{"id":54296,"date":"2026-08-24T11:45:48","date_gmt":"2026-08-24T14:45:48","guid":{"rendered":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/?p=54296"},"modified":"2026-08-24T11:45:49","modified_gmt":"2026-08-24T14:45:49","slug":"mama-cadela-fruta-cerrado-vitamina-a","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/mama-cadela-fruta-cerrado-vitamina-a\/","title":{"rendered":"Cientistas encontram numa fruta chamada &#8220;chicletinho&#8221; o que faltava na dieta brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma fruta do tamanho de uma pitanga, colhida por pequenos produtores do Cerrado, entrega em seis unidades mais vitamina A do que muita gente consome numa refei\u00e7\u00e3o inteira. O dado chamou a aten\u00e7\u00e3o de pesquisadoras da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (UFU) e da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), que decidiram investigar a fundo um fruto conhecido havia d\u00e9cadas pelas comunidades locais, mas praticamente ausente da ci\u00eancia da nutri\u00e7\u00e3o at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s: a mama-cadela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mama-cadela (Brosimum gaudichaudii) tem casca amarelada a alaranjada, polpa doce e fibrosa e cerca de dois cent\u00edmetros de di\u00e2metro. O apelido popular, &#8220;chicletinho do Cerrado&#8221;, vem justamente da textura da polpa. Ocorre naturalmente em Goi\u00e1s, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia, S\u00e3o Paulo e Paran\u00e1, sempre associada a comunidades que j\u00e1 conheciam seu valor muito antes de qualquer laborat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A lacuna cient\u00edfica foi o que motivou o estudo conduzido na Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas da USP, que identificou uma composi\u00e7\u00e3o rica em carotenoides, compostos bioativos e fibras. Uma por\u00e7\u00e3o de seis frutos cobre mais de 60% da recomenda\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de vitamina A, patamar pr\u00f3ximo ao da cenoura. Uma pesquisa mais recente, publicada no Journal of the Brazilian Chemical Society, avan\u00e7ou ainda mais nesse mapeamento: cem gramas do fruto bastam para suprir praticamente toda a necessidade di\u00e1ria de vitamina C e cerca de 80% da necessidade de vitamina A, al\u00e9m de um teor de prote\u00edna superior ao de outras frutas nativas compar\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro levantamento, conduzido pela pr\u00f3pria UFU e publicado na revista Demetra, detalhou o perfil f\u00edsico-qu\u00edmico da fruta: cerca de 65 quilocalorias a cada 100 gramas, mais de 5% de fibra alimentar e atividade antioxidante pr\u00f3xima de 29%. Para efeito de compara\u00e7\u00e3o, esse teor de fibra coloca a mama-cadela em posi\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de frutas j\u00e1 consolidadas no mercado nacional, com a vantagem de uma densidade cal\u00f3rica baixa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que a fruta segue fora do prato do brasileiro<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O padr\u00e3o alimentar do pa\u00eds ajuda a explicar essa aus\u00eancia. O consumo de ultraprocessados avan\u00e7a enquanto o de frutas e vegetais in natura recua, tend\u00eancia que preocupa a sa\u00fade p\u00fablica e que, segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, j\u00e1 foi associada a mais da metade das mortes registradas no Brasil por doen\u00e7as cr\u00f4nicas. Diversificar o card\u00e1pio com esp\u00e9cies nativas \u00e9 apontado por pesquisadoras da \u00e1rea como um caminho concreto para reverter esse quadro, n\u00e3o apenas um gesto simb\u00f3lico de valoriza\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa monotonia alimentar tamb\u00e9m atinge quem produz. Pequenos agricultores que cultivam ou coletam a mama-cadela enfrentam dificuldade para escoar a produ\u00e7\u00e3o, porque o mercado consolidado ainda gira em torno de um n\u00famero limitado de frutas. A aus\u00eancia de pol\u00edticas de incentivo \u00e0 biodiversidade alimentar empurra o produtor para culturas tradicionais, mesmo quando a fruta nativa tem apelo nutricional superior.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O uso tradicional que exige cuidado<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do fruto, partes da planta como raiz, casca e folhas t\u00eam hist\u00f3rico de uso medicinal em comunidades do Cerrado, sobretudo por conta de compostos chamados psoralenos e bergaptenos, associados historicamente ao tratamento de manchas de pele. Esse uso, por\u00e9m, \u00e9 delicado: a aplica\u00e7\u00e3o inadequada pode causar les\u00f5es graves, e por isso n\u00e3o deve ser feita sem orienta\u00e7\u00e3o profissional. Justamente por essa sensibilidade, o interesse extrativista sobre a raiz da planta acabou se tornando uma amea\u00e7a \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie em algumas regi\u00f5es, o que levou pesquisadores a testar t\u00e9cnicas de propaga\u00e7\u00e3o da mama-cadela em laborat\u00f3rio, com uso de luz LED, como alternativa para reduzir a press\u00e3o sobre popula\u00e7\u00f5es silvestres. A ci\u00eancia recente, por isso, tem concentrado esfor\u00e7os no fruto e no seu potencial alimentar seguro, deixando o uso da raiz restrito ao conhecimento tradicional e \u00e0 pesquisa farmacol\u00f3gica controlada.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que pode mudar esse cen\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reconhecer o valor nutricional da mama-cadela \u00e9 descrito por quem estuda o tema como o primeiro passo para reposicionar a fruta como alimento relevante outra vez. Parte desse esfor\u00e7o est\u00e1 reunida na Tabela de Composi\u00e7\u00e3o de Alimentos Regionais e da Biodiversidade Brasileira, iniciativa que cataloga esp\u00e9cies nativas pouco documentadas e abre caminho para que elas cheguem a pol\u00edticas p\u00fablicas de incentivo, feiras locais e, eventualmente, prateleiras de mercado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso n\u00e3o acontece em escala nacional, a mama-cadela segue como um s\u00edmbolo de um Cerrado que oferece muito mais do que o pa\u00eds aproveita: um bioma com esp\u00e9cies capazes de competir, em n\u00fameros, com frutas j\u00e1 consagradas, mas que dependem de reconhecimento cient\u00edfico e de mercado para deixar de ser exce\u00e7\u00e3o e passar a fazer parte da mesa do brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudos da UFU e da USP mostram que o fruto nativo concentra vitamina A, fibras e antioxidantes em quantidade compar\u00e1vel \u00e0 de alimentos consolidados, mas continua ausente da rotina alimentar do pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"author":990033,"featured_media":54297,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false,"_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[705],"tags":[],"ppma_author":[710],"class_list":["post-54296","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo-botanico-ciencia","author-suzanamachado"],"authors":[{"term_id":710,"user_id":990033,"is_guest":0,"slug":"suzanamachado","display_name":"Suzana Machado","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/34744d3f8b3d8a95e0f9e2e4eb3bd970696971266240a79032684ab62a41bbaf?s=96&d=mm&r=g","author_category":"","first_name":"Suzana","last_name":"Machado","user_url":"","job_title":"","description":"M\u00e3e, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. 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No Ellas Magazine, Suzana transforma sua viv\u00eancia em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza."}],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/mama-cadela-Frutos-Atrativos-do-Cerrado-flickr.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54296","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990033"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54296"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54296\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54298,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54296\/revisions\/54298"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54297"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54296"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54296"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54296"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=54296"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}