Uma árvore pode ter copa farta e tronco aparentemente firme e, ainda assim, representar risco real para quem passa por baixo dela. Em Curitiba, dois episódios recentes expuseram essa contradição. Em junho, uma jovem sofreu uma lesão grave na coluna ao ser atingida por um galho que se desprendeu na Praça Osório. Pouco mais de um mês depois, uma árvore de grande porte desabou sobre uma estação de transporte coletivo na Praça Rui Barbosa. Em nenhum dos dois casos havia sinal externo de deterioração visível no tronco.
É justamente para enxergar o que os olhos não alcançam que a prefeitura recorreu a um equipamento até então mais associado a hospitais do que a parques: a tomografia sônica portátil. A tecnologia usa ondas de som para criar uma espécie de raio-X colorido do interior do tronco, em duas e três dimensões, sem precisar cortar ou perfurar a árvore de forma extensa.
Como o equipamento enxerga o que está escondido na madeira
O funcionamento do tomógrafo se baseia em um princípio simples de física. Sensores são fixados ao longo da casca, em pontos escolhidos a partir de indícios visuais encontrados durante a vistoria de campo, como fungos, cicatrizes ou pequenas cavidades. Um técnico bate com um martelo em um dos sensores, e a onda sonora percorre o interior do tronco até ser captada pelos demais pontos.
A lógica por trás da leitura é direta: o som se propaga mais rápido em madeira densa e saudável do que em áreas ocas, rachadas ou em decomposição. Ao cruzar essas velocidades, o sistema gera um mapa detalhado da condição interna daquele trecho da árvore, funcionando de forma parecida com uma tomografia computadorizada em seres humanos. Diferente do penetrômetro, que faz apenas uma leitura pontual e linear com uma agulha fina, esse método entrega uma imagem completa da seção transversal do tronco.
Encontrar uma cavidade interna, porém, não significa automaticamente que a árvore precisa ser derrubada. O resultado do exame orienta decisões técnicas que buscam preservar o exemplar sempre que for seguro, como a poda de alívio de carga, que remove galhos estratégicos para reduzir a resistência ao vento, o escoramento ou a amarração da copa com cabos de aço.
Por que uma árvore saudável por dentro ainda pode cair
O dado mais contraintuitivo de toda essa análise é justamente este: a queda de árvores em área urbana raramente está associada a doenças no tronco. O verdadeiro ponto cego da avaliação está embaixo da terra, numa região onde o tomógrafo sônico não atua.
A maior parte dos colapsos registrados na capital paranaense ocorre por ruptura na raiz, não no tronco. O problema, na maioria das vezes, nasce de uma intervenção humana comum e aparentemente inofensiva: a reforma de calçadas. Quando o passeio é refeito sem respeitar o espaço de desenvolvimento do sistema radicular, parte das raízes acaba cortada ou comprimida. Sem ancoragem suficiente no solo, a árvore perde equilíbrio físico e pode cair por gravidade, mesmo estando cem por cento saudável por dentro.
Esse padrão não é exclusivo de Curitiba. Um levantamento que analisou 456 casos de queda de árvores no centro de São Paulo entre 2016 e 2018 chegou a uma distribuição reveladora: 46% dos incidentes foram causados por queda de galhos, 33% por falhas nas raízes e 21% por rompimento do tronco. O estudo também identificou a compactação do solo por pavimentação excessiva como um dos principais fatores por trás da perda de estabilidade das árvores, o mesmo mecanismo observado nas ruas curitibanas.
O desafio de cuidar de mais de 200 espécies diferentes
Outro fator que complica o diagnóstico em escala é a diversidade da arborização urbana. Curitiba abriga mais de 200 espécies de árvores, cada uma com densidade de madeira, fisiologia e resistência a esforços mecânicos diferentes. Um mesmo resultado numérico do tomógrafo pode indicar risco elevado em uma espécie e ser absolutamente normal em outra, o que torna a leitura técnica tão importante quanto o próprio equipamento.
A escolha de quais árvores passam pelo exame também segue critérios de prioridade: histórico de lesões aparentes, valor ecológico da espécie, como ocorre com a proteção dada às araucárias, e o nível de exposição do local. Uma araucária comprometida isolada dentro de um bosque representa um risco bem diferente de um exemplar no centro de uma praça com grande fluxo de pessoas.
O que isso muda para quem vive na cidade
A tecnologia resolve metade de um problema que tem duas causas distintas. Ela identifica com precisão o que está deteriorado dentro do tronco, mas não substitui o cuidado com o que acontece embaixo do solo. Para reduzir de fato o risco de quedas, a engenharia florestal defende que o avanço tecnológico precisa vir acompanhado de outra mudança, mais simples e mais barata: respeitar o espaço das raízes na hora de planejar calçadas, obras e reformas urbanas. Enquanto isso não acontecer, nem o diagnóstico mais avançado será suficiente para evitar que árvores saudáveis continuem caindo.
Foto: Isabella Mayer/SECOM
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.






