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Fauna & Vida Silvestre

Praias de nidificação de tartarugas marinhas dependem da temperatura da areia para definir o sexo dos filhotes

Sem cromossomos sexuais, filhotes de tartaruga marinha nascem machos ou fêmeas conforme a temperatura da areia onde os ovos incubam, e o aquecimento das praias já está alterando essa proporção em populações de várias partes do mundo.

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Praias de nidificação de tartarugas marinhas dependem da temperatura da areia para definir o sexo dos filhotes

Nos últimos quatro verões, pesquisadores que acompanham ninhos de tartarugas marinhas na Flórida não encontraram um único macho entre os filhotes analisados. Todos nasceram fêmeas. O fenômeno não tem relação com genética nem com escolha reprodutiva dos pais. A explicação está na areia onde os ovos passaram os últimos meses antes da eclosão.

Diferente da maioria dos mamíferos, as tartarugas marinhas não definem o sexo dos filhotes por cromossomos. O mecanismo é ambiental: a temperatura de incubação do ninho determina se o embrião se desenvolve como macho ou como fêmea. Cientistas chamam esse processo de determinação sexual dependente da temperatura, presente também em jacarés e em outros répteis.

Como a areia funciona como relógio biológico

Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, ovos incubados abaixo de 27,7°C tendem a gerar machos, enquanto temperaturas acima de 31°C produzem fêmeas. Entre esses dois extremos existe uma faixa de transição, na qual as duas proporções aparecem misturadas dentro do mesmo ninho. Fora de um intervalo mais amplo, entre 24°C e 33°C, os embriões simplesmente não completam o desenvolvimento.

Essa margem estreita explica por que qualquer variação no clima local tem peso direto sobre a espécie. Um verão poucos graus mais quente já é suficiente para inclinar a proporção de nascimentos quase inteiramente para um lado.

A cor da areia também entra na conta

A temperatura de um ninho não depende só do clima da região. A cor da praia influencia diretamente quanto calor a areia retém. Um levantamento que reuniu dados entre 1854 e 2013 mostrou que praias de areia clara produziram cerca de 55% de fêmeas, enquanto praias de areia escura, que absorvem mais calor solar, chegaram a quase 88% de fêmeas nas mesmas condições climáticas. Praias vizinhas, a poucos quilômetros de distância, podem gerar populações com proporções de sexo completamente diferentes apenas pela tonalidade do solo.

O que o aquecimento global muda nessa equação

Com o planeta mais quente, o padrão observado na Flórida deixou de ser exceção. Um estudo conduzido na Grande Barreira de Corais, na Austrália, comparou duas populações de tartarugas-verdes em extremos opostos do recife. A população da região mais quente, ao norte, apresentou proporção de fêmeas muito superior à da população do sul, onde as praias são mais frescas.

Projeções feitas para populações de tartaruga-cabeçuda na ilha do Maio, em Cabo Verde, seguem a mesma direção. Usando os cenários climáticos do IPCC, pesquisadores estimam que o aumento da temperatura global deve elevar ainda mais a proporção de fêmeas nas próximas décadas, além de aumentar a mortalidade de filhotes em ninhos expostos a calor extremo.

Há também um efeito menos discutido: mesmo que as tartarugas consigam se adaptar reproduzindo em meses mais frios, a queda na taxa de nascimentos continuaria acontecendo em boa parte das áreas de desova estudadas. Adaptar o calendário reprodutivo ajuda, mas não resolve o problema sozinho.

O risco para a espécie não está apenas na falta de machos hoje. Está na manutenção da diversidade genética das próximas gerações. De cada mil filhotes de tartaruga marinha que nascem, apenas um ou dois sobrevivem até a fase adulta. Se a maior parte dessa fração reduzida for fêmea, a base genética disponível para reprodução futura encolhe na mesma proporção.

Conservação: o que já está sendo testado

Estações de pesquisa espalhadas por praias brasileiras, incluindo Rio Grande do Norte, Sergipe, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro, monitoram a temperatura de ninhos há mais de uma década para entender como diferentes regiões respondem ao aquecimento. Entre as estratégias já testadas em outras partes do mundo estão o sombreamento artificial de ninhos, a redução intencional da temperatura de incubação por meio de irrigação controlada e, em casos mais críticos, a realocação de ovos para áreas com temperatura mais equilibrada.

Nenhuma dessas medidas reverte o aquecimento das praias. Funcionam como um paliativo enquanto a temperatura média dos oceanos e do ar continua subindo. A pergunta que resta para os próximos anos é até que ponto essas populações conseguem se ajustar antes que a proporção de machos se torne baixa demais para sustentar a reprodução em escala viável.

  • Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.