Jardinagem & Cuidados
Por que a bromélia imperial é ameaçada de extinção na natureza (e fácil de cultivar em casa)
Nativa das serras do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, a Alcantarea imperialis funciona como um pequeno reservatório de água na natureza e guarda sua floração espetacular para um único momento da vida
Publicado
1 mês atrásem
Por
Mel Maria
Toda semana alguém entra na Mel Garden e pergunta sobre aquela bromélia gigante, a que forma uma roseta enorme e parece esculpida. É a Alcantarea imperialis, mais conhecida como bromélia imperial, e antes de falar sobre como cuidar dela eu gosto de contar uma curiosidade que costuma surpreender meus clientes: essa planta consegue armazenar até 30 litros de água na cavidade central formada pelas folhas.
Na natureza, esse reservatório vira um pequeno ecossistema, onde pequenos animais encontram abrigo e umidade mesmo em períodos de seca.
De onde vem essa planta imponente
A bromélia imperial é nativa da Mata Atlântica, principalmente das encostas rochosas da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, e de áreas serranas de Minas Gerais, em altitudes que chegam a 1.500 metros. Ela cresce presa a paredões de pedra, sustentada por raízes fortes e fibrosas que servem mais para fixação do que para absorção de nutrientes, já que boa parte do alimento vem da matéria orgânica acumulada no próprio vaso central.

O nome do gênero, Alcantarea, é uma homenagem a Dom Pedro II de Alcântara, o último imperador do Brasil. Faz sentido: poucas plantas ocupam espaço com tanta presença quanto essa. Adulta, ela chega a 1,5 metro de diâmetro, com folhas largas e coriáceas que variam entre o vermelho intenso, o roxo e o verde acinzentado conforme amadurecem.
Aqui em Curitiba, onde o inverno costuma assustar quem sonha com um jardim tropical, um dos primeiros mitos que eu desfaço é que essa bromélia não sobrevive ao frio. Ela suporta geadas leves sem grandes problemas, justamente por vir de regiões serranas onde as temperaturas caem bastante à noite. Não é a primeira escolha para quem tem geadas fortes e constantes, mas em climas subtropicais como o nosso ela se adapta bem, desde que protegida nos dias mais rigorosos.
Uma floração que acontece uma única vez
Talvez a característica mais surpreendente da bromélia imperial seja o próprio ciclo de vida. Ela é monocárpica, ou seja, floresce uma única vez ao longo de toda a existência. Esse momento pode levar cerca de dez anos para chegar, dependendo das condições de cultivo, e quando finalmente acontece, a planta envia uma inflorescência ereta que pode ultrapassar 3 metros de altura, coberta por brácteas vermelhas e flores amarelas que atraem beija-flores e abelhas.
Depois de florescer, a planta-mãe morre. Isso costuma preocupar quem está cultivando pela primeira vez, mas faz parte do processo natural da espécie. Antes de morrer, ela produz brotos ao redor da base, os chamados filhotes, que dão continuidade ao ciclo e podem ser separados para formar novas mudas. Na prática, é uma despedida que já vem com a próxima geração pronta para crescer.
Como eu cultivo a bromélia imperial na floricultura
Na Mel Garden, mantenho as bromélias imperiais tanto em vasos quanto direto no solo do jardim de exposição, e o cuidado muda pouco entre um formato e outro.

Sol pleno ou meia-sombra funcionam bem, mas o ideal depende do clima da região. Em locais mais quentes, prefiro deixar a planta em meia-sombra, para evitar que as folhas queimem nas horas mais fortes do dia. Já em climas mais amenos como o nosso, o sol direto por algumas horas ajuda a intensificar a coloração avermelhada da folhagem.
O substrato precisa ser leve e bem drenado, rico em matéria orgânica. Uso uma mistura de terra adubada com areia, às vezes acrescentando casca de pinus ou carvão vegetal para melhorar a aeração e evitar que a água fique parada nas raízes. Encharcamento é o principal erro que vejo entre quem está começando.
Sobre a rega, um detalhe que poucos sabem: o mais importante não é molhar a terra, e sim manter sempre um pouco de água dentro do vaso central formado pelas folhas. É ali que a planta absorve boa parte da umidade de que precisa. Borrifar água nas folhas também ajuda a simular a umidade que ela receberia naturalmente na mata. As raízes podem ser regadas com menor frequência, algo como duas vezes por semana, sempre observando se o substrato já secou na superfície.
Um detalhe que mudou a forma como eu vejo essa planta
Um ponto que considero importante compartilhar, e que poucos textos sobre o tema mencionam, é que a bromélia imperial está classificada como vulnerável em termos de conservação na natureza. Isso reforça algo que sempre repito para quem compra plantas na floricultura: nunca retire espécimes do ambiente natural. Toda muda que vendemos vem de propagação, seja por sementes, seja pela separação dos filhotes das plantas-mãe. É uma forma simples de ajudar a preservar populações silvestres sem abrir mão da beleza da espécie em casa.
Vale lembrar também que a Alcantarea é um gênero com cerca de 22 espécies, e algumas parentes da imperial impressionam ainda mais em tamanho. A Alcantarea roberto-kautskyi, nativa do Espírito Santo, pode ultrapassar 3 metros de altura em seu habitat natural. Isso ajuda a entender por que a bromélia imperial, mesmo sendo uma das maiores da família, ainda está longe de ser a maior bromélia brasileira.
Se você está pensando em incluir uma bromélia imperial no jardim ou em um vaso grande na varanda, o investimento em paciência vale a pena. É uma planta que cresce devagar, mas que recompensa com décadas de folhagem exuberante antes de fechar seu ciclo com uma floração que dificilmente sai da memória de quem vê.
Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.
Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.
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