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Comportamento

Metade dos Adolescentes Trans Estudados Praticou Automutilação — e a Pesquisa Revela o Que Está Por Trás Desse Número

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Estudo conduzido por pós-graduandas da Universidade Federal do Paraná ouviu responsáveis por jovens não cisgênero e encontrou automutilação em 50% dos casos. Os dados apontam para um cenário que exige respostas concretas da família, da escola e do Estado.

A adolescência carrega, por natureza, uma densidade emocional que poucos períodos da vida conseguem rivalizar. Mudanças corporais, construção de identidade, pressão social e pertencimento são tensões que atravessam praticamente todos os jovens. Mas para os adolescentes trans, esse peso costuma ser significativamente maior.

Os números que a ciência tem reunido sobre esse grupo são sérios. A Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou, em 2019, que o suicídio era a quarta principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos no mundo. Quando o recorte se volta especificamente para jovens não cisgênero, os dados se tornam ainda mais urgentes. Uma pesquisa publicada na revista Pediatrics, em 2018, mostrou que, enquanto 14% dos adolescentes em geral já haviam tentado suicídio, entre jovens trans esse percentual chegava a 50,8% para meninos trans, 41,8% para jovens não binários e 29,9% para meninas trans.

É dentro desse contexto que uma pesquisa conduzida por pós-graduandas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) se torna especialmente relevante — e necessária.

O Estudo Que Quis Ouvir Quem Está Mais Perto

Em 2019, a convite da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), as pesquisadoras Fernanda Rafaela Cabral Bonato e Adriane Mussi, então vinculadas ao Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFPR, iniciaram uma investigação sobre comportamentos de automutilação, ideação suicida e suicídio entre adolescentes brasileiros trans ou com variabilidade de gênero.

O trabalho, que resultou em um artigo publicado na Revista Psicologia Argumento em 2024, contou ainda com a participação de Roberta Cristina Gobbi Baccarim, Jéssica Mayra Ferreira, Thamirys Nardini Nunes — da ONG Minha Criança Trans — e Thais Ferreira Assis Assunção.

A metodologia escolhida foi a escuta direta de pais, mães e responsáveis por adolescentes trans entre 12 e 17 anos. Esse grupo integrava a rede da Coordenação Nacional da Área de Proteção e Acolhimento a Crianças, Adolescentes e Famílias LGBTI+. Foram realizadas 64 entrevistas online, semiestruturadas, voluntárias e individuais — todas precedidas de encontros explanatórios para alinhar conceitos como bullying e agressões, conforme explica Bonato. Entre os entrevistados, 38 eram responsáveis por meninos trans, 20 por meninas trans e 6 por jovens não binários.

A escolha por ouvir os responsáveis, e não diretamente os adolescentes, responde a uma série de considerações éticas e metodológicas envolvendo menores de idade em situação de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, abre uma perspectiva única: a de quem convive com esse jovem no cotidiano e testemunha os impactos desse sofrimento de perto.

O Que os Dados Encontraram

Os resultados são expressivos. Entre os adolescentes cujos responsáveis participaram da pesquisa, 50% já haviam praticado automutilação. Outros 37,5% apresentaram ideação suicida — ou seja, pensamentos recorrentes sobre tirar a própria vida. E 17% chegaram a tentar suicídio.

Esses números não existem no vácuo. O estudo identifica um conjunto de fatores que criam e sustentam esse cenário de sofrimento.

Família, Escola e a Estrutura do Isolamento

Um dos pontos centrais levantados pela pesquisa é o conflito familiar. A não aceitação por parte de amigos e familiares foi apontada por 67% dos responsáveis ouvidos como um fator central para os comportamentos de autolesão e ideação suicida. Esse dado não surpreende especialistas que trabalham com saúde mental de jovens LGBTI+, mas confirma, com clareza, o peso que o ambiente familiar exerce.

Quando a família rejeita, o risco de saída precoce de casa aumenta. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) aponta que esse movimento — chamado de êxodo LGBTI+ — pode ocorrer por volta dos 13 anos, expondo jovens a vulnerabilidades sociais, financeiras e emocionais severas numa fase em que ainda não têm estrutura para lidar com elas.

Na escola, o ciclo de exclusão se completa. O bullying e as agressões no ambiente escolar são fatores de risco consistentemente documentados, e o estudo reforça essa relação no contexto específico dos adolescentes trans brasileiros. A ausência de redes de proteção nesse espaço, que deveria ser de acolhimento e aprendizado, aprofunda o isolamento.

Outros agravantes identificados pelo estudo incluem a exposição contínua a situações de violência sem acesso a redes de proteção, a falta ou má qualidade nos serviços de saúde especializados e a ausência de estratégias específicas voltadas para essa população. A marginalização social, o estigma e o preconceito relacionados à diversidade de gênero compõem um cenário que, segundo Bonato, pressiona esses jovens de múltiplos lados simultaneamente.

O Que o Estudo Propõe

Diante desse panorama, o artigo não se limita a descrever o problema. As pesquisadoras apontam caminhos concretos. Entre as recomendações estão o fortalecimento do suporte familiar, medidas de atenção à saúde que integrem psicoterapia individual, em grupo e familiar, o fortalecimento do acolhimento em rede e o tratamento farmacológico para o manejo de crises quando necessário.

As pesquisadoras reforçam ainda a urgência de políticas públicas específicas para a população trans menor de 18 anos e de campanhas sistemáticas de combate ao bullying nas escolas. Não como ações isoladas, mas como parte de uma estrutura de proteção consistente e contínua.

Os Limites do Que Foi Estudado

O estudo tem uma limitação importante que as próprias pesquisadoras reconhecem com honestidade: as famílias ouvidas já buscavam ativamente redes de apoio e suporte. Isso significa que os dados coletados refletem, em grande parte, uma realidade mais amparada do que a de adolescentes trans sem qualquer rede de acolhimento.

“São necessárias pesquisas que investiguem a saúde mental de crianças e adolescentes trans brasileiros sem acolhimento”, afirma Bonato. Essa lacuna é relevante porque os casos mais graves tendem a permanecer invisíveis para a pesquisa acadêmica justamente por estarem fora de qualquer rede formal de suporte.

O estudo também aponta que os dados brasileiros sobre a vivência trans ainda são insuficientes, o que limita análises comparativas no cenário nacional. As pesquisadoras defendem a produção de estatísticas mais atuais e abrangentes como pré-requisito para políticas públicas mais eficazes.

Um Terreno Que Ainda Precisa Ser Mapeado

A pesquisa da UFPR é um passo concreto num campo que ainda carece de atenção sistemática no Brasil. Os dados sobre automutilação, ideação suicida e tentativas de suicídio entre adolescentes trans não são apenas números — são a expressão de jovens que enfrentam, muitas vezes sem suporte adequado, uma combinação de pressões que nenhum adolescente deveria carregar sozinho.

O que o estudo deixa claro é que as respostas a esse problema não podem ser individuais. Dependem de famílias mais informadas e acolhedoras, escolas mais preparadas, serviços de saúde mais acessíveis e políticas públicas que reconheçam essa população como prioridade. “Ainda há muito o que descobrir nesse terreno”, conclui Bonato — e, enquanto essa descoberta avança, o custo do silêncio continua sendo pago pelos mais jovens.

Se você ou alguém próximo está em sofrimento emocional, o CVV — Centro de Valorização da Vida — oferece atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia.Compartilhar

Fonte:  Livia Inacio/ciencia.ufpr.br

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