Moda
Sua calça jeans gasta 75 litros de água pra ficar azul, e isso está prestes a acabar

Você já parou pra pensar no que custa aquele azulzinho clássico da sua calça favorita? Pois é. Tingir uma única peça de jeans consome, em média, 75 litros de água e uma quantidade generosa de produtos químicos industriais. É praticamente um banho de banheira só para dar cor a um tecido. E a conta ambiental disso é alta.
Existe uma novidade rondando os bastidores da moda que promete virar esse jogo de cabeça pra baixo. Uma startup chamada Wtrlss desenvolveu uma tecnologia de impressão digital capaz de reproduzir o mesmo azul-jeans que a gente conhece usando o equivalente a duas colheres de sopa de água. Sim, você leu certo. De 75 litros para duas colheres.
O que muda na forma de tingir o jeans
O processo tradicional de dar cor ao jeans é uma sequência longa e nada sutil. O fio de algodão passa por banhos de tingimento, onde o índigo, geralmente sua versão sintética, é alterado quimicamente para conseguir grudar nas fibras. Depois vem a etapa de desbotar o tecido propositalmente, com alvejantes e lasers, pra criar aquele efeito usado que todo mundo ama nas prateleiras.

É trabalhoso, é caro e é sujo. Boa parte da produção mundial de jeans acontece em regiões com legislação ambiental mais frouxa, justamente para dar conta do volume de resíduos gerado.
A tecnologia da Wtrlss, desenvolvida pelo cientista suíço Mickaël Mheidle, cofundador da empresa, inverte a lógica inteira. Em vez de começar com um tecido escuro e depois desbotar, a cor certa já é aplicada de forma calculada, numa única etapa, por meio de impressoras industriais a jato de tinta. Uma bioquímica desenvolvida especificamente para esse fim faz a cor penetrar na fibra do jeito que o designer quiser, controlando profundidade e intensidade do tom. O acabamento final, incluindo aquele toque característico do tecido, também acontece dentro da mesma máquina. O tecido entra de um lado, sai colorido do outro, pronto para corte e costura.
Menos água, menos produtos químicos, mais rapidez
O impacto ambiental dessa mudança é enorme. A redução no consumo de água chega a 99,99%, já que a única água usada no processo fica retida no próprio corante. Isso significa que a produção pode acontecer em qualquer lugar, inclusive perto dos grandes centros consumidores, sem depender de regiões com regras ambientais mais permissivas.
O ganho não para na sustentabilidade. Um processo mais enxuto acelera toda a cadeia produtiva da moda. Hoje, marcas costumam iniciar a fabricação de uma peça cerca de 18 meses antes dela chegar às lojas. Com uma tecnologia mais rápida, dá para responder às tendências quase em tempo real, produzir lotes menores para testar estilos e evitar aquele excesso de produção que sobra encalhado.
O custo também cai. Menos mão de obra envolvida, consumo de energia 90% menor e nenhum gasto com tratamento de água residual, já que praticamente não existe resíduo líquido a ser tratado.
Um jeans que dura mais
Tem um efeito colateral interessante nessa história: o jeans produzido com essa nova abordagem também é mais durável. Os produtos químicos e processos usados no tingimento tradicional desgastam as fibras do tecido ao longo do caminho. Ao eliminar essas etapas agressivas, o material sai do processo mais resistente, sem perder o visual que todo mundo espera de um jeans autêntico.
Testes com grandes fabricantes já estão em andamento
A Wtrlss já está em fase de testes com o Ha-Meem Group, um dos maiores fabricantes de jeans do mundo, que produz para marcas como Levi’s e Gap. Os nomes das grifes que vão adotar esse novo processo ainda não foram revelados, porém a expectativa é que as primeiras peças cheguem ao mercado ainda neste ano.
A técnica também tem potencial para ser aplicada em outros tipos de tingimento têxtil. O jeans foi escolhido como ponto de partida justamente por ser um dos tecidos que mais consome água e insumos químicos durante a produção.
Uma indústria pressionada a mudar
O tingimento tradicional com índigo segue tendo valor em produções artesanais e de nicho, onde o processo faz parte da identidade da peça. Para a produção em massa, porém, o modelo atual já mostra seus limites. A pegada hídrica é alta demais, o volume de resíduos também, e a indústria da moda vem sendo cada vez mais cobrada por soluções que reduzam esse impacto sem abrir mão de qualidade e estética.
Se essa tecnologia realmente ganhar escala, pode representar uma das mudanças mais relevantes da produção têxtil dos últimos anos. Um jeans com a mesma cara de sempre, só que sem pesar tanto no planeta.

Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, à proteção animal e comanda sua própria loja (MF Feminina), onde faz o comercio de roupas femininas, lingeries, cosméticos, perfumaria e produtos de beleza. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets e dicas de beleza.







