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Riacho do Cavouco ganha jardim filtrante inédito no Nordeste: entenda como a técnica do rio Sena chega ao Recife
A tecnologia usada em Paris para recuperar o rio Sena passa a funcionar em cerca de 7 mil m² do Riacho do Cavouco e já mostra resultados na despoluição do Capibaribe
Publicado
2 semanas atrásem
Por
Suzana Machado
Um dos riachos mais importantes da Zona Oeste do Recife passou a contar com um aliado improvável no combate à poluição: raízes, pedras e microrganismos. O Riacho do Cavouco, que nasce dentro do campus da Universidade Federal de Pernambuco e deságua no rio Capibaribe, recebeu o primeiro projeto de jardins filtrantes implantado no Nordeste, uma técnica que trata água suja sem adicionar nenhum agente químico ao processo.
A tecnologia funciona no trecho em que o riacho corta o Parque do Caiara, na Iputinga, e ocupa uma área de aproximadamente 7 mil metros quadrados. Ali, parte da vazão poluída que seguiria direto para o Capibaribe passa por um sistema de tanques plantados antes de voltar ao curso d’água, já tratada.
Como as plantas conseguem limpar a água sozinhas
O princípio por trás do jardim filtrante chama-se fitorremediação. Tanques escavados no solo e impermeabilizados recebem um substrato específico, geralmente camadas de pedra, e nele são plantadas espécies aquáticas nativas. As raízes dessas plantas formam parceria com microrganismos que colonizam naturalmente o substrato, e juntos assumem o trabalho de limpeza.
Esses microrganismos transformam compostos de nitrogênio e fósforo presentes no esgoto, enquanto as plantas absorvem metais, matéria orgânica e outros poluentes dissolvidos na água. O líquido entra sujo em um ponto do sistema, desce por gravidade entre os tanques e sai filtrado no outro extremo, pronto para devolver oxigênio ao riacho. Levantamentos sobre projetos semelhantes no Recife indicam capacidade de tratar entre 350 mil e 360 mil litros de água por dia, com redução de até 90% a 95% da carga poluente que chegava ao curso d’água.
A manutenção também pesa a favor da técnica. Depois que o jardim está formado e as espécies vegetais se estabelecem, os próprios microrganismos se proliferam sozinhos na zona das raízes, o que reduz drasticamente o custo de operação se comparado a uma estação de tratamento convencional.
A técnica que já devolveu vida ao rio Sena
A ideia não nasceu em Pernambuco. Jardins filtrantes foram desenvolvidos pelo arquiteto paisagista francês Thierry Jacquet, que aplicou o conceito para ajudar na recuperação do rio Sena, em Paris, um dos cursos d’água mais vigiados do planeta. Lá, o sistema de filtragem natural contribuiu para melhorar a qualidade da água em pontos historicamente poluídos, abrindo caminho, anos depois, até para banho em trechos do rio durante os Jogos Olímpicos de 2024.
Replicar esse modelo em um riacho urbano do Recife coloca a cidade em um grupo ainda pequeno de municípios brasileiros que testam soluções baseadas na natureza para resolver problemas de saneamento, em vez de depender exclusivamente de obras de infraestrutura pesada.
Parceria internacional por trás do projeto
A iniciativa tem financiamento do Fundo Verde do Clima e envolve investimento da ordem de R$ 4,5 milhões. O projeto é implementado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em parceria com a Agência Recife para Inovação e Estratégia (Aries), o Porto Digital e a Prefeitura do Recife, que assumiu a operação contínua do sistema depois da fase piloto.
Para a gestão municipal, o apelo da solução vai além do tratamento da água. O jardim recupera o contato da população com um espaço antes associado a esgoto a céu aberto e cria uma área verde dentro do Parque do Caiara, somando função ambiental e urbanística em um único projeto.
O Cavouco é só um afluente entre dezenas que alimentam o Capibaribe, mas a lógica por trás do jardim filtrante pode se espalhar. Se o modelo se confirmar economicamente viável em escala maior, riachos poluídos de outras cidades brasileiras, que hoje dependem de obras caras e demoradas, podem encontrar na natureza uma rota mais rápida e barata de volta à vida.
Informações: portalsustentabilidade
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.
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