Comportamento
Dormir mal e tomar café para aguentar o dia pode estar causando sua enxaqueca, segundo estudo

Acordar cansada, passar a mão no café e seguir o dia. Esse ciclo que parece inofensivo pode estar preparando seu corpo para uma crise de enxaqueca. Uma pesquisa do Laboratório de Farmacologia da Dor Orofacial da Universidade Federal do Paraná (UFPR) mostra que a combinação de privação de sono e consumo de cafeína reduz a resistência do sistema nervoso à dor, tornando o organismo mais vulnerável a crises intensas. E as mulheres saem em desvantagem nessa equação.
O estudo foi publicado na revista científica Headache e conduzido com 320 ratos de laboratório. Os resultados indicam um mecanismo de “preparação” para enxaqueca, o que os cientistas chamam de priming. Em termos diretos: mesmo antes da crise começar, o corpo já está sendo condicionado a sentir mais dor.
Por que a enxaqueca afeta mais as mulheres
A desigualdade entre os sexos diante da enxaqueca não é novidade na medicina. Estatísticas globais mostram que mulheres sofrem de duas a três vezes mais do que homens com essa condição. Essa prevalência aparece com a puberdade, a partir dos 15 anos, e acompanha as oscilações do estrogênio ao longo da vida.
“A enxaqueca não é uma simples dor de cabeça. É uma síndrome neurológica altamente incapacitante. É caracterizada por diversos sintomas, dentre eles, dor de cabeça de intensidade moderada à severa, náuseas, sensibilidade à luz e ao som”, explica a professora Juliana Geremias Chichorro, coordenadora do laboratório na UFPR e uma das autoras do estudo.
Quando acomete mulheres, a síndrome costuma ser mais frequente, mais duradoura e mais severa. O que a pesquisa da UFPR acrescenta a esse cenário é mostrar como dois hábitos comuns do cotidiano feminino, dormir pouco e recorrer ao café, amplificam ainda mais essa vulnerabilidade.
O que o estudo fez e o que encontrou
Os pesquisadores submeteram os animais a um protocolo de restrição de sono de seis horas diárias por três dias consecutivos. O objetivo era simular a rotina de quem dorme poucas horas por noite por demandas do dia a dia. O sono profundo foi reduzido em 98% e o sono REM foi suspenso completamente.
Parte dos animais recebeu uma dose oral de cafeína durante esse período. Em seguida, os cientistas aplicaram doses baixas de duas substâncias capazes de desencadear enxaqueca em humanos, os neuropeptídeos CGRP e PACAP. Essas doses, em condições normais, não causariam dor.
O resultado foi revelador. Nas fêmeas, a simples privação de sono ou o uso isolado de cafeína já foi suficiente para que essas doses disparassem crises intensas de dor. Nos machos, a dor só apareceu quando todos os fatores de risco estavam combinados ao mesmo tempo, e ainda assim de forma passageira.
“No nosso modelo experimental, as fêmeas foram significativamente mais sensíveis à combinação de cafeína e privação de sono, o que é consistente com o fato de a enxaqueca ser mais prevalente em mulheres”, avalia a professora Luana Fischer, do Departamento de Fisiologia da UFPR e coautora do estudo.
A luz do quarto pode reativar a dor horas depois
Um dos achados mais impactantes da pesquisa envolve o que os cientistas chamam de sensibilização latente. No quarto dia do experimento, os animais foram expostos por uma hora a uma iluminação de 5.000 lux, o mesmo padrão usado em ambientes hospitalares.
Apenas as fêmeas que passaram pela combinação de sono restrito, cafeína e gatilhos biológicos tiveram a dor reativada pela luz, com efeitos que persistiram por até 48 horas. Os machos, mesmo quando apresentaram sensibilidade à dor, não reagiram à luz no dia seguinte.
Essa descoberta dialoga diretamente com a fotofobia, uma das características mais debilitantes da enxaqueca. Para mulheres que já sofrem com crises frequentes, o estudo sugere que o ambiente, incluindo a tela do celular, a iluminação do escritório e até a luz natural, pode prolongar e intensificar a dor quando o corpo está no estado de sensibilização.
Como a cafeína e o cansaço trabalham juntos contra você
A chave para entender o mecanismo está na adenosina, um neurotransmissor que se acumula no cérebro ao longo do dia e induz ao sono à noite. Ela funciona como um mensageiro químico do cansaço e, ao mesmo tempo, oferece certa proteção contra a dor do estresse.
Com a privação de sono, a adenosina está em alta no organismo. Quando a cafeína entra em cena, ela ocupa os mesmos receptores cerebrais da adenosina sem ativá-los, bloqueando o efeito dessa molécula. O corpo perde o sinal de descanso e, junto com ele, parte da proteção natural contra a dor. O resultado é um sistema nervoso mais exposto e reativo a qualquer gatilho.
“Nossos resultados sugerem que a sinalização adenosinérgica pode representar um elo fisiológico entre privação de sono e vulnerabilidade à enxaqueca. Isso contribui para explicar por que alterações no sono e o consumo de cafeína frequentemente aparecem associados às crises em pacientes suscetíveis”, detalha Luana Fischer.
Cafeína causa enxaqueca? A resposta é: depende
Essa pergunta intriga a ciência há anos, e a pesquisa da UFPR traz uma resposta mais honesta do que um simples sim ou não. A cafeína é contraindicada para quem sofre de enxaqueca crônica, mas também aparece como ingrediente em muitos analgésicos vendidos livremente nas farmácias, justamente por potencializar o efeito das substâncias ativas.
Além disso, a abstinência de cafeína em quem consome a substância diariamente pode, por si só, desencadear uma crise. Cortar o café abruptamente também é um gatilho conhecido.
O que o estudo esclarece é que o impacto da cafeína sobre a enxaqueca depende do estado geral do organismo. Consumida de forma isolada, em doses moderadas e com o sono em dia, ela não necessariamente representa risco. Somada à privação de sono e a outros fatores de vulnerabilidade, especialmente em mulheres, ela muda o cenário completamente.
“O principal diferencial do nosso estudo é mostrar que o efeito da cafeína sobre a enxaqueca depende do contexto fisiológico e da interação com outros fatores de risco, especialmente a privação de sono. A maior parte dos estudos anteriores analisou esses fatores de forma isolada”, explica Luana Fischer.
A recomendação atual para a população em geral é não ultrapassar 400 miligramas de cafeína por dia, o equivalente a quatro ou cinco xícaras de café. Para quem sofre de distúrbios do sono e tem histórico de enxaqueca, a professora Juliana Chichorro ressalta que mesmo essa quantidade pode ser suficiente para predispor a uma crise.
O que muda na prática para quem sofre de enxaqueca
A pesquisa reforça uma tendência crescente na medicina: investigar como o sexo biológico influencia os mecanismos das doenças, a forma como elas se manifestam e como os tratamentos agem no organismo de homens e mulheres de formas distintas.
“Hoje é altamente recomendado incluir animais e pacientes de ambos os sexos nas pesquisas experimental e clínica. Essa medida tem colaborado para o melhor entendimento do papel do sexo em diferentes condições dolorosas”, afirma Juliana Chichorro.
Para as mulheres que convivem com crises frequentes de enxaqueca, o recado prático do estudo é claro: monitorar o padrão de sono e o consumo de cafeína como parte do manejo da condição, assim como se observa a alimentação, o ciclo hormonal e o nível de estresse. Esses fatores não atuam isolados. E o corpo feminino, conforme a ciência vai confirmando, responde a essa combinação de forma mais intensa.Compartilhar
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, à proteção animal e comanda sua própria loja (MF Feminina), onde faz o comercio de roupas femininas, lingeries, cosméticos, perfumaria e produtos de beleza. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets e dicas de beleza.