Jardinagem & Cuidados
Essa fruta parece milho, cheira a abacaxi e engana quem tem pressa
Conhecida como costela-de-adão, a monstera produz um fruto que só se torna seguro depois de um processo natural de maturação que pode levar meses.
Publicado
1 mês atrásem
Por
Mel Maria
Toda planta que cultivo carrega uma história, mas poucas me surpreendem tanto quanto a costela-de-adão. Ela está em quase toda casa de quem gosta de folhagem tropical, com aquelas fendas características que lembram queijo suíço. O que pouca gente sabe é que essa mesma planta produz um fruto comestível, e que esse fruto só se torna seguro depois de esperar o tempo certo.
O nome científico já entrega o veredito de quem primeiro provou: Monstera deliciosa. Reza a história que a Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II, tinha essa fruta como uma de suas preferidas. Fora do Brasil ela é chamada de ceriman, e em outros países ganhou apelidos como planta salada de frutas, numa referência direta ao sabor.
Por que ela não pode ser comida verde
Antes de falar do sabor, preciso explicar o motivo do cuidado. Toda a planta, incluindo o fruto ainda verde, contém cristais microscópicos de oxalato de cálcio, estruturas parecidas com agulhas que os botânicos chamam de rafídios. Quando entram em contato com a boca ou a garganta, esses cristais causam irritação intensa, ardência e, em casos de ingestão maior, inchaço.
É por isso que a regra é simples e não admite pressa: só se come a fruta madura. E madura, nesse caso, é uma palavra que carrega peso. No pé, o processo de maturação pode levar quase um ano inteiro. A fruta vai amadurecendo de cima para baixo, e as escamas verdes que a cobrem começam a se soltar sozinhas quando ela finalmente está pronta.
Uso dois sinais para saber se chegou a hora. O primeiro é visual: as escamas se desprendem com facilidade, quase sem esforço, revelando a polpa clara por baixo. O segundo é o olfato. Uma fruta madura solta um perfume doce que se espalha pelo ambiente, um aroma que lembra uma mistura de abacaxi, banana e um toque cítrico. Se a fruta ainda resiste ao toque e não exala nada, o recado é claro: espere mais.
O sabor que surpreende
Quem já provou descreve como uma salada de frutas tropical concentrada em um único bocado. Notas de abacaxi, banana, manga e um fundo que lembra fruta-do-conde se misturam na polpa branca e macia. A textura lembra a de uma fruta cremosa, quase derretendo na boca.
Vale um cuidado na hora de comer: as sementes pretas escondidas na polpa são duras e não se destinam ao consumo. O ideal é retirá-las antes de servir, principalmente se a fruta for usada em receitas.
Um parentesco que explica muita coisa
A costela-de-adão pertence à família das aráceas, a mesma do antúrio, da copo-de-leite e do comigo-ninguém-pode. Esse parentesco explica a toxicidade das demais partes da planta, já que o oxalato de cálcio é uma característica comum ao grupo. Na prática, isso significa manter folhas e caules fora do alcance de crianças pequenas e de pets curiosos, um cuidado que vale para praticamente toda a família botânica.
Um dado que gosto de destacar: dentro do universo das PANC, as plantas alimentícias não convencionais, a monstera ocupa um lugar curioso. Ela é ao mesmo tempo uma das plantas ornamentais mais vendidas do mundo e uma fruta quase desconhecida do grande público, mesmo crescendo silenciosamente em milhões de vasos e jardins.
Como cultivar em casa
A planta se adapta bem ao clima brasileiro e cresce tanto em vaso quanto direto no jardim, desde que receba luz indireta e regas regulares, sem encharcamento. O detalhe que poucos comentam é que, cultivada dentro de casa, ela raramente frutifica. A produção de frutos depende de condições próximas às da floresta tropical de origem, com umidade alta e boa luminosidade, algo mais fácil de conseguir em jardins externos do que em apartamentos.
Se o objetivo é só decorar o ambiente com aquelas folhas exuberantes, isso não é problema algum. Mas quem sonha em provar o fruto precisa entender que paciência aqui não é figura de linguagem: é parte do processo.
Como consumir
A polpa pode ser comida in natura, sempre depois de bem lavada e com as sementes removidas. Também rende boas receitas de sucos, geleias, sorvetes e sobremesas, aproveitando o aroma marcante como destaque do prato. Prefiro sempre provar um pequeno pedaço primeiro, mesmo com a fruta já madura, porque a sensibilidade à irritação varia de pessoa para pessoa.
Na próxima vez que passar por uma costela-de-adão em um jardim ou vaso de vizinho, vale parar e observar se há algum fruto se formando entre as folhas recortadas. É raro, mas quando acontece, é um daqueles pequenos presentes que a natureza tropical ainda guarda para quem tem paciência de esperar.
Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.
Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.
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