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Fauna & Vida Silvestre

Pomerode declara guerra a uma árvore que mata abelhas silenciosamente há décadas

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Pomerode declara guerra a uma árvore que mata abelhas silenciosamente há décadas

Uma árvore que enfeitou praças e avenidas de dezenas de cidades brasileiras por sua floração vermelha exuberante está no centro de uma operação de retirada em Pomerode, em Santa Catarina. A Prefeitura iniciou o processo de remoção de exemplares de Spathodea campanulata, popularmente conhecida como bisnagueira, chama da floresta ou tulipeira do Gabão, instalados em espaços públicos do município. O motivo não tem relação com estética ou manejo urbano convencional: a espécie carrega em suas flores substâncias capazes de matar abelhas em contato direto.

A decisão de Pomerode não é isolada. Ela integra um movimento mais amplo de conscientização que ganhou força em Santa Catarina nos últimos anos, à medida que estudos científicos foram confirmando o que apicultores da região já observavam empiricamente há tempos: colônias inteiras enfraquecidas ou dizimadas logo após períodos de floração intensa da bisnagueira nas proximidades.

O mecanismo por trás da toxicidade

A Spathodea campanulata é originária da África Ocidental e chegou ao Brasil como planta ornamental, valorizada pelo crescimento rápido e pelas flores vistosas em tom alaranjado. O problema está justamente na estrutura floral que a torna tão atraente aos olhos humanos. Pesquisas conduzidas por instituições como a Universidade Federal da Bahia identificaram que o néctar, o pólen e a mucilagem presentes nas flores contêm compostos com propriedades inseticidas, capazes de causar mortalidade significativa entre diferentes espécies de abelhas.

Um levantamento realizado no campus de Ondina da UFBA analisou 86 flores coletadas ao longo de um período de floração de 15 dias e constatou algo revelador: praticamente todos os insetos encontrados mortos dentro das flores pertenciam à ordem Hymenoptera, sendo a quase totalidade deles abelhas. O estudo reforçou que espécies de Melipona, gênero de abelhas sem ferrão nativas do Brasil, estão entre as mais vulneráveis à substância.

O mecanismo de contaminação funciona de forma direta e também indireta. Ao pousar na flor em busca de néctar, a abelha entra em contato com as toxinas e pode morrer no próprio local, presa dentro da estrutura floral. Em outros casos, o inseto sobrevive ao contato inicial, mas carrega resíduos da substância de volta à colmeia, o que espalha o efeito tóxico para outras abelhas e compromete a colônia inteira ao longo do tempo.

Um problema que se agrava na entressafra

Um dado que amplia a gravidade da situação diz respeito à sazonalidade. Levantamentos técnicos indicam que o risco da bisnagueira para as abelhas se intensifica justamente em períodos de escassez de outras fontes de floração, como o final do outono e o início do inverno no sul do país. Nesses momentos, com menos opções de alimento disponíveis, as abelhas acabam recorrendo às flores da espécie tóxica com maior frequência, o que eleva a taxa de mortalidade registrada nas colônias próximas.

Esse padrão ajuda a explicar por que muitos apicultores catarinenses relatam perdas expressivas de colmeias justamente nos meses mais frios, período que coincide com o pico de floração da árvore em diversas regiões do estado. Um estudo conduzido no município de Santa Rosa do Sul, também em Santa Catarina, documentou a presença de milhares de colônias de Apis mellifera na região e apontou a bisnagueira como um dos principais fatores de risco identificados durante o mapeamento local da espécie.

A base legal que sustenta a remoção

A ação em Pomerode não é uma iniciativa isolada de gestão paisagística. Ela responde a um arcabouço legal construído em diferentes esferas de governo ao longo da última década. No âmbito municipal, a Lei nº 3.095/2020 proíbe expressamente a produção de mudas e o cultivo da bisnagueira dentro do território do município.

Em escala estadual, a Lei nº 17.694/2019 vai além e veda o plantio e a reprodução da espécie em todo o território catarinense, determinando ainda que os exemplares existentes em áreas públicas devem ser gradualmente substituídos. A norma também prevê a aplicação de multas para quem produzir ou manter mudas da árvore, com valores que podem chegar a R$ 1 mil por planta irregular.

Também existe uma camada federal no debate. O Conselho Nacional do Meio Ambiente, por meio da Resolução nº 496/2020, reconheceu formalmente o problema ao proibir a produção de mudas e o plantio da espécie, ao mesmo tempo em que incentivou a substituição dos exemplares já existentes por árvores nativas em todo o país.

Por que a substituição por espécies nativas importa

A remoção de cada árvore em Pomerode é acompanhada do plantio de uma espécie nativa da flora brasileira no mesmo local, o que garante a manutenção da cobertura vegetal e do paisagismo urbano sem repetir o risco ambiental. Essa escolha tem um efeito que vai além da estética: árvores nativas tendem a estabelecer relações ecológicas mais equilibradas com a fauna polinizadora local, oferecendo néctar e pólen que não representam ameaça às abelhas, aos beija-flores e a outros pequenos animais que dependem dessas flores para se alimentar.

O impacto da perda de polinizadores ultrapassa a saúde das colmeias. Abelhas nativas sem ferrão, especialmente as do gênero Melipona, desempenham papel fundamental na reprodução de diversas espécies vegetais brasileiras, incluindo plantas frutíferas de relevância econômica e ecológica. Quando uma fonte tóxica como a bisnagueira se espalha por um território, o efeito em cadeia pode alcançar toda a cadeia de polinização de uma região, com consequências que se estendem por anos.

Um alerta que ultrapassa os limites de Santa Catarina

Embora as leis específicas contra o cultivo da bisnagueira estejam concentradas em Santa Catarina, a espécie foi amplamente disseminada na arborização urbana de cidades em praticamente todas as regiões do Brasil ao longo do século passado, o que significa que o problema identificado em Pomerode tem potencial de repetição em muitos outros municípios que ainda não adotaram medidas equivalentes.

A experiência catarinense, sustentada por pesquisa científica consistente e por uma legislação que já amadureceu ao longo de mais de cinco anos, oferece um modelo replicável: identificação dos exemplares em áreas públicas, remoção planejada, substituição por espécies nativas e campanhas de conscientização junto à população para evitar que novas mudas sejam plantadas em terrenos particulares.

  • Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.
    Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.