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Eco, Clima & Sustentabilidade

Cientistas descobrem que árvores comuns nas cidades ajudam a formar poluição por ozônio

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Cientistas descobrem que árvores comuns nas cidades ajudam a formar poluição por ozônio

Numa torre meteorológica de mais de cem metros de altura, no centro de Pequim, uma equipe de pesquisadores instalou sensores para medir, minuto a minuto, o que a cidade “respirava”. A intenção original era simples: entender o peso do trânsito e das fábricas na poluição por ozônio. O resultado surpreendeu os próprios cientistas. Uma parte relevante da química que forma o poluente vinha da vegetação urbana, plantada justamente para tornar o ar mais respirável.

O estudo, publicado na revista Science Advances e destacado pela Nature nesta semana, identificou que determinadas árvores liberam grandes volumes de compostos orgânicos voláteis. Essas substâncias reagem com óxidos de nitrogênio, emitidos principalmente por veículos e indústrias, na presença de luz solar. Dessa reação nasce o ozônio troposférico, um gás que inflama vias respiratórias e agrava quadros de asma.

Um poluente que a árvore não emite, mas ajuda a formar

O ozônio não sai diretamente de nenhum escapamento nem de nenhuma folha. Ele se forma no ar, numa cadeia de reações que depende de calor e luz. As árvores entram nessa equação através do isopreno, um composto natural produzido durante a fotossíntese. Em Pequim, cerca de 35% das árvores pertencem a espécies emissoras desse composto.

Quando os pesquisadores compararam volumes, a vegetação respondia por apenas 10% do total de compostos orgânicos voláteis lançados no ar, enquanto atividades humanas respondiam pelos outros 90%. A surpresa apareceu quando a equipe calculou não o volume, mas a reatividade química de cada substância. Nesse cálculo, a vegetação passou a responder por 52% do processo que leva à formação do ozônio, com o isopreno como principal responsável.

Salgueiros, álamos e um parente brasileiro que ninguém citou

Entre os maiores emissores de isopreno estão os gêneros Salix, os salgueiros, e Populus, os álamos. Ambos aparecem em paisagismo urbano ao redor do mundo, incluindo o Brasil: o salgueiro-chorão é comum em praças e jardins, e espécies de álamo são cultivadas na Região Sul.

O estudo chinês não avaliou cidades brasileiras, o que impede qualquer conclusão direta sobre o país. Ainda assim, há um dado que o artigo original não menciona e que interessa diretamente ao Brasil: o eucalipto está entre as espécies mais estudadas e mais citadas na literatura científica como emissor intenso de isopreno, comparável a salgueiros e álamos em algumas medições. O gênero cobre milhões de hectares de plantios comerciais no país e também aparece em arborização urbana em diversas regiões. Pesquisas conduzidas na Austrália, onde eucaliptos dominam a paisagem, já haviam associado essas árvores a aumentos expressivos de ozônio em cidades como Sydney, algo que o próprio estudo chinês cita ao estimar o potencial de outras megacidades.

O calor muda as regras do jogo

A temperatura funciona como um acelerador dessas reações. Segundo os cálculos da pesquisa, a 35°C a velocidade das reações químicas envolvendo compostos emitidos pela vegetação é sete vezes maior do que a 20°C. Como consequência, a contribuição das árvores para a formação de ozônio salta de 21% para 74% entre essas duas temperaturas.

O efeito se soma ao das ilhas de calor urbanas. Os pesquisadores estimam que um aumento típico de 0,8°C durante o verão pode elevar em cerca de 12% as emissões de isopreno das árvores de uma cidade. Isso acontece porque o estresse térmico faz árvores urbanas emitirem mais compostos voláteis do que indivíduos da mesma espécie que crescem em florestas, distantes do asfalto e do concreto.

No Brasil, esse tipo de dinâmica já é monitorado, ainda que por outro ângulo. A Cetesb acompanha diariamente os níveis de ozônio na Região Metropolitana de São Paulo, e os relatórios da companhia mostram que os dias de maior concentração do poluente coincidem justamente com temperaturas altas e forte incidência solar, o mesmo padrão climático que intensifica as emissões descritas no estudo chinês.

Cortar árvores não é a resposta

Os autores do estudo fazem questão de evitar uma leitura precipitada. Segundo eles, as árvores continuam essenciais para reduzir temperatura, armazenar carbono e sustentar biodiversidade nas cidades. O que muda é a forma de planejar a arborização: escolher espécies com menor potencial de emissão pode reduzir o problema sem abrir mão dos benefícios ambientais.

Os pesquisadores reforçam ainda que a maior parte dos compostos orgânicos voláteis presentes na atmosfera continua vindo de fontes humanas, como derivados de petróleo e solventes industriais. Reduzir emissões de óxidos de nitrogênio, os parceiros químicos que as árvores precisam para formar ozônio, segue sendo a estratégia mais eficaz para conter o poluente nas cidades.

O caso chinês abre uma pergunta que o planejamento urbano brasileiro ainda não respondeu: quais espécies estão sendo plantadas nas praças, avenidas e parques do país, e com que critério. Enquanto cidades como Pequim e Sydney já têm dados sobre o próprio verde urbano, o Brasil segue sem um mapeamento equivalente, mesmo cultivando em larga escala gêneros que a ciência já classificou entre os mais reativos.

  • Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.