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O “Mapa do Instagram” expôs onde você mora e a empresa chama isso de acidente

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instagram - O "Mapa do Instagram" expôs onde você mora e a empresa chama isso de acidente

Você abriu o Instagram essa semana, rolou o feed normalmente, talvez nem tenha percebido nada diferente. Mas enquanto você curtia fotos e assistia Reels, uma funcionalidade bem polêmica estava rodando por aí: o Mapa do Instagram, ferramenta que compartilha a localização em tempo real dos usuários. Sim, em tempo real. Onde você está agora, nesse exato momento.

A Meta afirma que foi um acidente. Que a ferramenta foi liberada por engano no Brasil e já foi desativada. Mas esse “engano” está custando caro para a empresa, que agora enfrenta pedidos formais de investigação e uma pressão enorme de entidades e políticos brasileiros.

O que era o Mapa do Instagram e como funcionava

A funcionalidade ficou disponível na última quarta-feira e, aparentemente, era opcional. No primeiro acesso, o usuário podia escolher com quem compartilhar sua localização: seguidores mútuos, a lista de melhores amigos, um grupo personalizado ou ninguém. Parece simples, certo?

O problema estava no detalhe que quase ninguém leu. Uma vez ativado, o compartilhamento de localização ficava ligado indefinidamente, até que o usuário cancelasse manualmente. E na hora de desativar, o app perguntava por quanto tempo você queria “pausar” o recurso. Depois desse prazo, tudo voltava automaticamente, a menos que você escolhesse a opção “até você ativar novamente”, escondida lá no final da lista.

Desligar o GPS do celular também não resolvia. A localização continuava sendo compartilhada de alguma forma. Soa familiar? Esse tipo de design tem nome técnico: dark patterns, interfaces propositalmente confusas que empurram o usuário para decisões que ele não tomaria conscientemente.

A ONG e a deputada que foram à luta

A ONG Ctrl+Z não ficou parada. Na última sexta-feira, a entidade encaminhou um pedido formal de investigação contra a Meta ao Ministério da Justiça, apontando que o design da ferramenta induz o usuário a aceitar o compartilhamento de dados de localização sem clareza real sobre o que está sendo consentido.

Um dia antes, na quinta-feira, a deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) já havia solicitado ao Ministério Público a suspensão imediata do recurso. Nas redes sociais, ela foi direta: “Um menu confuso induz o usuário a aceitar o compartilhamento em tempo real da própria localização, e desabilitar o GPS do celular nem adianta.”

A Ctrl+Z vai além na argumentação e afirma que o argumento do “foi acidente” não livra a Meta de responsabilidade. Segundo a ONG, o episódio revela falhas estruturais de governança e possível negligência na proteção de dados pessoais. A entidade quer saber quem autorizou o lançamento, quantos usuários ativaram a função e, principalmente, quantas crianças e adolescentes estiveram expostos à ferramenta.

Luã Cruz, diretor de litigância da Ctrl+Z, foi claro no comunicado da organização: “São perguntas que as autoridades devem fazer e que esperamos que sejam respondidas.”

Isso já aconteceu antes e não foi bonito

A ferramenta não é novidade. O Mapa do Instagram já havia sido lançado nos Estados Unidos no ano passado e, na época, gerou uma reação imediata: procuradores-gerais de 37 estados americanos assinaram uma carta ao chefe do Instagram, Adam Mosseri, expressando preocupações sérias sobre segurança e privacidade.

A Ctrl+Z lembra ainda que o recurso é praticamente uma cópia do Snap Map, do Snapchat, uma funcionalidade que acumula registros de casos envolvendo stalking, perseguição, violência doméstica e monitoramento de ex-parceiros. Ou seja, a Meta lançou no Brasil uma ferramenta cuja versão espelhada já causou dano documentado em outra plataforma.

O documento enviado à Senacon e à Secretaria Nacional de Direitos Digitais é contundente: “A Meta escolheu expandir uma funcionalidade de vigilância sabendo dos riscos concretos que ela representa. Essa conduta revela intencionalidade deliberada.”

O que a Meta respondeu

A empresa confirmou o erro em nota oficial e garantiu que a funcionalidade foi desativada: “O Mapa do Instagram não está atualmente disponível nesta região. A funcionalidade ficou acidentalmente acessível e já foi desligada. Usuários no Brasil não podem mais acessar ou compartilhar sua localização no Mapa do Instagram.”

As leis que podem estar em jogo

A Ctrl+Z listou uma série de legislações que, na visão da organização, foram violadas pela conduta da Meta: a Constituição Federal, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), o Marco Civil da Internet, o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto da Criança e do Adolescente e o ECA Digital.

A ONG também bateu na tecla do modelo de negócios da plataforma: mesmo sendo gratuito, o Instagram gera receita indireta para a empresa por meio dos dados dos usuários, o que configura uma relação de consumo protegida pelo CDC.

Você usa o Instagram sem pagar nada, mas o produto, nessa equação, é você.

Por que isso importa para qualquer pessoa com um smartphone

Compartilhar localização em tempo real em uma rede social com mais de dois bilhões de usuários ativos não é uma funcionalidade neutra. Para mulheres em situação de violência doméstica, para adolescentes que não têm maturidade para entender o risco, para qualquer pessoa que já teve um stalker ou um relacionamento abusivo, essa ferramenta é uma ameaça concreta.

O fato de ter sido “desativada” não apaga a janela de tempo em que esteve ativa. E não responde a pergunta mais importante: quantas pessoas já foram monitoradas sem saber direito o que estavam aceitando?

A investigação pedida ao Ministério da Justiça pode mudar o tom dessa história. Ou pode virar mais uma notícia esquecida na semana que vem. Você decide se fica de olho ou não, mas pelo menos agora você sabe que o Instagram também estava de olho em você.

Informações: oglobo