Mundo Botânico & Ciência
Cientistas encontram numa fruta chamada “chicletinho” o que faltava na dieta brasileira
Estudos da UFU e da USP mostram que o fruto nativo concentra vitamina A, fibras e antioxidantes em quantidade comparável à de alimentos consolidados, mas continua ausente da rotina alimentar do país.
Publicado
4 semanas atrásem
Por
Suzana Machado
Uma fruta do tamanho de uma pitanga, colhida por pequenos produtores do Cerrado, entrega em seis unidades mais vitamina A do que muita gente consome numa refeição inteira. O dado chamou a atenção de pesquisadoras da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e da Universidade de São Paulo (USP), que decidiram investigar a fundo um fruto conhecido havia décadas pelas comunidades locais, mas praticamente ausente da ciência da nutrição até pouco tempo atrás: a mama-cadela.
A mama-cadela (Brosimum gaudichaudii) tem casca amarelada a alaranjada, polpa doce e fibrosa e cerca de dois centímetros de diâmetro. O apelido popular, “chicletinho do Cerrado”, vem justamente da textura da polpa. Ocorre naturalmente em Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia, São Paulo e Paraná, sempre associada a comunidades que já conheciam seu valor muito antes de qualquer laboratório.
A lacuna científica foi o que motivou o estudo conduzido na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, que identificou uma composição rica em carotenoides, compostos bioativos e fibras. Uma porção de seis frutos cobre mais de 60% da recomendação diária de vitamina A, patamar próximo ao da cenoura. Uma pesquisa mais recente, publicada no Journal of the Brazilian Chemical Society, avançou ainda mais nesse mapeamento: cem gramas do fruto bastam para suprir praticamente toda a necessidade diária de vitamina C e cerca de 80% da necessidade de vitamina A, além de um teor de proteína superior ao de outras frutas nativas comparáveis.
Outro levantamento, conduzido pela própria UFU e publicado na revista Demetra, detalhou o perfil físico-químico da fruta: cerca de 65 quilocalorias a cada 100 gramas, mais de 5% de fibra alimentar e atividade antioxidante próxima de 29%. Para efeito de comparação, esse teor de fibra coloca a mama-cadela em posição semelhante à de frutas já consolidadas no mercado nacional, com a vantagem de uma densidade calórica baixa.
Por que a fruta segue fora do prato do brasileiro
O padrão alimentar do país ajuda a explicar essa ausência. O consumo de ultraprocessados avança enquanto o de frutas e vegetais in natura recua, tendência que preocupa a saúde pública e que, segundo dados do Ministério da Saúde, já foi associada a mais da metade das mortes registradas no Brasil por doenças crônicas. Diversificar o cardápio com espécies nativas é apontado por pesquisadoras da área como um caminho concreto para reverter esse quadro, não apenas um gesto simbólico de valorização cultural.
Essa monotonia alimentar também atinge quem produz. Pequenos agricultores que cultivam ou coletam a mama-cadela enfrentam dificuldade para escoar a produção, porque o mercado consolidado ainda gira em torno de um número limitado de frutas. A ausência de políticas de incentivo à biodiversidade alimentar empurra o produtor para culturas tradicionais, mesmo quando a fruta nativa tem apelo nutricional superior.
O uso tradicional que exige cuidado
Além do fruto, partes da planta como raiz, casca e folhas têm histórico de uso medicinal em comunidades do Cerrado, sobretudo por conta de compostos chamados psoralenos e bergaptenos, associados historicamente ao tratamento de manchas de pele. Esse uso, porém, é delicado: a aplicação inadequada pode causar lesões graves, e por isso não deve ser feita sem orientação profissional. Justamente por essa sensibilidade, o interesse extrativista sobre a raiz da planta acabou se tornando uma ameaça à conservação da espécie em algumas regiões, o que levou pesquisadores a testar técnicas de propagação da mama-cadela em laboratório, com uso de luz LED, como alternativa para reduzir a pressão sobre populações silvestres. A ciência recente, por isso, tem concentrado esforços no fruto e no seu potencial alimentar seguro, deixando o uso da raiz restrito ao conhecimento tradicional e à pesquisa farmacológica controlada.
O que pode mudar esse cenário
Reconhecer o valor nutricional da mama-cadela é descrito por quem estuda o tema como o primeiro passo para reposicionar a fruta como alimento relevante outra vez. Parte desse esforço está reunida na Tabela de Composição de Alimentos Regionais e da Biodiversidade Brasileira, iniciativa que cataloga espécies nativas pouco documentadas e abre caminho para que elas cheguem a políticas públicas de incentivo, feiras locais e, eventualmente, prateleiras de mercado.
Enquanto isso não acontece em escala nacional, a mama-cadela segue como um símbolo de um Cerrado que oferece muito mais do que o país aproveita: um bioma com espécies capazes de competir, em números, com frutas já consagradas, mas que dependem de reconhecimento científico e de mercado para deixar de ser exceção e passar a fazer parte da mesa do brasileiro.
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.
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