Comportamento
Por que você não consegue parar de roer as unhas? entenda a emoção por trás do hábito e o que o corpo tenta dizer

Você roeu as unhas hoje sem nem perceber? Aquela reunião tensa, o episódio da série que deixou o coração na boca, o trânsito parado: a mão vai parar na boca no piloto automático, e quando você repara, já era. Quem convive com a onicofagia, nome técnico do hábito de roer as unhas, conhece a cena de cor. Você promete que foi a última vez, passa esmalte amargo, coloca curativo, e minutos depois lá está a mão de volta ao mesmo lugar.
A emoção que a mentora de terapeutas Manuely Martineli aponta como origem desse comportamento é a raiva que não encontrou saída. Entender isso muda o jeito de olhar para as suas unhas curtinhas e explica por que a força de vontade sozinha rende tão pouco.
Um comportamento repetitivo que nasce na infância
O hábito costuma aparecer cedo. Na infância, o sistema nervoso ainda está aprendendo a lidar com o que sente, e nem toda emoção encontra palavras para sair. O corpo, esperto como só ele, inventa um jeito de dar conta do recado.
Manuely explica esse ponto de partida: “O que ninguém investiga é que roer unhas é classificado pelo DSM-5 como um comportamento repetitivo focado no corpo. Ele afeta de 20 a 30% da população mundial e, na maioria dos casos, teve início na infância, numa fase em que o sistema nervoso ainda não tinha recursos pra processar certas emoções. O corpo encontrou esse gesto uma saída para o que não cabia em palavras.”
O número impressiona. Até 30% da população mundial convive com o mesmo hábito, o que coloca o roer as unhas entre os comportamentos repetitivos focados no corpo mais comuns que existem. Se você achava que a sua mania era esquisitice só sua, a estatística está aqui para desfazer essa ideia.
A raiva engolida que o corpo transforma em gesto automático
Chegou a parte que muda o jogo. Para Manuely, a raiva que ficou sem destino sustenta o hábito: “A situação que foi engolida em silêncio, o limite que não pôde ser colocado, a criança que aprendeu que sentir raiva era perigoso, proibido ou errado, e o corpo transformou essa contenção num gesto automático e repetitivo.”
Lembra das frases que muita gente ouviu na infância? “Engole o choro”, “menina educada não grita”, “para com essa birra”. A criança aprendeu rápido que sentir raiva dava problema. A emoção, porém, continuou ali, com toda a energia, procurando um destino. As mãos e a boca assumiram o posto.
Como a raiva reprimida aparece na vida adulta
O tempo passa, a criança cresce, e o gesto fica. Manuely resume o que acontece com quem chega à vida adulta carregando isso: “O adulto que ainda carrega isso continua usando as próprias mãos pra descarregar o que não aprendeu a expressar.”
Agora pare e pense: quando as suas unhas mais sofrem? Depois de dizer “sim” a um pedido que você queria recusar? Logo após uma conversa em que alguém passou do limite e você respondeu com um sorriso? Ao ler aquela mensagem irritante e devolver um “tudo bem!” com exclamação e tudo? Dessa forma, cada unha roída funciona como um pequeno mapa dos assuntos que ficaram engasgados.
Por que o esmalte amargo e a promessa de segunda-feira falham
Voltemos ao ritual das promessas. Manuely faz a pergunta que quase todo mundo já se fez: “Você já tentou parar sozinha, mas não conseguiu? Já usou o esmalte amargo, curativo, prometeu que seria a última vez e minutos depois está fazendo de novo sem nem perceber?”
A resposta está na função do gesto. O esmalte amargo age na superfície e incomoda o paladar. A raiva que alimenta o hábito segue ativa por baixo, e o corpo continua precisando de uma válvula. Quando a válvula é bloqueada sem uma alternativa, a pressão procura outro caminho. Aliás, a troca de comportamento é comum: a pessoa para de roer, mas passa a arrancar cutículas, mexer na pele ao redor das unhas ou morder a bochecha por dentro.
Logo, a pergunta mais útil é: o que eu estou sentindo agora?
Como dar outro destino à raiva e começar a mudar o hábito
Reconhecer a emoção já ajuda bastante. Quando perceber a mão a caminho da boca, pause e dê nome ao que sente, em voz alta ou num caderninho: “estou irritada”, “fiquei chateada com aquilo”. Parece simples demais, mas nomear a emoção tira o corpo do modo automático.
O movimento físico entra como aliado de peso. Uma caminhada em ritmo forte, uma dança na sala com a playlist no volume máximo ou uma aula de treino descarregam a energia que antes ia direto para os dedos. Conversas honestas, com limites colocados na hora em que aparecem, impedem que a raiva vire estoque. Escrever tudo o que você gostaria de ter dito, sem enviar para ninguém, funciona como ensaio e alivia a pressão.
O autocuidado com as mãos também entra no pacote. Hidratar as cutículas e manter as unhas com um formato de que você goste ajuda a criar uma relação mais carinhosa com elas, e a manicure semanal vira um lembrete visual de que aquelas mãos merecem atenção.
Quando procurar ajuda profissional
Se o hábito machuca a pele, causa dor, sangramento ou aparece com muita intensidade, a terapia é o caminho mais seguro. O acompanhamento psicológico ajuda a investigar a origem do comportamento e a construir formas novas de expressar o que sempre ficou guardado. Feridas ao redor da unha que incham, ficam vermelhas ou inflamam pedem também uma avaliação com dermatologista.
Suas mãos têm algo a dizer
Na próxima vez que se flagrar roendo as unhas, troque a bronca interna por uma pergunta: o que eu engoli hoje? A resposta pode surpreender, e ela é o ponto de partida mais honesto para mudar o hábito.
E você, em qual situação as suas unhas mais sofrem: na reunião, no trânsito ou depois de engolir um sapo?

Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por animais. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, à proteção animal e comanda sua própria loja (MF Feminina). No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets e dicas de beleza.







