Fauna & Vida Silvestre
O réptil que reduz o metabolismo em até 85% para sobreviver ao frio sem comer
Cientistas descobriram que o teiú brasileiro entra em um estado de dormência parcial nos meses frios, capaz de derrubar seu gasto energético a níveis próximos aos de um órgão em repouso profundo
Publicado
1 mês atrásem
Por
Suzana Machado
Um lagarto que pode passar quatro meses sem comer, sem se mover e praticamente sem gastar energia parece ficção. É rotina para o teiú (Salvator merianae), o maior lagarto nativo do Brasil, presente em todos os biomas do país.
Todo inverno, esse réptil de até 1,5 metro se recolhe em tocas subterrâneas e entra num estado de dormência que reduz seu metabolismo aeróbio entre 75% e 85%, segundo estudo do pesquisador José Eduardo de Carvalho sobre a fisiologia da espécie.
Um sono diferente da hibernação dos ursos
Cientistas evitam chamar esse processo de hibernação. O termo é reservado a animais endotérmicos, como ursos e outros mamíferos, capazes de regular a própria temperatura corporal internamente. O teiú é ectotérmico: depende do calor do ambiente para funcionar. Por isso, o fenômeno recebe o nome técnico de brumação.
A diferença não é apenas semântica. Durante a brumação, o teiú consegue despertar em dias mais quentes, sair da toca para tomar sol, beber água e, ocasionalmente, se alimentar. É um estado intermediário entre o sono profundo e a atividade normal, o que justifica o termo dormência parcial usado por biólogos para descrever o comportamento da espécie.
Três meses de preparação para quatro de imobilidade
Um levantamento conduzido pela Unesp acompanhou teiús ao longo de todo o ciclo sazonal e identificou três fases bem definidas: pré-hibernação entre abril e maio, quando o animal reduz gradualmente a atividade; o período de dormência propriamente dito entre junho e julho; e a retomada da atividade entre agosto e setembro, quando o lagarto volta a se alimentar e a se reproduzir.
Nesse intervalo, o animal sobrevive exclusivamente das reservas de gordura acumuladas durante o verão e a primavera, período em que come praticamente qualquer coisa que consiga capturar: insetos, frutos, ovos e pequenos vertebrados. É esse estoque que sustenta meses de jejum completo dentro da toca.
Por que o corpo desliga quase tudo
A escassez de comida não é o único gatilho. Segundo o biólogo Lucas Borges de Souza Arruda, do Instituto Água e Terra do Paraná, a queda de temperatura se combina com a falta de água disponível no ambiente para forçar essa desaceleração fisiológica. Durante a brumação, a circulação sanguínea diminui, a digestão para completamente e o sistema imunológico reduz sua atividade, um padrão observado em praticamente todas as espécies que hibernam ou brumam, das serpentes aos anfíbios.
O fenômeno não é exclusivo do teiú. Jabutis, iguanas e tartarugas adotam estratégias parecidas nas regiões mais frias do país, especialmente no Sul e Sudeste, onde o inverno alterna manhãs geladas com tardes amenas.
O que a ciência humana aprende observando o teiú
Esse processo interessa a mais do que biólogos de campo. Pesquisadores da Unesp e da Unicamp têm estudado a fisiologia da dormência em teiús para entender mecanismos de proteção celular contra a falta de oxigênio, com potencial aplicação em pesquisas sobre isquemia e envelhecimento precoce em humanos. A lógica é direta: um animal que reduz drasticamente seu consumo de oxigênio sem sofrer danos teciduais guarda pistas sobre como o corpo humano poderia, em tese, resistir melhor a situações de baixa oxigenação, como um AVC.
Proteção legal e cuidado com quem encontra um teiú dormindo
O teiú integra o Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção, o que exige controle sobre seu comércio internacional. Mexer em uma toca, capturar ou perturbar o animal durante esse período configura crime ambiental previsto no artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais.
Institutos estaduais recomendam que, ao encontrar um teiú em brumação, a orientação seja simples: observar à distância e deixar o animal completar seu ciclo natural. Além de papel relevante como dispersor de sementes, a espécie mantém o equilíbrio de populações de insetos e pequenos animais nos ecossistemas onde habita.
Quando as temperaturas voltarem a subir na primavera, o mesmo lagarto que passou meses imóvel sob a terra vai reaparecer magro, ativo e pronto para recompor as reservas de energia que o mantiveram vivo durante todo o inverno.
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.
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