Comportamento
Além da trend: como clubes do livro e grupos de networking estão criando novas conexões entre mulheres

Fazer amigos na vida adulta é uma das tarefas mais difíceis que existem. Ninguém avisa isso na infância, quando bastava dividir o lanche no recreio. Depois dos 25, 30 anos, formar um novo círculo de convivência exige esforço, tempo e, principalmente, um motivo para o encontro acontecer. É exatamente esse vazio que os clubes do livro femininos e os grupos de networking entre mulheres vêm preenchendo em cidades de todo o país.
O fenômeno não é passageiro. Ele nasce de uma necessidade concreta: recomeçar a vida social em uma nova cidade, sair do isolamento das telas ou simplesmente encontrar pessoas que compartilhem os mesmos interesses. Muitos desses grupos começaram pequenos, entre amigas ou colegas de trabalho, e hoje reúnem centenas de mulheres em grupos de WhatsApp, encontros mensais e agendas de leitura coletiva.
O livro como desculpa, a conexão como objetivo
Na prática, o livro funciona como um pretexto perfeito. Ele dá estrutura ao encontro, evita o silêncio constrangedor e cria um assunto em comum logo de cara. O que sustenta esses clubes ao longo do tempo não é a obra escolhida do mês. É o vínculo que se forma entre as participantes.
Os encontros acontecem em cafeterias, livrarias, parques e, cada vez mais, em espaços alugados especialmente para comportar o volume de pessoas interessadas. Muitos clubes começaram em ambientes pequenos e precisaram se reorganizar porque a procura superou a estrutura inicial. Esse crescimento mostra que a demanda por espaços de convivência feminina genuína está longe de ser um modismo passageiro.
A curadoria costuma ser coletiva. As participantes sugerem títulos, votam nas próximas leituras e trocam impressões em grupos de WhatsApp antes mesmo do encontro presencial acontecer. Isso transforma a leitura, normalmente solitária, em uma experiência compartilhada, com trocas de interpretação e pontos de vista que só surgem quando várias pessoas leem a mesma história ao mesmo tempo.
Networking sem aquele clima de evento corporativo
Cresce também o número de grupos de networking pensados exclusivamente para mulheres. A proposta é diferente da lógica tradicional de eventos corporativos, com crachá, cartão de visita e conversa protocolar. Esses encontros priorizam a construção de relações genuínas antes de qualquer interesse profissional direto.
A presença feminina em espaços de networking tradicionais ainda é menor do que a masculina, mesmo com o avanço das mulheres no mercado de trabalho. Isso ajuda a explicar por que surgem cada vez mais iniciativas criadas por mulheres e para mulheres, com o objetivo de equilibrar esse acesso a contatos, oportunidades e visibilidade profissional.
Muitos desses clubes misturam as duas frentes. Começam como grupo de leitura e, com o tempo, ganham um braço voltado para trocas profissionais entre as participantes. Advogadas, designers, empreendedoras e profissionais liberais relatam ter fechado parcerias, indicado trabalho umas às outras ou simplesmente encontrado apoio em momentos de transição de carreira dentro desses grupos.
Por que esse movimento cresce justamente agora
A geração mais jovem impulsiona essa retomada. Clubes de leitura deixaram de ser encontros silenciosos e ganharam formato mais descontraído, com rodas de conversa em bares, parques e cafés. A internet, especialmente o universo do BookTok, ajudou a popularizar a ideia de que ler pode ser social, e não apenas um hábito individual.
Existe também um componente emocional importante por trás dessa busca. Depois de anos de isolamento e de rotinas cada vez mais mediadas por telas, reunir-se fisicamente para conversar sobre um livro ou trocar experiências profissionais virou uma forma de resistência à solidão contemporânea. Ler em grupo muda a relação com a obra. Os comentários das outras participantes incentivam a continuar um livro nos dias de desânimo, e a experiência coletiva transforma até leituras difíceis em algo prazeroso.
O que esperar se você quiser entrar em um desses grupos
A maioria dos clubes é gratuita e funciona por convite direto pelo Instagram ou por indicação de outras participantes. Alguns cobram uma mensalidade simbólica para custear espaço e materiais, enquanto outros dependem apenas da vontade coletiva de se reunir uma vez por mês.
Antes de entrar em um grupo, vale observar o tom das leituras propostas, o tamanho do coletivo e a frequência dos encontros. Grupos menores tendem a criar vínculos mais próximos e rápidos. Coletivos maiores oferecem mais variedade de conexões, o que pode ser interessante para quem busca ampliar a rede de contatos profissionais além da amizade.
Esse movimento prova que conexão real ainda depende de presença. Nenhum algoritmo substitui o encontro marcado, o livro debatido cara a cara ou a troca de indicação profissional entre mulheres que se reconhecem na mesma fase de vida. Os clubes continuam crescendo, um encontro de cada vez.

Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, à proteção animal e comanda sua própria loja (MF Feminina), onde faz o comercio de roupas femininas, lingeries, cosméticos, perfumaria e produtos de beleza. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets e dicas de beleza.





