Comportamento
O Brasil bateu recorde de mulheres na liderança — só que sozinhas
A presença feminina na alta liderança das empresas brasileiras nunca foi tão alta. E, ainda assim, ela nunca foi tão solitária.

Um levantamento da B3 em parceria com o Instituto Locomotiva mostra que 51% das companhias listadas na bolsa têm hoje pelo menos uma mulher na diretoria estatutária. Nos conselhos de administração, o número sobe para 70%. São os melhores índices desde que a bolsa começou a medir esse dado, em 2021.
O problema aparece quando se olha com mais cuidado para dentro desses números. Das empresas que têm mulheres na diretoria, um terço tem exatamente uma. Só 18% têm duas ou mais. Nos conselhos, o padrão se repete: 36% das companhias têm uma única conselheira, e apenas 34% chegam a ter duas. A pesquisa analisou 290 companhias listadas por meio de seus formulários de referência, e o retrato que aparece é claro: entrar na sala deixou de ser exceção. Dividir a mesa com outra mulher, essa ainda é.
Um recorde que mascara um teto
Entre 2021 e 2026, a porcentagem de diretorias estatutárias com ao menos uma mulher saltou de 39% para 51%. Nos conselhos, o salto foi de 55% para 70%. São avanços reais, e vale reconhecer isso.
Só que o próprio critério usado para medir o progresso virou um limite disfarçado. Basta uma mulher no colegiado para a empresa entrar na estatística de “presença feminina”, mesmo que o restante da mesa continue majoritariamente masculino. O indicador comemora a porta aberta, mas não pergunta quantas cadeiras existem do outro lado dela.
O gargalo começa muito antes da diretoria
Explicar essa solidão exige olhar para trás na carreira, não só para o topo dela. O relatório Women in the Workplace 2025 mostra que, para cada 100 homens promovidos ao primeiro cargo de gestão, apenas 93 mulheres recebem a mesma oportunidade. Já nos cargos de C-level, elas ocupam 29% das posições.
Esse desequilíbrio na base reduz, anos depois, o número de mulheres com repertório para disputar uma vaga de diretoria ou conselho. O Report de Remuneração Diretoria Executiva 2026, produzido pela consultoria Evermonte a partir da análise de 1.976 executivos e C-levels no país, encontrou 85,4% dos cargos ocupados por homens contra 14,4% por mulheres. Os dois estudos apontam para a mesma conclusão: o recorde no topo reflete quem já venceu essa corrida, não um fluxo de carreira corrigido em cada etapa anterior.
A régua da governança está baixa demais
A cobrança por diversidade nas empresas deixou de ser discurso de área de RH e virou critério de governança. A Medida ASG 1 da B3 recomenda que as companhias tenham ao menos uma mulher e uma pessoa de outro grupo sub-representado como membro titular do conselho ou da diretoria estatutária, sob o modelo “pratique ou explique”.
Só que essa recomendação se cumpre com uma cadeira só. Uma mulher no colegiado já atende à régua de governança, mesmo com o restante da diretoria ou do conselho seguindo predominantemente masculino. A meta que deveria empurrar o mercado para o equilíbrio acaba, na prática, autorizando a solidão.
Formar a segunda, a terceira, a quarta cadeira
Se o gargalo está em transformar presença isolada em representatividade de fato, a saída passa por preparar mais mulheres com repertório técnico de governança, não apenas com a bagagem executiva que muitas já têm.
Existem hoje programas voltados exatamente para esse ponto: capacitação de executivas C-level, diretoras e herdeiras que querem atuar em conselhos de administração ou construir uma relação mais estratégica com o board das próprias empresas. Esse tipo de formação costuma reunir governança corporativa, gestão de riscos, leitura estratégica de performance e simulações de reuniões de conselho a partir de casos reais, com carga horária extensa e encontros presenciais recorrentes.
Essa frente de trabalho conversa diretamente com o que os números da B3 revelam. O mercado já não precisa mais ser convencido de que mulheres devem ocupar posições de comando. O desafio agora é outro: garantir que existam candidatas preparadas o suficiente para ocupar a segunda cadeira, a terceira, a quarta, ao lado da primeira que já chegou lá.
Enquanto o indicador de presença segue batendo recordes ano após ano, o número que o mercado vai precisar acompanhar de perto é outro: quantas empresas deixam de ter apenas uma mulher no topo.

Social Midia e crítica de cultura pop, Renata domina o mundo das fofocas e novelas como ninguém. Com uma trajetória em grandes portais de entretenimento, ela traz uma visão divertida e crítica sobre os bastidores do universo das celebridades e das tramas de novelas. Renata é conhecida pelo seu tom bem-humorado e envolvente, que leva os leitores a se sentirem parte dos acontecimentos, discutindo os detalhes de suas novelas favoritas e compartilhando curiosidades imperdíveis das estrelas.





