Fauna & Vida Silvestre
No escuro total, essa coruja não precisa ver a presa: só ouvir
Pesquisas mostram que algumas corujas acertam a posição de uma presa com margem de erro menor que um grau, usando apenas as diferenças mínimas de som captadas por cada ouvido
Publicado
1 mês atrásem
Por
Suzana Machado
Uma coruja pode capturar um roedor em movimento dentro de um galpão completamente às escuras, sem qualquer fonte de luz, sem enxergar a presa em nenhum momento do ataque. Esse comportamento intrigou pesquisadores por décadas até ser explicado com precisão: para essas aves, o som funciona como um mapa tridimensional do ambiente.
A corujinha-do-mato, presente em quase todo o território brasileiro, ilustra bem esse mecanismo. Ativa principalmente à noite, ela passa o dia escondida em ocos de árvores ou cupinzeiros e sai ao entardecer para caçar grandes artrópodes, como gafanhotos, aranhas e mariposas, além de pequenos vertebrados. Segundo o WikiAves, a espécie costuma ser mais ouvida do que vista, mesmo quando está a poucos metros de um observador.
Um sistema auditivo fora do padrão
O segredo está na estrutura dos ouvidos. Em várias espécies de coruja, as aberturas auditivas não ficam alinhadas simetricamente na cabeça, como acontece na maioria das aves. Uma fica ligeiramente mais alta que a outra. Essa diferença de posição faz com que o som de uma presa chegue a cada ouvido em um instante levemente distinto e com uma intensidade levemente diferente.
O cérebro da coruja processa essa diferença de milissegundos e a converte em uma coordenada espacial precisa, indicando altura e direção exatas do som. O disco facial, aquela camada de penas em formato de prato que dá às corujas sua aparência característica, funciona como uma antena parabólica biológica: capta as ondas sonoras e as direciona para os ouvidos, ampliando sinais que o ouvido humano jamais perceberia.
O experimento que comprovou esse funcionamento foi conduzido pelo zoólogo Roger Payne, então na Cornell University. Ele soltou um camundongo puxando uma bolinha de papel amassado em uma sala totalmente escura, eliminando qualquer pista visual ou olfativa. A coruja atacou o papel, não o camundongo, provando que a localização dependia exclusivamente do som produzido pelo movimento.
Precisão que ultrapassa a capacidade humana
Estudos publicados no Journal of Experimental Biology mostraram que corujas treinadas para atacar um alto-falante escondido erram a posição da fonte sonora em menos de um grau, tanto na horizontal quanto na vertical. Para efeito de comparação, um ouvido humano treinado costuma errar entre cinco e dez graus ao tentar localizar um som sem pistas visuais. A diferença é o equivalente a acertar o centro de uma moeda a dez metros de distância, no escuro, apenas pelo barulho que ela faz ao cair.
Outro fator amplia essa vantagem: o voo silencioso. As penas de muitas espécies de coruja têm bordas serrilhadas que quebram o fluxo de ar e eliminam o ruído característico do bater de asas. Isso significa que a própria coruja não interfere no som que está tentando captar, e a presa não escuta a aproximação do predador até que seja tarde demais.
Por que isso importa além da curiosidade
Esse tipo de adaptação tem interessado engenheiros de acústica e pesquisadores de próteses auditivas. A forma como o cérebro da coruja calcula diferenças mínimas de tempo entre dois sinais sonoros inspirou modelos usados no desenvolvimento de sistemas de localização sonora em robótica e em dispositivos de audição direcional. O mecanismo que permite a uma ave do tamanho de uma xícara caçar no escuro absoluto virou, décadas depois, referência técnica fora do mundo natural.
No Brasil, com cerca de 70 espécies de corujas catalogadas, esse tipo de caça silenciosa e guiada por som ocorre todas as noites em quintais, praças e áreas de mata próximas a centros urbanos, geralmente sem que ninguém perceba. A corujinha-do-mato costuma se aproximar de postes de iluminação justamente porque ali se concentram os insetos que compõem boa parte de sua dieta, o que torna esse comportamento observável até em bairros residenciais, para quem sabe prestar atenção ao som certo no momento certo.
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.
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