{"id":54188,"date":"2026-08-13T16:17:12","date_gmt":"2026-08-13T19:17:12","guid":{"rendered":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/?p=54188"},"modified":"2026-08-13T16:17:12","modified_gmt":"2026-08-13T19:17:12","slug":"bacuri-polinizacao-periquitos-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/bacuri-polinizacao-periquitos-amazonia\/","title":{"rendered":"A fruta amaz\u00f4nica que s\u00f3 nasce gra\u00e7as a um bando de periquitos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por d\u00e9cadas, moradores da regi\u00e3o de Tracuateua, no Par\u00e1, repetiram uma cren\u00e7a sobre o bacurizeiro: a de que a queda das flores era causada pelos periquitos que pousavam nos galhos durante a flora\u00e7\u00e3o. Pesquisadores da Embrapa decidiram observar o fen\u00f4meno de perto e descobriram algo diferente. Os p\u00e1ssaros n\u00e3o derrubam as flores. Eles s\u00e3o, na verdade, a pe\u00e7a que garante a exist\u00eancia da pr\u00f3pria fruta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo, conduzido em \u00e1rvores de Bel\u00e9m e Tracuateua durante os anos 1990, acompanhou o comportamento de visitantes diurnos e noturnos ao longo de ciclos completos de 24 horas, com bin\u00f3culos convencionais e equipamento sens\u00edvel a infravermelho. O resultado revisou uma hip\u00f3tese antiga: contrariando a cren\u00e7a popular de que morcegos participariam da poliniza\u00e7\u00e3o, os cientistas comprovaram que a flor do bacuri perde a receptividade ainda no fim da tarde, por volta das 18h, quando p\u00e9talas e anteras j\u00e1 come\u00e7am a se soltar. N\u00e3o h\u00e1 atividade floral noturna relevante, e nenhuma visita de morcego foi registrada mesmo com os animais presentes na \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma s\u00edndrome de poliniza\u00e7\u00e3o pouco comum<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A flor do bacurizeiro abre ao amanhecer e produz n\u00e9ctar em grande volume, e p\u00f3len abundante e viscoso, caracter\u00edsticas t\u00edpicas de plantas que evolu\u00edram para atrair aves, n\u00e3o insetos. Entre os visitantes diurnos, os pesquisadores identificaram tr\u00eas grupos com pap\u00e9is bem diferentes. Vespas e abelhas sem ferr\u00e3o visitam a flor o dia inteiro, mas apenas roubam n\u00e9ctar e resina pelo lado externo da p\u00e9tala, sem tocar nos \u00f3rg\u00e3os reprodutivos. P\u00e1ssaros como o sanha\u00e7o-azul e o japiim-xex\u00e9u se alimentam de n\u00e9ctar e ocasionalmente ajudam na poliniza\u00e7\u00e3o. Mas os verdadeiros respons\u00e1veis pela reprodu\u00e7\u00e3o da planta s\u00e3o os periquitos e papagaios, como a marianinha-de-cabe\u00e7a-amarela e o periquito-da-asa-dourada, que chegam em bandos logo ap\u00f3s o amanhecer, encostam a testa diretamente nas anteras ao se alimentar de p\u00f3len e carregam os gr\u00e3os para outras \u00e1rvores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa constata\u00e7\u00e3o teve peso cient\u00edfico al\u00e9m do bacuri. At\u00e9 aquele estudo, n\u00e3o havia registro documentado de psitac\u00eddeos atuando como polinizadores eficazes em plantas da regi\u00e3o Neotropical. O fen\u00f4meno j\u00e1 era conhecido em esp\u00e9cies da Austr\u00e1lia, mas nunca havia sido descrito com esse n\u00edvel de detalhe nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O gargalo que trava a domestica\u00e7\u00e3o da fruta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa depend\u00eancia de um polinizador espec\u00edfico ajuda a explicar um problema comercial conhecido de quem trabalha com bacuri: a baix\u00edssima propor\u00e7\u00e3o de frutos formados em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de flores que a \u00e1rvore produz. O bacurizeiro tamb\u00e9m \u00e9 autoincompat\u00edvel, o que significa que uma \u00e1rvore n\u00e3o consegue frutificar com o pr\u00f3prio p\u00f3len. Ela precisa necessariamente receber p\u00f3len de outro indiv\u00edduo geneticamente distinto, e \u00e9 a\u00ed que entra a import\u00e2ncia dos periquitos: como voam em bandos e cobrem grandes dist\u00e2ncias, eles conseguem promover a troca gen\u00e9tica entre \u00e1rvores espalhadas, algo que um inseto de raio de a\u00e7\u00e3o curto dificilmente faria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que a maior parte do bacuri comercializado no Brasil ainda vem do extrativismo em popula\u00e7\u00f5es nativas, n\u00e3o de plantios organizados. Isso deixa a produ\u00e7\u00e3o da fruta presa a um equil\u00edbrio fr\u00e1gil: sem floresta de p\u00e9 para abrigar os bandos de psitac\u00eddeos, sem fragmenta\u00e7\u00e3o excessiva das \u00e1reas de ocorr\u00eancia natural, a poliniza\u00e7\u00e3o eficiente simplesmente n\u00e3o acontece. A fruta amaz\u00f4nica, nesse sentido, entra numa discuss\u00e3o que hoje \u00e9 global. Boa parte da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola mundial depende de polinizadores animais, e a perda de habitat tem reduzido essas popula\u00e7\u00f5es em v\u00e1rias regi\u00f5es do planeta. No caso do bacuri, o polinizador n\u00e3o \u00e9 uma abelha amea\u00e7ada, mas um bando de periquitos que precisa de floresta cont\u00ednua para sobreviver e cumprir sua fun\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que isso significa para o futuro da fruta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entender essa depend\u00eancia muda a forma como programas de manejo e domestica\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie podem avan\u00e7ar. Plantios comerciais que ignorem a necessidade de diversidade gen\u00e9tica entre \u00e1rvores, ou que se instalem isolados de fragmentos florestais capazes de sustentar bandos de psitac\u00eddeos, tendem a repetir o mesmo gargalo observado nas popula\u00e7\u00f5es nativas: muita flor, pouco fruto. A conserva\u00e7\u00e3o da floresta ao redor das planta\u00e7\u00f5es deixa de ser apenas uma pauta ambiental e passa a ser, tamb\u00e9m, uma condi\u00e7\u00e3o produtiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa da Embrapa identificou que psitac\u00eddeos, e n\u00e3o morcegos ou abelhas, s\u00e3o os respons\u00e1veis por garantir a reprodu\u00e7\u00e3o do bacurizeiro na Amaz\u00f4nia<\/p>\n","protected":false},"author":990033,"featured_media":54189,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[705],"tags":[],"ppma_author":[710],"class_list":["post-54188","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo-botanico-ciencia","author-suzanamachado"],"authors":[{"term_id":710,"user_id":990033,"is_guest":0,"slug":"suzanamachado","display_name":"Suzana Machado","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/34744d3f8b3d8a95e0f9e2e4eb3bd970696971266240a79032684ab62a41bbaf?s=96&d=mm&r=g","author_category":"","first_name":"Suzana","last_name":"Machado","user_url":"","job_title":"","description":"M\u00e3e, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. 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No Ellas Magazine, Suzana transforma sua viv\u00eancia em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54188","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990033"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54188"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54188\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54190,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54188\/revisions\/54190"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54189"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54188"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54188"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54188"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=54188"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}