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Seu filho é “difícil” na escola ou só está entediado demais? A ciência explica altas habilidades

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A criança que termina a prova antes de todo mundo e sai andando pela sala. O aluno que questiona o professor até o limite da paciência. A menina que prefere ler sozinha no canto a participar da brincadeira em grupo.

Esses comportamentos ganham rótulos rápidos: indisciplinado, disperso, arrogante, antissocial. Mas em muitos casos eles são sinais de altas habilidades, e a escola brasileira ainda não sabe lidar com isso.

O que são altas habilidades, afinal

Altas habilidades e superdotação (o termo técnico completo é AH/SD) descrevem crianças e adolescentes com potencial ou desempenho muito acima da média em uma ou mais áreas: raciocínio lógico, linguagem, artes, liderança, criatividade. A confusão começa aqui. Muita gente ainda imagina o estereótipo do “gênio” que tira nota máxima em tudo. A realidade é outra. Existem diferentes tipos de inteligência, e uma criança pode ser excepcional em matemática e ter dificuldade motora, ou dominar debates complexos e não conseguir organizar o material escolar. Essa heterogeneidade é justamente o que torna a identificação tão difícil dentro da sala de aula.

Por que o comportamento é lido do jeito errado

O ambiente escolar tradicional foi pensado para um ritmo médio de aprendizagem. Quando uma criança processa informação muito mais rápido que os colegas, o tédio aparece cedo. E tédio, em criança, raramente se manifesta como silêncio. Vira levantar da cadeira, questionar a autoridade do professor, terminar a atividade e sair inventando outra coisa, discutir regras que parecem sem sentido. A escola, sem formação para reconhecer esse padrão, interpreta como falta de limite. O resultado é uma criança repreendida justamente pelo motivo que deveria ser estimulado: o excesso de capacidade.

Há ainda um contraponto importante. Parte dessas crianças convive com a chamada dupla excepcionalidade: altas habilidades somadas a TDAH, dislexia ou dificuldades sociais, por exemplo. Isso complica ainda mais o diagnóstico, porque o traço de dificuldade acaba mascarando o de potencial, e vice-versa. Uma criança pode ser vista como “só desatenta” quando, na verdade, está entediada por já dominar o conteúdo, ou pode ser vista como “só inteligente” quando também precisa de suporte emocional específico.

A lei existe, mas a prática ainda engatinha

O Brasil regulamentou o atendimento a estudantes com altas habilidades há mais de uma década. A LDB, alterada em 2013, garante atendimento educacional especializado gratuito a esse público. Em 2015, uma nova lei tornou obrigatória a identificação e o cadastro desses alunos nas redes de ensino. Na prática, famílias relatam um cenário bem diferente do previsto no papel. A obrigação vale apenas para escolas públicas, e mesmo nelas a aplicação varia enormemente de região para região. Muitas cidades não têm núcleos de atendimento estruturados, e cursos de pedagogia ainda dedicam pouquíssima carga horária ao tema. O professor chega à sala de aula sem ferramentas para diferenciar impaciência de superdotação.

O peso emocional que fica invisível

Existe uma ideia equivocada de que criança com altas habilidades tem vida fácil. É o oposto do que costuma acontecer. A sensação de não se encaixar entre os colegas da mesma idade gera isolamento. A criança percebe que pensa diferente, mas não tem repertório emocional para lidar com isso sozinha. Frustração, ansiedade e até sintomas de adoecimento psicológico aparecem com frequência maior nesse grupo, justamente porque o ambiente ao redor não valida o que ela sente. Pais relatam trocar a criança de escola diversas vezes até encontrar um espaço em que ela consiga aprender e conviver sem se sentir constantemente fora do lugar.

O que muda quando a escola olha para o potencial certo

Especialistas em educação especial defendem um caminho conjunto entre escola, família e, quando necessário, acompanhamento clínico. Enriquecimento curricular, flexibilização de conteúdo e formação continuada de professores aparecem como as estratégias mais eficazes para reduzir conflitos e evitar que o talento seja sufocado em vez de desenvolvido. Quando a criança encontra um ambiente que reconhece sua forma de aprender, o comportamento “difícil” tende a diminuir naturalmente, porque a causa raiz, o descompasso entre ritmo de aprendizagem e proposta pedagógica, deixa de existir.

Identificar altas habilidades cedo muda a trajetória escolar inteira. E o primeiro passo é simples: antes de rotular, observar o que está por trás do comportamento.

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