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Comportamento

Dor no estômago, náusea e cansaço — isso não é ansiedade, pode ser um infarto matando você

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Geralda chegou ao trabalho normalmente. Era 2019, ela tinha 63 anos, e uma notícia sobre um acidente com o chefe virou o dia de cabeça para baixo. No meio do caos, começou a sentir uma dor estranha no estômago. Não a dor clássica do cinema, aquela que aperta o peito e irradia pro braço. Era uma sensação de faca cortando o começo da barriga.

Foi ao pronto-socorro. Voltou com diagnóstico de crise na vesícula. No dia seguinte, foi de novo. Recebeu medicação e alta. Chegou em casa, chamou pela vizinha e desmaiou. Estava infartando.

“Nunca passou pela minha cabeça que eu poderia ter infartado. Eu era muito saudável”, ela conta. Hoje, com 45% do coração comprometido e 15 medicamentos por dia, Geralda ainda se pergunta como sobreviveu.

A resposta incômoda é que ela quase não sobreviveu. E muitas outras mulheres não têm a mesma sorte.

O infarto feminino não parece infarto — e esse é o problema

A imagem gravada no imaginário coletivo é aquela do homem que cai segurando o peito, suado, com dor irradiando para o braço esquerdo. Esse é o infarto masculino clássico. O infarto em mulheres costuma ser completamente diferente, e é exatamente essa diferença que mata.

Os sintomas do infarto feminino incluem dor abdominal, queimação que sobe pelo estômago, náusea, vômito, cansaço fora do comum, suor frio, falta de ar, dor nas costas e no pescoço. Um checklist que, convenhamos, se parece muito com gastrite, intoxicação alimentar ou crise de ansiedade.

Não é coincidência que esse seja o diagnóstico que as mulheres recebem repetidamente.

Tammy tinha 63 anos quando passou uma noite inteira vomitando com uma queimação que subia pelo estômago. Sua filha, Ana Luiza, a levou ao hospital. O quadro incluía cansaço extremo, enjoo, vômito e suor frio. O diagnóstico foi intoxicação alimentar. A alta foi dada.

Tammy ficou quatro dias debilitada. Quando começou a melhorar, levantou para fazer tarefas domésticas, sentiu uma dor intensa e parou de respirar. Tentaram reanimá-la por 40 minutos. O laudo registrou morte súbita, com referências a gastrite e tabagismo.

Dias depois, lendo as mensagens no celular da mãe, Ana Luiza descobriu que Tammy não acreditava no diagnóstico. Ela descrevia um cansaço nunca sentido antes. Sabia que algo estava errado. Não foi ouvida.

“Ninguém morre de gastrite”, diz Ana Luiza.

Por que o sistema médico falha com mulheres

Esse padrão de falha não é acidente. É estrutural.

Durante décadas, os grandes estudos clínicos sobre doenças cardiovasculares foram conduzidos majoritariamente com homens. O resultado prático disso é que os livros médicos, os protocolos de atendimento e a formação nas faculdades foram construídos em torno do infarto masculino. O feminino ficou em segundo plano, tratado como exceção, quando na verdade representa metade da população.

Um posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia publicado em 2025 confirma o que muitas mulheres já suspeitavam na própria pele: as doenças cardiometabólicas em mulheres são subdiagnosticadas e subtratadas. Isso significa que elas chegam aos hospitais com sintomas reais, são dispensadas com diagnósticos equivocados e voltam para casa para morrer.

Os números chocam quem ainda pensa que o câncer de mama é o maior inimigo do coração feminino. As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. O infarto, especificamente, mata oito vezes mais do que o câncer de mama. Oito vezes. E esse dado quase não aparece nas campanhas de saúde feminina.

Mulheres têm 50% mais chance de receber um diagnóstico inicial errado após um ataque cardíaco do que os homens. Demoram em média mais de 40 minutos a mais para chegar ao hospital depois do início dos sintomas, seja por não reconhecerem os sinais, seja porque tendem a colocar a própria saúde em última posição. “A mulher leva o marido, o filho, o vizinho ao médico, mas quando o sintoma é dela, minimiza”, como se diz na cardiologia.

O coração feminino é biologicamente diferente — e a medicina demorou para entender isso

O coração da mulher é anatomicamente menor do que o masculino. As artérias coronárias são mais estreitas. O padrão de obstrução é diferente. Enquanto o infarto masculino costuma ser causado pelo rompimento de placas nas artérias, o feminino pode envolver doença da microcirculação coronariana, em vasos tão pequenos que não aparecem no cateterismo convencional.

Isso significa que uma mulher pode estar infartando com um eletrocardiograma aparentemente normal. Estudos mostram que o ECG inicial em mulheres não apresenta alterações em até 40% dos casos. Esse dado, isoladamente, deveria mudar completamente a forma como o atendimento de emergência é conduzido para pacientes do sexo feminino.

Neide tinha 75 anos quando chegou a uma unidade de saúde com desconforto abdominal e enjoo. O eletrocardiograma pedido pelos médicos não apresentou alterações. Perto do meio-dia, ela teve vômito intenso e falta de ar. Às 15h, morreu. Uma segunda médica presente na tentativa de reanimação apontou que provavelmente era um infarto. O laudo registrou causa desconhecida.

Manuela, filha de Neide, ainda carrega a conta do tempo perdido. “Eles tiveram tempo suficiente. De 9h até antes das 15h, muita coisa poderia ter sido feita.”

A menopausa muda tudo — e quase ninguém fala disso

Há uma janela de risco que a maioria das mulheres desconhece completamente. Antes da menopausa, o estrogênio funciona como um escudo natural para o sistema cardiovascular feminino. Ele protege as artérias, regula o colesterol e reduz processos inflamatórios. Quando a mulher entra na perimenopausa e menopausa, esse escudo desaparece.

O efeito é direto. Mulheres entre 45 e 55 anos apresentam risco de morte pós-infarto significativamente maior do que homens da mesma faixa etária, mesmo que teoricamente tenham menos comorbidades clássicas. Um estudo da PUC do Paraná publicado em 2025 nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, acompanhando cerca de 5.000 pacientes internados por infarto no SUS em Curitiba ao longo de sete anos, confirmou esse padrão.

A perda da proteção estrogênica também vem acompanhada de aumento da pressão arterial, maior acúmulo de gordura abdominal, elevação do colesterol ruim e maior sensibilidade ao estresse. O risco cardiovascular feminino passa a se igualar e até superar o masculino nessa fase, mas a maioria das mulheres não recebe essa informação durante a consulta ginecológica.

Fumo, ansiedade, violência: os fatores que a cardiologia ignora nas mulheres

Os fatores de risco clássicos como hipertensão, tabagismo e obesidade são mais letais nas mulheres do que nos homens. Uma mulher que fuma tem muito mais chances de infartar do que um homem que fuma. Mas essa informação raramente é comunicada com clareza.

Há ainda fatores específicos da saúde feminina que raramente entram nas avaliações de risco cardiovascular. Histórico de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, parto prematuro, síndrome dos ovários policísticos e uso prolongado de anticoncepcionais impactam diretamente o coração, mas dificilmente aparecem na triagem de risco convencional.

Ansiedade, depressão e violência doméstica também elevam o risco cardiovascular de forma significativa. O endotélio feminino, camada interna dos vasos sanguíneos, é mais sensível aos hormônios do estresse. Biologicamente, o impacto cardiovascular do estresse crônico é maior na mulher. E esses fatores, quase nunca são investigados durante uma consulta de cardiologia.

O que muda quando a mulher sabe reconhecer os sinais

No início de 2025, Ana Luiza soube que uma conhecida estava com sintomas parecidos com os que sua mãe Tammy havia apresentado. A mulher estava ignorando. Ana Luiza interveio, contou o que havia acontecido e pressionou ela a ir a uma emergência cardiológica.

No hospital, confirmou-se o infarto. Os médicos reverteram o quadro. Ela ficou internada na UTI. Sobreviveu.

A diferença entre os dois casos foi uma informação. Uma mulher que sabia o que estava vendo.

As buscas por “sintomas de infarto em mulher” no Google cresceram a um patamar dez vezes maior do que as relacionadas ao infarto masculino no último ano. Isso indica que a informação está chegando, que as mulheres estão começando a reconhecer que o próprio corpo pode estar mandando sinais que o sistema de saúde ainda não está preparado para ouvir.

Dor abdominal persistente, cansaço fora do padrão habitual, náusea sem explicação clara, suor frio, falta de ar e sensação de queimação no estômago merecem atenção. Não como suspeita de gastrite. Como suspeita de infarto.

Seu coração pode estar pedindo socorro num idioma que você ainda não aprendeu a reconhecer. Agora você sabe que precisa prestar atenção.

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