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Comportamento

Maternidade e saúde mental lideram pausas na carreira feminina: veja quanto tempo leva a recolocação e os passos para voltar ao mercado

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Uma rolada rápida pelo LinkedIn mostra só um lado da história: promoções, novos cargos, conquistas em sequência. O que essas publicações não contam é que boa parte de quem está por trás da tela já passou por um período longo fora do mercado de trabalho. Essa pausa pesa muito mais sobre as mulheres.

Um levantamento recente mostra que 65,9% das mulheres brasileiras já ficaram mais de 12 meses sem trabalhar. Entre os homens, esse número cai para 56,9%. A diferença é expressiva, e os motivos explicam por que ela existe.

Por que a pausa atinge mais as mulheres

Entre as mulheres, os principais motivos de afastamento são a maternidade, o cuidado com a saúde mental e a atenção a familiares. Entre os homens, o desemprego e as tentativas de empreender concentram a maior parte das respostas.

A pesquisa, feita pela consultoria Be Back Now em parceria com a NOZ Inteligência, ouviu 1.093 pessoas em 2025 e revela um cenário raramente discutido abertamente. Longos intervalos entre empregos são comuns. O impacto desses intervalos na carreira das mulheres, porém, segue sendo um assunto pouco debatido nas empresas.

Esse silêncio tem consequências práticas. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que 383 mil mulheres foram demitidas sem justa causa entre 2020 e 2025 antes de completarem dois anos do fim da licença-maternidade. A conta é direta: ser mãe recentemente ainda pesa contra a estabilidade profissional feminina no Brasil.

O mercado não está preparado para quem volta

Quase metade das pessoas que tentam retornar ao trabalho, 49,7% segundo o levantamento, relata resistência e falta de oportunidades nesse processo. A recolocação, quando acontece, é lenta: cerca de 40% de quem conseguiu voltar levou mais de um ano nessa jornada.

O despreparo está do lado de quem contrata. Trabalho voluntário, estudos informais, bicos e cuidado familiar geram competências reais durante o período de pausa. O mercado, porém, ainda não sabe reconhecer esse tipo de experiência dentro de um currículo tradicional.

Iniciativas como bolsas de estudo voltadas a mães fora do mercado e programas de mentoria têm surgido justamente para preencher essa lacuna, oferecendo qualificação técnica e suporte prático para quem quer recomeçar.

Histórias reais mostram caminhos diferentes

Cada pausa tem uma origem própria, e os desfechos também variam bastante.

Uma veterinária desligada de uma multinacional após 14 anos de empresa usou o período de afastamento para estudar inglês fora do país e reorganizar as prioridades profissionais. A recolocação levou um ano e meio. O aprendizado mais forte desse período foi entender a importância de manter o olhar no mercado mesmo durante uma fase estável no emprego.

Uma engenheira de alimentos enfrentou simultaneamente um burnout e uma demissão depois de 21 anos na mesma companhia. O afastamento, nesse caso, começou sem plano definido. Foi um tempo dedicado a reconectar vida pessoal e identidade profissional, longe da rotina corporativa. Meses depois, ela reconstruiu a carreira em outro formato, abrindo uma consultoria própria no setor em que já tinha experiência.

Essas trajetórias reforçam um ponto central: o tempo fora do mercado formal raramente é tempo perdido. É tempo reorganizado.

Como se preparar para o retorno

Manter a rede de contatos ativa é o primeiro passo prático para quem planeja voltar. Conversas informais com ex-colegas e ex-chefes evitam o isolamento e mantêm o nome circulando entre quem pode indicar oportunidades futuras.

Transformar a pausa em competência é outro movimento essencial. Administrar um orçamento apertado, lidar com crises familiares e coordenar trabalho voluntário geram habilidades de gestão, organização e resiliência que merecem espaço no currículo.

A tecnologia também ajuda nessa tradução. Listar as atividades realizadas durante o período de afastamento e usar ferramentas de inteligência artificial para identificar as competências desenvolvidas facilita enxergar valor onde antes parecia haver só um vazio no histórico profissional.

Controlar a narrativa sobre a própria trajetória faz diferença nas entrevistas. Ao ser questionada sobre a lacuna no currículo, a resposta ideal foca no que foi aprendido e no preparo construído para o retorno, não apenas no motivo da pausa.

Tratar a busca por recolocação como um trabalho em si mesma organiza o processo. Reservar horários fixos para pesquisar vagas, adaptar currículos, estudar e retomar contatos dá estrutura a uma fase que costuma parecer incerta.

Candidatar-se mesmo sem cumprir todos os requisitos de uma vaga é um exercício importante. Mulheres tendem a ser mais rígidas consigo mesmas nesse julgamento do que os homens, e essa autoexigência elevada fecha portas antes mesmo da primeira tentativa.

A pausa na carreira segue sendo uma realidade estatística para a maioria das mulheres brasileiras. Reconhecer isso, e tratar o retorno como um processo estruturado, é o que separa um hiato do fim de uma trajetória profissional.