Mundo Botânico & Ciência
Própolis verde brasileira mostra ação direta na regeneração neuronal
Compostos naturais ativam conexões nervosas e reduzem morte celular em modelos experimentais
Publicado
6 meses atrásem
Por
Suzana Machado
A própolis verde, produto genuinamente brasileiro derivado do alecrim-do-campo, acaba de ganhar uma nova dimensão científica. Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, da USP, demonstraram que dois de seus principais compostos — o Artepelin C e a Bacarina — apresentam potencial de proteção e regeneração neuronal. O dado é relevante. E muda o eixo da discussão sobre o uso terapêutico desse ativo natural.
A própolis já é reconhecida por sua ação antimicrobiana e antioxidante. Contudo, agora o foco se desloca para o sistema nervoso. E isso coloca a pesquisa brasileira em um campo estratégico: o enfrentamento de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson.
Compostos isolados revelam ação direta nas células nervosas
O grupo liderado pelo professor Jairo Kenupp Bastos orientou o farmacêutico Gabriel Rocha Caldas na investigação que resultou no isolamento químico do Artepelin C e da Bacarina. O processo foi rigoroso. Técnicas cromatográficas sucessivas permitiram separar as moléculas puras da própolis verde, em um método que o próprio pesquisador compara a uma peneiração progressiva até restar apenas o composto desejado.
“Usamos solventes e diferentes métodos cromatográficos para ir separando a própolis em frações menores, até isolar cada molécula pura. É parecido com pegar uma caixa cheia de peças misturadas e ir separando uma por uma até restar só o que você precisa”, explica Caldas.
A partir daí, a equipe utilizou modelagem computacional e experimentos in vitro com células PC12 — modelo clássico para estudos neuronais. O objetivo era simples e direto: entender se essas moléculas poderiam alcançar o sistema nervoso e atuar sobre ele.
Os testes computacionais indicaram que o Artepelin C, especialmente após sofrer acetilação, ganhou maior capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica. Isso é decisivo. Sem essa permeabilidade, qualquer composto se torna irrelevante do ponto de vista terapêutico.
Formação de neuritos indica início de regeneração
Nos experimentos celulares, os resultados foram ainda mais consistentes. Após o tratamento com os compostos, as células começaram a formar neuritos — estruturas precursoras de axônios e dendritos. Em termos práticos, isso significa que as células estavam iniciando um processo de diferenciação neuronal.
É o primeiro passo para restaurar comunicação nervosa.
Além disso, houve aumento significativo das proteínas sinapsina I e GAP-43, marcadores clássicos de crescimento e maturação neuronal. A presença ampliada dessas proteínas indica que as células não apenas sobreviveram, mas entraram em um estado favorável à regeneração.
“Essas estruturas são fundamentais porque é por meio delas que os neurônios enviam e recebem mensagens. Sem neuritos não existe comunicação entre células nervosas”, ressalta Caldas.
Não se trata apenas de preservar o que existe. Trata-se de estimular reconexões.
Ação antioxidante reduz morte celular programada
Outro ponto crítico nas doenças neurodegenerativas é o estresse oxidativo. A produção excessiva de espécies reativas de oxigênio acelera danos celulares e ativa mecanismos de apoptose, a morte celular programada.
Os testes mostraram que tanto o Artepelin C quanto a Bacarina neutralizaram essas moléculas reativas, além de reduzir a ativação das vias apoptóticas.
O efeito antiapoptótico observado sugere um potencial de proteção especialmente relevante nos estágios iniciais dessas doenças, quando ainda há margem para intervenção celular.
“Os estudos mostram o potencial do Artepelin C e da Bacarina na proteção de neurônios em situações de estresse”, afirma o pesquisador.
Isso não significa cura. Significa caminho científico consistente.
Valorização de um ativo genuinamente brasileiro
A própolis verde é produzida a partir da Baccharis dracunculifolia, planta nativa do Cerrado e da Mata Atlântica. Trata-se de um ativo essencialmente nacional, com cadeia produtiva concentrada no Brasil.
Caldas destaca que, além do avanço científico, há um impacto estratégico. “A pesquisa investe na valorização de um recurso prioritariamente nacional”, observa. O potencial terapêutico pode gerar reflexos científicos, econômicos e sociais.
Parte dos resultados integra a tese de doutorado intitulada Investigação do Potencial de Artepelin C e de Bacarina da Própolis Verde e Artepelin C Acetilado na Indução da Neuritogênese. O estudo também foi publicado na revista Chemistry & Biodiversity em novembro de 2023.
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.
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