Eco, Clima & Sustentabilidade
Áreas alagadas do Pampa filtram poluentes antes de chegarem aos rios; conheça o papel dos banhados na proteção da água usada na agricultura
Pesquisas em ecossistemas do sul do Brasil mostram que os banhados retêm sedimentos, nitrogênio e fósforo antes que a água alcance rios e lagoas, funcionando como uma barragem natural entre o campo e os cursos d’água.
Publicado
3 semanas atrásem
Por
Suzana Machado
Antes de qualquer rio do Pampa receber a água que escorre das lavouras, ela passa por um filtro que não tem motor, não usa produto químico e não pede manutenção. É o banhado, uma faixa de terra alagada que separa o campo cultivado do curso d’água e que, sem que a maioria das pessoas perceba, decide boa parte da qualidade hídrica de uma das regiões agrícolas mais importantes do país.
O bioma Pampa, restrito ao Rio Grande do Sul, ocupa cerca de 63% do território gaúcho e reúne campos nativos, matas ciliares, dunas e banhados distribuídos por três grandes bacias hidrográficas: a do Uruguai, a do Guaíba e a Litorânea. É também onde está a maior parte do aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do planeta.
Como a água é filtrada antes de chegar ao rio
Um estudo conduzido na região do estuário da Lagoa dos Patos usou modelagem hidrológica para quantificar esse serviço ambiental e chegou a um resultado que ajuda a entender por que essas áreas são tão relevantes: elas retêm quantidades expressivas de nitrogênio e fósforo, dois elementos que, em excesso, provocam a proliferação de algas e comprometem a qualidade da água consumida rio abaixo. Os pesquisadores foram além e colocaram um valor econômico nesse processo, calculando o custo que seria necessário para obter o mesmo resultado com estações de tratamento de esgoto.
Na prática, o mecanismo funciona como uma sequência de filtros biológicos. A água que escoa da lavoura carrega partículas de solo, resíduos de fertilizante e, em alguns casos, resquícios de agrotóxico. Ao atravessar a vegetação alagada do banhado, essa água perde velocidade, os sedimentos se depositam e as plantas aquáticas absorvem parte dos nutrientes dissolvidos. O que chega ao rio é uma água significativamente mais limpa do que a que entrou.
Um ecossistema que também segura enchente
A função de filtro é apenas uma parte da história. Os banhados se comportam como esponjas naturais durante períodos de chuva intensa, absorvendo grandes volumes de água e reduzindo o risco de inundações em áreas próximas. Depois, liberam essa água de forma gradual, o que ajuda a manter o nível dos rios mais estável mesmo em períodos de estiagem.
Esse papel ganhou peso simbólico depois das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, quando técnicos e pesquisadores voltaram a discutir publicamente o quanto a drenagem de áreas úmidas para abrir espaço a lavouras contribuiu para agravar o volume de água que chegou às cidades. A perda de banhados retira do sistema hídrico justamente a estrutura que amortece picos de cheia.
A pressão que reduz essa proteção ano após ano
O problema é que essa infraestrutura natural está encolhendo. Levantamentos sobre o bioma apontam que grandes extensões de banhado já foram convertidas em lavouras de arroz ao longo das últimas décadas, e mais recentemente a expansão da soja tem avançado sobre os mesmos territórios. Cada hectare de banhado drenado para plantio é um hectare a menos de filtragem natural, o que empurra parte do custo de despoluição da água para o poder público ou para o próprio produtor, que passa a lidar com solo menos estável e cursos d’água mais assoreados.
A legislação gaúcha tenta conter esse avanço. Um decreto estadual publicado em 2025 detalhou os critérios técnicos para classificar uma área como banhado dentro do Cadastro Ambiental Rural, exigindo solo alagado por pelo menos 150 dias no ano e a presença de vegetação característica desses ambientes. A medida busca dar mais precisão ao mapeamento dessas áreas e, com isso, facilitar sua proteção dentro das propriedades rurais.
O que isso representa para quem depende da água do Pampa
Preservar um banhado não é apenas uma escolha ambiental isolada. É manter em funcionamento um sistema que reduz o custo de tratar água, diminui o risco de enchente e sustenta a pesca e a agricultura que dependem de rios limpos. Cada metro de área úmida mantida intacta em uma propriedade rural do Pampa continua fazendo, de graça e todos os dias, um trabalho que substituiria estações de tratamento inteiras se precisasse ser feito por máquinas.
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.
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