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Ela transformou pincel e tinta em um negócio de R$ 150 mil por ano, e a origem da ideia vem da ancestralidade africana

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empreendedora roupa - Ela transformou pincel e tinta em um negócio de R$ 150 mil por ano, e a origem da ideia vem da ancestralidade africana

Flávia Costa não desenha antes de pintar. Pega a peça, mergulha o pincel na tinta e deixa a mão guiar o resto. O resultado é uma camiseta única, que pode custar em média R$ 450 e leva até três dias para ficar pronta. Por trás desse processo intuitivo existe uma marca que já fatura R$ 150 mil por ano e um propósito que vai muito além da moda: resgatar a ancestralidade negra e reafirmar a força feminina em cada peça que sai do ateliê.

Aos 53 anos, a paulistana Flávia Costa construiu a Reino de Kush a partir de uma paixão antiga. Na adolescência, já fazia cursos de pintura em tecido, bordado e crochê, e sonhava em ser professora de arte. A vida, porém, seguiu outro roteiro: passagens por lojas e por um bar até a costura reaparecer, décadas depois, como ponto de virada.

Do enxoval do filho a um negócio próprio

A costura entrou definitivamente na vida de Flávia durante a quarta gravidez. Um curso gratuito de corte, costura e modelagem, oferecido pelo governo, tinha um objetivo simples: preparar o enxoval do caçula, Zaion, hoje com 10 anos. O plano mudou de rumo rápido. Nos horários de folga do trabalho, ela passou a produzir peças com tecidos de estampas africanas e logo começou a vender em feiras.

O caminho seguiu se ampliando aos poucos. Flávia chegou a confeccionar roupinhas para bonecas pretas, em parceria com uma amiga, e durante a pandemia deu o próximo passo: passou a vender roupas pela internet. No fim de 2021, decidiu buscar uma linguagem própria. Continuou costurando, mas começou a criar peças lisas justamente para pintar. A técnica nasceu de pequenas gotas de tinta e ganhou corpo com o tempo.

A formalização do negócio veio em 2023, quando a certeza de seguir com a marca já estava consolidada. Mais do que empreender, Flávia buscava liberdade de tempo para estar perto da família, algo que a rotina fixa de emprego não permitia.

Uma pintura que nasce sem roteiro

Cada peça da Reino de Kush é pintada à mão, sem desenho prévio. O processo intuitivo virou a marca registrada do trabalho e traduz os dois pilares que sustentam o negócio: o resgate da ancestralidade negra e a valorização do feminino. “Queria fazer algo diferente, que viesse da alma, que eu produzisse desde o início”, explica Flávia.

A resposta do público às primeiras peças pintadas surpreendeu a empreendedora logo no início. A partir dali, ela abandonou aos poucos os desenhos figurativos e migrou para a pintura abstrata que hoje define seu estilo. Uma camiseta básica consome um dia inteiro de trabalho. As peças pintadas dos dois lados exigem de dois a três dias. Flávia costura e pinta parte das peças do zero, mas a maior fatia da produção acontece sobre itens comprados prontos. “Criar, para mim, é visceral, orgânico. Não faço esboço. Pego a peça e vou pintando. A tinta vai me conduzindo e a arte surge na roupa”, conta.

O nome que carrega uma civilização inteira

A identidade da marca nasceu de uma inquietação. Ao trabalhar com tecidos africanos, Flávia percebeu que parte do mercado usava esses materiais sem conhecer sua história nem seu contexto cultural. A resposta foi buscar mais conhecimento sobre o continente. Em um curso, conheceu a trajetória do antigo Reino de Kush, civilização que floresceu na região hoje ocupada por Sudão e Etiópia e que manteve relações estreitas com o Egito Antigo.

O protagonismo feminino daquela sociedade despertou identificação imediata. Dali nasceu o nome da marca, carregado de força, ancestralidade e representatividade. As clientes, aliás, não são chamadas de clientes: são “deusas”. Para Flávia, a relação com o público ultrapassa a venda de uma peça. “Toda mulher é uma deusa, carrega sua história e sua magia. Algumas chegam e ainda não estão nessa sintonia. Eu as ajudo a enxergar isso, a olhar para dentro e colocar sua deusa para fora.”

Feiras, Instagram e um faturamento que não para de crescer

As vendas da Reino de Kush acontecem majoritariamente pelo Instagram e pelo WhatsApp, mas as feiras seguem como o coração do negócio. Flávia participa com regularidade dos encontros na Praça da República e no Beco do Batman, além de congressos e eventos ligados a arte e educação. O público reúne artistas de teatro, cinema, audiovisual e artes plásticas, pessoas que reconhecem no trabalho dela uma linguagem próxima.

O contato direto é a estratégia central da marca. Em vez de apenas fechar uma venda, Flávia observa a reação de quem experimenta a peça, explica o processo criativo e constrói vínculo com o público. Muitas vezes, segundo ela, a identificação acontece já no primeiro toque, como se a roupa escolhesse a pessoa tanto quanto a pessoa escolhe a roupa.

O negócio faturou R$ 150 mil em 2025. Para 2026, a expectativa de crescimento gira em torno de 30%. A rotina se divide entre feiras nas sextas, sábados e domingos, e produção e vendas online no restante da semana.

Um ateliê que quer virar espaço cultural

O próximo objetivo de Flávia ultrapassa os limites de uma marca de roupas. Ela projeta transformar a Reino de Kush em um espaço cultural completo, com ateliê, loja, oficinas e exposições, um lugar onde outras mulheres também possam expor seus trabalhos e dividir suas próprias histórias.

A expansão segue o mesmo compasso que marcou toda a trajetória da empreendedora: sem pressa e sem atropelos. “Sou uma pessoa orgânica, gosto de ir degrau por degrau, sentindo meus clientes. Estou indo bem assim. Sem pressa”, diz.