Jardinagem & Cuidados
Colar de golfinho: a planta que não existe na natureza e conquistou colecionadores
Fruto de um cruzamento entre duas suculentas africanas, a Curio peregrinus ganhou fama pelas folhas em formato de golfinho e se tornou uma das plantas mais procuradas por colecionadores no Brasil
Publicado
60 minutos atrásem
Por
Mel Maria
Tenho uma muda de colar de golfinho pendurada na entrada da Mel Garden há quase dois anos, e ainda hoje vejo clientes pararem na frente do vaso para conferir se aquilo é mesmo uma planta. As folhas curvas, com a barbatana e o biquinho bem marcados, enganam qualquer um à primeira vista. Só que o mais curioso nessa suculenta não é a aparência. É a origem.
A colar de golfinho, cujo nome científico mais atual é Curio peregrinus (ainda é comum encontrá-la catalogada como Senecio peregrinus), não é uma espécie que a natureza criou sozinha. Ela nasceu de um cruzamento entre duas outras suculentas africanas, a rabo de burro (Curio rowleyanus) e a suculenta cachorro quente (Curio articulatus). Isso significa que não existe, em lugar nenhum do mundo, uma população selvagem dela crescendo espontaneamente. Toda colar de golfinho que existe hoje descende de mudas cultivadas e propagadas por colecionadores e viveiros.
Esse detalhe muda a forma como eu enxergo essa suculenta na loja. Cada muda que vendo carrega, de alguma forma, uma genética que só existe porque alguém decidiu cruzar essas duas plantas de propósito. E o resultado foi tão particular que hoje ela é considerada uma das suculentas mais disputadas entre quem coleciona espécies raras.
Por que as folhas parecem golfinhos
As folhas da colar de golfinho crescem curvas, com uma pequena saliência lateral que lembra a nadadeira de um golfinho saltando fora d’água. Quando a planta amadurece e os ramos começam a pender, o efeito visual fica ainda mais evidente, como se um pequeno cardume estivesse suspenso no ar.

Existe também um detalhe funcional por trás desse formato que poucas pessoas conhecem. Cada folha tem uma espécie de janela translúcida na ponta, que permite que a luz penetre até o interior do tecido vegetal. Esse mecanismo é uma herança das plantas de origem, adaptadas a regiões áridas do sudoeste da África, onde a economia de água e o aproveitamento máximo da luz solar fazem diferença na sobrevivência. Na prática, essa característica ajuda a explicar por que a planta tolera bem ambientes de luz indireta dentro de casa.
Como eu cultivo a minha
O substrato é o primeiro ponto de atenção. Uso uma mistura de terra vegetal com substrato para cactos e suculentas, sempre buscando um solo leve e bem drenado. Isso evita o maior problema que vejo em quem começa a cultivar essa espécie, que é o apodrecimento das raízes por excesso de umidade parada no vaso.
A rega, no entanto, tem uma particularidade que costuma surpreender quem já cultiva outras suculentas. Diferente da maioria das espécies do gênero, que preferem secar completamente entre uma rega e outra, a colar de golfinho se dá melhor quando o substrato permanece levemente úmido. Regar com mais frequência, em quantidades menores, funciona melhor do que deixar o solo secar por completo, principalmente em ambientes internos, onde o ar costuma ser mais seco do que no jardim externo.
Sobre luz, aprendi da forma mais difícil, queimando duas mudas no primeiro ano, que sol direto e prolongado não é boa ideia. Mantenho meus vasos em meia sombra, com boa luminosidade indireta durante o dia. Em dias muito quentes de verão em Curitiba, costumo até afastar os vasos da janela por algumas horas.
Na adubação, aplico um fertilizante balanceado para suculentas uma vez por mês, apenas durante a primavera e o verão, período de crescimento mais ativo. No outono e inverno, suspendo completamente a adubação, porque a planta reduz o metabolismo e não aproveita os nutrientes da mesma forma.
Um detalhe que poucos contam: ela também floresce
Um ponto que raramente aparece nos conteúdos sobre essa suculenta é que ela floresce. As flores são pequenas, brancas, reunidas em pompons compactos com filamentos que variam entre o dourado e o vermelho intenso. Na minha experiência, a floração costuma aparecer em plantas mais maduras, quando os ramos já atingiram bom comprimento e a planta está em condições ideais de luz. Não é o principal atrativo da espécie, mas é uma recompensa e tanto para quem cultiva com paciência.
Outro ponto que trato sempre com meus clientes na loja é que a colar de golfinho é levemente tóxica se ingerida em grande quantidade, então vale atenção redobrada em casas com gatos e cachorros curiosos, principalmente com filhotes que mordiscam tudo.
Propagação: a forma mais fácil de multiplicar a coleção
A propagação por estaquia é, sem dúvida, o método que mais recomendo. Corto um ramo saudável, deixo a extremidade descansar por dois ou três dias em local seco e arejado, até formar uma pequena crosta na região do corte, e só então planto no substrato. Esse período de cicatrização reduz bastante o risco de apodrecimento e aumenta a taxa de sucesso do enraizamento.
Em condições boas de luz e rega, os ramos podem crescer bastante ao longo de um ano, o que torna essa suculenta uma excelente opção para quem quer preencher vasos suspensos com rapidez e sem gastar muito.
O que essa planta representa
Cultivar a colar de golfinho é, de certa forma, cultivar um pedaço da história da jardinagem ornamental. Ela não existiria se alguém, em algum viveiro, não tivesse decidido experimentar um cruzamento entre duas suculentas comuns. O resultado virou uma das plantas mais fotografadas e procuradas entre colecionadores, e ainda assim segue relativamente rara nas floriculturas brasileiras.
Na Mel Garden, ela costuma ser a primeira suculenta que os clientes escolhem quando querem começar uma coleção com identidade própria. E, depois de cultivar a minha por dois anos, entendo perfeitamente o motivo.
Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.
Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.
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3 Comments
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Delvany Fernandes Fonseca
2 de janeiro de 2023 at 19:50
Amo,suculentas,quero mais dicas para cuidá-las
Filomena Menyon Marqui
21 de janeiro de 2023 at 01:24
As folhas do meu colar de golfinhos estao nascendo abertas, perdendo o formato inicial???
Porque acontece isso???
Luciana
6 de fevereiro de 2023 at 12:35
A minha estava acontecendo isso . Troquei a terra. Coloquei fertilizante e deixo agora pegando o sol da manhã. Está linda agora.