Existe um cacto que demora até uma década para dar sua primeira flor e, quando finalmente floresce, a flor desaparece em poucas horas. Esse é o cacto parafuso, uma das espécies mais procuradas por quem quer dar um toque escultural ao jardim ou à varanda.
O que chama atenção de cara é o caule: em vez de crescer reto como a maioria dos cactos colunares, ele se enrola sobre o próprio eixo, formando sulcos espiralados que lembram, literalmente, um parafuso gigante. Já cultivei exemplares que se tornaram peça central de projetos de paisagismo só pela silhueta, sem precisar de nenhuma flor para chamar a atenção.
De onde vem essa espiral
O cacto parafuso é originário de regiões áridas da América do Sul, com ocorrência relatada no Peru, na Bolívia e em áreas do Brasil. Nesses locais, ele cresce exposto a sol forte, pouca chuva e solos pobres, características que explicam por que se adapta tão bem a vasos e jardins secos no Brasil urbano.

Um ponto que vale esclarecer: a forma espiralada não é a espécie em si, e sim uma mutação genética fixada por cultivo, conhecida cientificamente como Cereus forbesii ‘Spiralis’ (também encontrada na literatura como Cereus hankeanus ‘Spiralis’, ou ainda citada popularmente como Cereus peruvianus ‘Spiralis’). Na prática, isso significa que, se você plantar uma semente dessa planta, boa parte dos filhotes nasce com caule reto, sem a espiral. Só a propagação por estaca garante a característica.
Popularmente, ouço diferentes nomes para ele: cacto peruano, cacto colunar, cacto gigante e cacto torre. Todos se referem à mesma planta.
Características que tornam essa espécie única
Na natureza, o cacto parafuso pode superar 10 metros de altura. Em cultivo doméstico, raramente passa de 3 metros, e mesmo assim leva muitos anos para chegar lá, já que seu crescimento é considerado lento para os padrões de cactáceas.
O caule tem coloração verde-escura, sulcos profundos e espinhos curtos, mais discretos do que os de outros cactos colunares. As folhas são reduzidas a escamas quase imperceptíveis, e o sistema radicular é superficial e ramificado, adaptado para captar água rapidamente em solos áridos.
A floração costuma surgir só depois de vários anos de cultivo, e pode levar até uma década para acontecer pela primeira vez. Quando chega, a planta produz flores grandes, com cerca de 15 centímetros de diâmetro, que se abrem à noite e liberam um perfume suave. É um comportamento comum entre cactos colunares: a abertura noturna atrai polinizadores como mariscos e morcegos em seu habitat original. No dia seguinte, a flor já começa a murchar, e em poucos dias cai por completo.
Onde essa planta se encaixa no jardim
É uma das plantas mais versáteis que já trabalhei em projetos de paisagismo justamente por aceitar tantos formatos de uso. Em ambientes internos, funciona como peça de destaque em salas e varandas bem iluminadas. Em jardins externos, pode ser cultivada em vasos grandes, canteiros, bordaduras ou como planta isolada, criando um ponto focal que contrasta com vegetação mais densa.

Em projetos de jardins secos e xerojardinagem, o cacto parafuso costuma aparecer ao lado de agaves e outras suculentas de grande porte, formando composições que pedem pouca manutenção e ainda assim têm presença visual forte.
Como cuidar do cacto parafuso no dia a dia
Apesar da aparência exótica, essa é uma planta de manutenção simples, desde que alguns pontos básicos sejam respeitados.
Substrato. O cacto parafuso precisa de um substrato bem drenado e arejado, com boa proporção de matéria orgânica. Uma mistura de terra, areia grossa e húmus de minhoca funciona bem, assim como os substratos específicos para cactos e suculentas vendidos prontos. O ideal é manter o pH entre 6 e 7.
Rega. Por ser uma planta adaptada à seca, o excesso de água é o maior risco para ela, muito mais do que a falta. A regra é regar só quando o substrato estiver completamente seco, nunca por um calendário fixo. Na prática, isso costuma significar uma rega semanal no verão e mensal no inverno, mas o clima da sua região e o tamanho do vaso alteram esse ritmo.
Adubação. Durante a primavera e o verão, período de crescimento ativo, uma adubação equilibrada a cada dois meses ajuda bastante na formação de caule e na futura floração. Tanto adubos orgânicos, como torta de mamona, quanto um NPK balanceado funcionam, sempre seguindo a dosagem indicada na embalagem.
Luz. Essa espécie quer sol pleno, com pelo menos seis horas de luz direta por dia. O ideal é posicioná-la onde receba sol da manhã ou da tarde. Exposição direta ao sol forte do meio-dia em períodos muito secos pode causar queimaduras no caule, principalmente em plantas ainda jovens.
Poda. Podas não são obrigatórias, mas ajudam a controlar o tamanho ou remover partes danificadas. Corte sempre com ferramenta afiada e esterilizada, em diagonal, próximo a um nó, e finalize passando canela em pó ou um fungicida sobre o corte para evitar infecções.
Multiplicação, segurança e outros pontos práticos
Quem quer multiplicar o cacto parafuso tem dois caminhos. Por semente, o processo é mais lento e gera plantas com maior variação genética, incluindo exemplares sem a espiral característica. Por estaquia, basta cortar um pedaço do caule, deixar secar por alguns dias até formar um calo na ponta, e depois plantar em substrato levemente umedecido. Esse segundo método é mais rápido e garante uma réplica fiel da planta original.
Sobre segurança, o cacto parafuso não é tóxico e pode ser cultivado em casas com crianças e animais de estimação sem problema. O cuidado real está nos espinhos, que podem causar ferimentos ou reações alérgicas em pele sensível, então vale manter distância ao manusear a planta sem luvas.
Em apartamentos, ele se adapta bem contanto que o vaso acompanhe o crescimento ao longo dos anos e fique numa janela ou varanda com boa incidência solar. Regar com moderação e adubar nos meses certos são os fatores que mais influenciam se a planta vai florescer ou ficar estacionada por anos.
O que mais me encanta nesse cacto é justamente essa combinação pouco comum: uma planta de crescimento lento, quase contemplativo, que exige paciência de quem cultiva e devolve isso com uma arquitetura natural que nenhuma outra espécie reproduz. Quem decide incorporar um exemplar ao jardim está, na prática, investindo num projeto de longo prazo, e é exatamente isso que torna o resultado final tão gratificante.
Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.
Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.






