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Tecnologia

Pesquisadores brasileiros criaram uma IA que detecta ansiedade pelo seu smartwatch com 80% de precisão

Cientistas da Unicamp desenvolveram um software de inteligência artificial capaz de identificar estados de ansiedade em tempo real por meio de smartwatches, com precisão superior a 80%. Entenda como funciona e o que isso muda para a saúde mental.

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Aquele relógio no seu pulso pode estar prestes a saber mais sobre o seu estado emocional do que você mesma. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um software de inteligência artificial capaz de identificar estados de ansiedade com mais de 80% de precisão a partir de sinais corporais captados por smartwatches.

A tecnologia foi apresentada durante a FAPESP Week Londres, evento científico realizado em junho na capital britânica, e coloca o Brasil no centro de uma das discussões mais relevantes da saúde contemporânea: como a tecnologia pode nos ajudar a cuidar da mente antes que o problema se instale.

A pesquisa brasileira que está surpreendendo o mundo

O projeto nasceu dentro do Viva Bem, um Centro de Pesquisa Aplicada financiado pela FAPESP e pela Samsung na Unicamp. A coordenação é de Anderson Rocha, professor e pesquisador da universidade, que apresentou os resultados do trabalho ao público internacional em Londres.

A proposta é direta: usar os dados que o seu relógio inteligente já coleta diariamente para identificar padrões que indicam ansiedade e estresse. Dois tipos de sinais são especialmente relevantes nesse processo. O primeiro é o eletrocardiograma, que registra a atividade elétrica do coração. O segundo é a acelerometria, que mapeia os movimentos do braço ao longo do dia. Juntos, esses dados formam o que os pesquisadores chamam de “assinatura de dados” do usuário, um padrão individual que a IA aprende a reconhecer e monitorar continuamente.

“Desenvolvemos uma técnica inicial, que já foi publicada, e agora estamos aprimorando uma nova, que está em avaliação pela Samsung”, contou Anderson Rocha à Agência FAPESP.

Como os algoritmos aprendem a identificar a ansiedade

Ensinar uma inteligência artificial a reconhecer ansiedade exige mais do que dados. É preciso criar situações reais de estresse para que os algoritmos entendam como o corpo responde. A equipe do Viva Bem desenvolveu protocolos clínicos controlados para isso.

Em um dos testes, os participantes recebem a tarefa de calcular mentalmente, em 30 segundos, o resultado de multiplicações complexas, como 309 por 17, enquanto assistem a uma contagem regressiva no próprio relógio. Parece simples, mas o efeito é imediato. “Inevitavelmente as pessoas ficam ansiosas nessa situação. Medimos como o corpo delas está respondendo a esse exercício e treinamos os algoritmos para identificar isso”, explica Rocha.

Você já imaginou seu corpo enviando sinais de alerta antes que sua cabeça perceba o que está acontecendo? É exatamente isso que a tecnologia monitora, em tempo real, sem nenhuma ação da sua parte.

O smartwatch como ferramenta de alerta, não de diagnóstico

Aqui é importante ser precisa: a tecnologia desenvolvida na Unicamp funciona como uma sentinela silenciosa, e não como substituta de médicos ou psicólogos. A proposta do projeto é oferecer uma camada de monitoramento proativo de saúde mental. Se o relógio detectar episódios ansiosos recorrentes, enviará um alerta recomendando que o usuário consulte um especialista.

“A ideia não é fazer o diagnóstico, mas ser uma ferramenta de alerta”, ressalta Anderson Rocha. Essa mesma lógica se aplica a outras condições que o projeto já monitora, como hipertensão, diabetes, Parkinson e risco de quedas em idosos. A inteligência artificial age como um aviso antecipado. A decisão do que fazer com essa informação pertence ao usuário.

O objetivo declarado da pesquisa é ambicioso, mas fundamentado: “com os sinais captados pelos smartwatches, conseguir identificar os primeiros sintomas de diferentes condições de saúde, de modo que possamos ajudar as pessoas a terem uma melhor qualidade de vida”, afirma Rocha.

Quando essa tecnologia chega para o público?

Os resultados ainda estão em fase de avaliação e aprimoramento contínuo. Quando a equipe considerar a tecnologia madura o suficiente, será solicitada autorização à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para testes com usuários reais. A parceria com a Samsung, responsável pelo hardware dos dispositivos, sugere que o caminho para a escala comercial já está sendo construído em paralelo com a pesquisa.

Além do monitoramento de ansiedade, o mesmo grupo de pesquisadores trabalha no projeto Horus, voltado para a detecção de deepfakes, desinformação digital e falsificações em publicações científicas. Uma das ferramentas desenvolvidas pelo laboratório já está em uso pelo Escritório de Integridade Científica do governo dos Estados Unidos. Outras já foram utilizadas por agências de checagem como Lupa, Aos Fatos e G1 para verificar registros visuais de conflitos internacionais.

Para Rocha, saúde e combate à desinformação partem do mesmo princípio. “A IA centrada no ser humano é fundamental para fortalecer a resiliência e o bem-estar”, afirma o pesquisador.

Fonte: Elton Alisson, de Londres | Agência FAPESP

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