Fauna & Vida Silvestre
Araponga produz um dos sons mais altos já registrados entre aves, ouvido a mais de um quilômetro
Pesquisadores comprovaram que a araponga-da-amazônia detém o recorde de canto mais alto entre todas as aves do mundo, um fenômeno que intriga cientistas até hoje
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1 hora atrásem
Por
Suzana Machado
No topo das montanhas da Amazônia setentrional, um pássaro branco do tamanho de uma pomba solta um grito que rivaliza com o som de uma britadeira. A araponga-da-amazônia, cujo nome científico é Procnias albus, foi confirmada por cientistas como a ave mais barulhenta já registrada no planeta, com vocalizações que chegam a 125,4 decibéis. Para efeito de comparação, esse volume é próximo ao de estar ao lado da caixa de som de um show de rock e supera com folga o ruído de uma motosserra em funcionamento.
O fenômeno intriga ornitólogos há anos, não apenas pela intensidade do som, mas pelo contexto em que ele acontece. O canto mais alto da araponga não é usado para se comunicar à distância, como seria esperado biologicamente. Ele é reservado justamente para o momento em que um macho está a centímetros de uma fêmea, num comportamento que os próprios pesquisadores descrevem como contraintuitivo.
Um recorde medido com rigor científico
A descoberta que consolidou a araponga como campeã mundial de volume veio de uma pesquisa conduzida por Jeffrey Podos, biólogo da Universidade de Massachusetts Amherst, em parceria com Mario Cohn-Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). O estudo, publicado na revista científica Current Biology em outubro de 2019, usou equipamentos de última geração para medir a pressão sonora dos cantos em campo, algo tecnicamente difícil de fazer com precisão em ambiente selvagem.
Antes da araponga, o título de ave mais barulhenta pertencia à uirapuru-de-chorão, também conhecida internacionalmente como screaming piha, outra espécie amazônica capaz de atingir cerca de 116 decibéis. A diferença entre as duas pode parecer pequena em números absolutos, mas a escala de decibéis é logarítmica. Isso significa que os 125,4 decibéis da araponga representam uma pressão sonora cerca de três vezes maior do que a registrada na piha, tornando a distância real entre as duas espécies muito mais significativa do que os números sugerem à primeira vista.
O segredo está na anatomia
O que intrigou os pesquisadores desde o início foi entender como um pássaro relativamente pequeno, com pouco mais de 28 centímetros de comprimento e cerca de 250 gramas, consegue produzir um som dessa magnitude. A resposta apareceu durante a dissecação de um espécime, quando Cohn-Haft notou uma musculatura abdominal extremamente desenvolvida, muito mais robusta do que a de outras aves de tamanho semelhante.
Essa musculatura funciona como um verdadeiro motor de compressão de ar. Assim como um cantor lírico treinado usa o diafragma para sustentar notas potentes, a araponga conta com tecidos abdominais até cinco vezes mais espessos que os de aves comparáveis, permitindo controlar com precisão o fluxo de ar que passa pela siringe, o órgão vocal das aves. Essa estrutura funciona como um fole reforçado, capaz de sustentar picos de pressão sonora muito acima do que o corpo de um pássaro comum suportaria.
Há ainda um detalhe curioso descoberto pelos cientistas: quanto mais alto o grito, mais curta é sua duração. Esse padrão sugere que existe um limite fisiológico real para a araponga, um ponto em que o sistema respiratório simplesmente não consegue sustentar tamanha pressão sonora por mais tempo. O canto mais estridente da espécie funciona, portanto, como uma explosão vocal breve e calculada, e não como um grito contínuo.
O paradoxo do acasalamento
O comportamento observado durante o período reprodutivo é o que mais desafia a lógica esperada na natureza. Normalmente, sons de alta intensidade evoluem para comunicação à longa distância, permitindo que um animal seja ouvido mesmo em ambientes com muita vegetação ou ruído de fundo. A araponga inverte essa regra por completo.
Durante as expedições de campo, os pesquisadores observaram que os machos se posicionam em poleiros de exibição, também chamados de perchas de canto, e esperam a aproximação de uma fêmea interessada. É exatamente quando ela se aproxima, muitas vezes a menos de um metro de distância, que o macho solta seu grito mais potente, o mesmo que ultrapassa os 125 decibéis. Isso significa que a fêmea escolhe se expor voluntariamente ao som mais intenso já registrado entre as aves, numa distância em que o impacto sonoro é máximo.
Os cientistas ainda não têm certeza do motivo por trás desse comportamento. Uma das hipóteses é que as fêmeas usam a proximidade para avaliar a real capacidade física do macho, já que sustentar um grito daquela intensidade exige boa condição corporal e desenvolvimento muscular apurado, funcionando como um indicador honesto de qualidade genética. Outra possibilidade é que a exposição próxima ao som funcione como um teste de resistência, embora ainda não esteja claro se esse comportamento causa algum dano auditivo temporário às fêmeas.
Um som que atravessa a floresta
A intensidade do canto da araponga-da-amazônia tem um efeito prático notável na floresta em que ela vive. Pesquisadores e observadores de aves relatam ser possível ouvir o grito da espécie a mais de um quilômetro de distância, mesmo em meio à densa vegetação amazônica, que normalmente absorve e dispersa boa parte dos sons produzidos por outros animais.
Esse alcance sonoro coloca a araponga numa posição peculiar dentro do ecossistema. Diferentemente da maioria das aves que dependem de cores vistosas ou danças elaboradas para se destacar, essa espécie construiu sua estratégia reprodutiva inteiramente em torno do som. A araponga vive nas copas altas e de difícil acesso das florestas montanhosas do norte do Brasil, nas Guianas e em parte da Venezuela, um habitat onde a visibilidade é limitada e o som se torna a ferramenta de comunicação mais eficiente disponível.
Vale registrar que o gênero Procnias reúne outras espécies de arapongas encontradas em diferentes biomas brasileiros, como a araponga-do-nordeste e a araponga-comum, essa última típica da Mata Atlântica e conhecida popularmente como voz da floresta por seu canto metálico característico, que lembra o som de um ferreiro batendo numa bigorna. Nenhuma delas, porém, se aproxima do volume registrado pela prima amazônica, que segue isolada no topo do ranking mundial de intensidade sonora entre as aves.
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.
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