campo, os pesquisadores observaram que os machos se posicionam em poleiros de exibi\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m chamados de perchas de canto, e esperam a aproxima\u00e7\u00e3o de uma f\u00eamea interessada. \u00c9 exatamente quando ela se aproxima, muitas vezes a menos de um metro de dist\u00e2ncia, que o macho solta seu grito mais potente, o mesmo que ultrapassa os 125 decib\u00e9is. Isso significa que a f\u00eamea escolhe se expor voluntariamente ao som mais intenso j\u00e1 registrado entre as aves, numa dist\u00e2ncia em que o impacto sonoro \u00e9 m\u00e1ximo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os cientistas ainda n\u00e3o t\u00eam certeza do motivo por tr\u00e1s desse comportamento. Uma das hip\u00f3teses \u00e9 que as f\u00eameas usam a proximidade para avaliar a real capacidade f\u00edsica do macho, j\u00e1 que sustentar um grito daquela intensidade exige boa condi\u00e7\u00e3o corporal e desenvolvimento muscular apurado, funcionando como um indicador honesto de qualidade gen\u00e9tica. Outra possibilidade \u00e9 que a exposi\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima ao som funcione como um teste de resist\u00eancia, embora ainda n\u00e3o esteja claro se esse comportamento causa algum dano auditivo tempor\u00e1rio \u00e0s f\u00eameas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um som que atravessa a floresta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A intensidade do canto da araponga-da-amaz\u00f4nia tem um efeito pr\u00e1tico not\u00e1vel na floresta em que ela vive. Pesquisadores e observadores de aves relatam ser poss\u00edvel ouvir o grito da esp\u00e9cie a mais de um quil\u00f4metro de dist\u00e2ncia, mesmo em meio \u00e0 densa vegeta\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica, que normalmente absorve e dispersa boa parte dos sons produzidos por outros animais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse alcance sonoro coloca a araponga numa posi\u00e7\u00e3o peculiar dentro do ecossistema. Diferentemente da maioria das aves que dependem de cores vistosas ou dan\u00e7as elaboradas para se destacar, essa esp\u00e9cie construiu sua estrat\u00e9gia reprodutiva inteiramente em torno do som. A araponga vive nas copas altas e de dif\u00edcil acesso das florestas montanhosas do norte do Brasil, nas Guianas e em parte da Venezuela, um habitat onde a visibilidade \u00e9 limitada e o som se torna a ferramenta de comunica\u00e7\u00e3o mais eficiente dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale registrar que o g\u00eanero Procnias re\u00fane outras esp\u00e9cies de arapongas encontradas em diferentes biomas brasileiros, como a araponga-do-nordeste e a araponga-comum, essa \u00faltima t\u00edpica da Mata Atl\u00e2ntica e conhecida popularmente como voz da floresta por seu canto met\u00e1lico caracter\u00edstico, que lembra o som de um ferreiro batendo numa bigorna. Nenhuma delas, por\u00e9m, se aproxima do volume registrado pela prima amaz\u00f4nica, que segue isolada no topo do ranking mundial de intensidade sonora entre as aves.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores comprovaram que a araponga-da-amaz\u00f4nia det\u00e9m o recorde de canto mais alto entre todas as aves do mundo, um fen\u00f4meno que intriga cientistas at\u00e9 hoje<\/p>\n","protected":false},"author":990033,"featured_media":54165,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[706],"tags":[],"ppma_author":[710],"class_list":["post-54163","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fauna-vida-silvestre","author-suzanamachado"],"authors":[{"term_id":710,"user_id":990033,"is_guest":0,"slug":"suzanamachado","display_name":"Suzana Machado","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/34744d3f8b3d8a95e0f9e2e4eb3bd970696971266240a79032684ab62a41bbaf?s=96&d=mm&r=g","author_category":"","first_name":"Suzana","last_name":"Machado","user_url":"","job_title":"","description":"M\u00e3e, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. 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No Ellas Magazine, Suzana transforma sua viv\u00eancia em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990033"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54163"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54163\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54166,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54163\/revisions\/54166"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54165"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54163"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=54163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}