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A planta que o Brasil finalmente regulamentou — e que pode virar política pública de saúde em poucos anos

Anvisa aprovou novas regras, pesquisas avançam nas universidades e os primeiros medicamentos brasileiros devem chegar ao mercado em cinco anos. Entenda o que está em jogo

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Existe um mercado movimentando quase R$ 1 bilhão por ano no Brasil que, até pouco tempo atrás, dependia quase que exclusivamente de importações caras e processos burocráticos intermináveis. Estamos falando da cannabis medicinal — e 2026 marcou uma virada real nessa história.

Em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou um novo conjunto de resoluções que regulamentam, pela primeira vez, o cultivo da cannabis em território nacional por pessoas jurídicas, com fins farmacêuticos e científicos. A decisão não caiu do céu: ela veio de um processo que envolveu o Superior Tribunal de Justiça (STJ), consultas com 139 pesquisadores, 29 associações de pacientes, representantes do Ministério da Saúde, do Ministério da Agricultura e da Embrapa. Foi uma construção coletiva — e o resultado muda o jogo.

Por que isso importa agora

A questão não é apenas simbólica. Os produtos à base de canabidiol (CBD) disponíveis no Brasil hoje pertencem, em sua maioria, a empresas estrangeiras. Os preços variam entre R$ 500 e R$ 1.800 por frasco — valores proibitivos para boa parte da população. Enquanto isso, mais de 660 mil autorizações individuais de importação foram registradas no país entre 2015 e 2025. São pacientes buscando tratamento por conta própria, com toda a incerteza que isso implica.

A nova regulamentação abre espaço para que o Brasil construa uma cadeia produtiva nacional completa, do cultivo à fabricação do insumo farmacêutico ativo vegetal. Isso significa, na prática, preços menores, mais segurança sanitária e menor dependência de fornecedores externos.

Thiago Ermano, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Cannabis e Cânhamo (Abicann), coloca em perspectiva: “A partir de 2025 para 2026, ela entrou na rota da pesquisa, da ciência e da inovação. Ou seja, nem os medicamentos tradicionais têm todos os insumos farmacêuticos produzidos no Brasil, mas nós teremos a cannabis.”

O que muda na prática

As resoluções aprovadas pela Anvisa em fevereiro de 2026 estabelecem critérios claros para cultivo, pesquisa, importação de extratos e fabricação de produtos. As normas também ampliam as formas de administração permitidas — medicamentos de uso bucal, sublingual e dermatológico agora fazem parte do escopo autorizado.

Vale um detalhe importante: os produtos atualmente disponíveis ainda são classificados como “produtos à base de cannabis“, não como medicamentos em sentido estrito. Para chegar ao status de medicamento — com registro completo, comprovação de eficácia e entrada possível no SUS — o caminho ainda leva tempo. Ermano estima que os primeiros medicamentos brasileiros de cannabis devem levar de cinco a seis anos para chegar ao mercado, com foco inicial em patologias específicas.

O estigma ainda é um obstáculo real

Regulamentação avançada não apaga o preconceito da noite para o dia. Ermano é direto ao falar sobre o assunto: “Desde 2017 estamos trabalhando na desmistificação, sem dramatização, mostrando que se trata de uma planta que precisa ser reinserida na bioeconomia brasileira, porque pode ser aplicada em diversas frentes.”

E as frentes são muitas. A cannabis — especialmente na sua forma industrial, o cânhamo — pode atuar na recuperação ambiental, na rotação de culturas com soja, milho e algodão, e até na saúde animal. Há animais em tratamento contra o câncer que já utilizam derivados da planta para reduzir o sofrimento e ganhar qualidade de vida. A aplicação humana, porém, segue sendo a mais estruturante — cada pessoa tem um sistema endocanabinoide diferente, o que abre perspectivas enormes para o desenvolvimento de biotecnologias personalizadas a longo prazo.

As universidades brasileiras já estão na corrida

Enquanto o mercado se organiza, as instituições de ensino tomaram a frente. A Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), em Foz do Iguaçu, se destaca tanto em pesquisa clínica quanto no desenvolvimento de biotecnologias de base — com potencial, segundo Ermano, de transformar a produção de canabinoides no mundo a partir de uma universidade brasileira. A Universidade Estadual de Londrina e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) também avançam no tema do cânhamo industrial.

A partir de 2026, universidades públicas e privadas devem consolidar um movimento conjunto para estruturar essa bioeconomia de forma organizada.

A ferramenta que pode acelerar tudo

Um dos pontos menos discutidos — mas potencialmente mais transformadores — é o chamado sandbox regulatório. Na prática, trata-se de um ambiente controlado onde novas tecnologias e produtos podem ser testados com regras mais flexíveis, reduzindo o tempo de desenvolvimento. Algo que levaria 14 anos pelo caminho convencional pode ser viabilizado em aproximadamente cinco, segundo Ermano.

A Anvisa já testou esse modelo na área de cosméticos e agora o aplica também à cannabis. O Brasil, com isso, se posiciona na vanguarda da pesquisa e da inovação regulatória — o que é incomum para um país que costuma chegar atrasado a esse tipo de debate.

E o SUS, quando entra?

A pergunta que mais interessa ao público em geral ainda não tem data definida. Para que a cannabis medicinal entre na lista do SUS, ela precisa cumprir requisitos rigorosos de segurança, eficácia e certificação. A química da planta ainda é considerada instável, e as tecnologias de estabilização necessárias para transformá-la em medicamento aprovado estão em desenvolvimento.

Ermano, no entanto, é otimista com o prazo. Sua estimativa é que, em dois a três anos, o SUS já possa ter condições técnicas para implementar a cannabis medicinal como política pública de saúde. “No longo prazo, acreditamos que a cannabis medicinal tende, sim, a se consolidar como política pública de saúde no Brasil. E já estamos caminhando nessa direção”, afirma.

Com um mercado projetado para superar R$ 1 bilhão em 2026, universidades pesquisando soluções que podem impactar o mundo, e uma regulamentação finalmente estruturada, o Brasil deixou de ser apenas um consumidor de tratamentos importados. O próximo passo — transformar esse potencial em acesso real para quem mais precisa — é o verdadeiro teste.

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